António Filipe Pimentel nasceu em São Pedro de Alva, Penacova, em 1959, mas pelo percurso académico e profissional desempenhado identifica-se como sendo coninbrisense de gema. Doutorado com a dissertação "O Paço Real de Coimbra: das origens ao estabelecimento da Universidade", pela Universidade de Coimbra (UC), António Filipe Pimentel é professor universitário, investigador, foi pró-reitor da UC e responsável pela candidatura da universidade a Património Mundial. Desde Setembro, é o novo director do Museu Grão Vasco.
Tomou posse há dois meses. O Museu era o que esperava?
O Museu Grão Vasco (MGV) é melhor do que esperava. A surpresa foi muito positiva. Porque o equipamento é de facto muito interessante, pelas potencialidades que possui. Por ele mesmo e pela cidade em que se encontra. Por ele mesmo, devido à qualidade do projecto arquitectónico, o discurso museográfico e o prestígio do equipamento. Surpresa agradável é também a relação afectiva quase psicológica, entre a cidade e o Museu. As pessoas estão muito ligadas ao MGV e, exteriormente, o Museu tem uma visibilidade muito grande e ocupa um espaço simbólico muito importante. Foi uma realidade que considerei particularmente atraente. Na altura pensei muito, era um risco redireccionar a minha vida. Agora, estou muito contente de o ter assumido.
Há quem diga que a candidatura ao MGV é um retrocesso na sua carreira universitária.
Já disseram isso? Engraçado. Penso que não. Eu pensei muito antes de aceitar este desafio. Eu tinha funções na reitoria da universidade de Coimbra. O Sr. reitor tinha um plano de vida para dois anos e depois logo se via o que iria acontecer. Estava aberto um caminho que não sei onde iria ter, mas a candidatura da Universidade a Património Mundial integrava-se nesse caminho. O MGV aparece um pouco vindo do éter. Considero que são duas coisas diferentes. Aquilo que eu pensei foi num desdobramento natural da minha carreira. O que me seduziu foi conhecer o museu e a experiência que me faltava em termos profissionais.
Quando chegou ao MGV havia programação definida?
Não havia e é natural que não existisse. O meu colega e amigo, Agostinho Ribeiro, fez um esforço enorme que a tutela lhe pediu para assegurar a gestão interina. O museu não esteve parado. Só não tinha uma estratégia definida
Qual é a sua visão estratégica para o Museu?
Uma visão estratégica tem sempre diversas linhas de orientação, mas há duas linhas que são centrais. Uma delas é de que, partindo da consciência crítica de que o Museu não é apenas um dos grandes museus culturais do país mas é também o maior outdoor que a cidade pode ter, ele tem todas as condições para ser a grande montra no domínio da cultura.Todo o investimento que se fizer no Museu tem repercussões no exterior. Temos de pensar na outra linha orientadora: para que essa repercussão se faça com eficácia é preciso assentar num bom trabalho de comunicação. A visibilidade é a grande linha estratégica de toda a programação.
Os museus têm estado fechados em sí?
Penso que sim. Há um grande trabalho a fazer nos museus ao nível da comunicação. A falta de comunicação decorre da natural falta de meios. Os museus que têm mais meios trabalham muito bem em termos de comunicação. A Fundação de Serralves é um excelente exemplo de comunicação.
A falta de comunicação justifica-se apenas pela limitação orçamental ou pela falta de apetências das equipas para esse trabalho?
Justifica-se pela falta de condições financeiras. Não há nada mais desmotivante do que trabalhar sem meios. As pessoas conseguem submeter-se a condições difíceis de trabalho se têm uma luz ao fundo do túnel, se sabem que é uma situação transitória. Claro que se pode dizer que com mais imaginação podem-se fazer mais coisas. É o que tento fazer, tento passar uma imagem urbana, cosmopolita e não provinciana do Museu.
Como vai motivar a sua equipa?
Já consegui motivar através da atitude. Eu tendo a achar que os formalismos são importantes para aquilo que servem. Em tudo o resto podemos ser perfeitamente informais. A noção que eu tenho é de que o trabalho deve ser de espaço de realização pessoal para mim e para todos os que trabalham comigo. Se se está motivado há muita coisa que se pode fazer com muito poucos meios. Agora, para programar com a dignidade abaixo daquela que Viseu não deve aceitar situar-se, só pode ser feita com meios. Meios do Estado, mas também têm de ser meios locais. Se a cidade percebe que tem no Museu o melhor outdoor a melhor montra irá disponibilizar-se a ser mecenas.
Está a contactar possíveis mecenas e parceiros? Que resposta tem obtido?
Sim estamos. Temos tido uma resposta francamente positiva.
Essa receptividade traduz-se mais em apoio de estruturas ou apoio financeiro?
No apoio financeiro á programação. Tal como a autarquia de Viseu patrocinou a exposição que se encontra actualmente no museu. O apoio terá de ser nesse registo se quisermos trabalhar a sério. Sei que algum apoio virá da tutela. Mas só com esse apoio não descolamos do panorama provinciano de umas iniciativazitas locais sem mais projecção. É uma questão de gestão. De se gerir provincianamente, com horizontes curtos ou de ser capaz de gerir estrategicamente com ampliada visão e de forma ambiciosa.
Os museus podem ser geridos como empresas?
Devem ser geridos como empresas mas com cautela. Isto é, do ponto de vista da procura de eficácia, da rendibilidade do investimento, pois com certeza. Na nossa casa estamos a gerir dinheiros públicos e mesmo os dinheiros privados são investidos com essa atitude pública de cidadania. Por outro lado, os museus não podem ser geridos como empresas porque a finalidade dos museus não é uma finalidade empresarial, não é gerar lucros. É, sim, gerar mais valias em termos de visibilidade, afirmação e de projecção exterior de identidades.
"Mais importante que ter a festa no Museu é ter a festa na cidade"
O que nos pode revelar em relação a programação??
O que posso dizer é que se tudo correr bem ouvir-se-á falar muito de Viseu no país e no resto mundo à sua escala respectivamente e pelas melhores razões.
Não pode adiantar situações concretas?
Não. Está tudo ainda no limbo, ainda não foi apresentado ao Instituto de Museus e Conservação. A programação ainda está a ser fechada. Mas tenho razões para afirmar que será um ano em cheio no MGV.
E em relação à programação de Natal já nos pode revelar o que irá acontecer?
Também não posso desvendar. O princípio é que é de muita má pratica espreitar o sapatinho antes da consoada.
Para além de uma estratégia de comunicação está a apostar numa estratégia de suspense…
Também faz parte da comunicação.
A formalidade das instituições pode ser responsável por afastar o publico mais jovem do MGV?
Falava dos museus em geral. O que eu penso que afasta o público jovem é a rigidez da programação e do espaço. Os jovens precisam de ser estimulados a virem e a regressarem ao MGV, para verem coisas novas. O objectivo é que interajam com uma outra dimensão patrimonial de forma criativa e dinâmica.
Como é que isso pode ser feito?
Uma das coisas que posso desvendar da programação é que ela apostará na desconstrução desse discurso demasiado rígido. Dinamismo é a palavra de ordem na atitude de programação e na forma de ocupação do espaço. A abertura da cafetaria, a criação de wireless em todo o museu, incluído nos claustros…só isso irá atrair os jovens e gerar boas rotinas de como frequentar um museu. A programação de eventos e exposições irá acelerar esse dinamismo.
Para levar gente ao MGV é necessário ter com frequência exposições temporárias?
Para levar gente ao museu precisamos de exposições temporárias, actividades e programação. O MGV é um dos museus mais visitados de Portugal. Temos uma média de 60 mil visitantes por ano. Um número que, este ano, será ultrapassado devido à exposição "Arte, poder e religião nos tempos medievais: a identidade de Portugal em construção". A exposição está a chegar aos 15 mil visitantes porque a autarquia tem feito um excelente trabalho de comunicação e porque está alojada no MGV o que por si só lhe dá uma enorme visibilidade. Há um número significativo de visitantes muitos deles vindos de fora. Se não conheciam Viseu ficaram a conhecer. No fim de contas, foi uma operação de marketing muito económica para aquilo que rendeu. É esta ideia que pretendo transmitir. Não foi só o Museu que beneficiou com a exposição, foi também a cidade que cresceu no seu turismo.
O claustro já foi utilizado para festas radicais. Choca-o esse uso?
Não me choca. O museu é um recinto de cidadania. Por isso não falamos de público mas de públicos. O museu tem de ser um espaço onde todos se sintam bem. Isso não significa que para ter públicos é preciso converter o Museu numa discoteca. Penso que é possível encontrar um equilíbrio entre as coisas de maneira a que todas as pessoas se sintam bem no museu.
As festas radicais não entram nesse equilíbrio?
Podem entrar, mas, quer dizer, podem não ser necessariamente dentro do museu. Posso revelar um pouco do que será a "Noite dos Museus". Em termos de ideia genérica, a programação passa pelo envolvimento do centro histórico numa festa, passa por criar uma festa a partir da "Noite dos Museus". Sendo uma iniciativa promovida pelo IMC não nos podemos esquecer que temos ali, no "Adro da Sé, uma estrutura rara da qual temos que tirar partido. Temos três museus juntos, o MGV o Museu da Misericórdia e o Museu tesouro da Sé. Temos um centro histórico que é magnífico, cheio de restaurantes e bares apelativos. A lógica aponta para que o Museu não festeje sozinho a sua noite dos museus mas que contribua para criar uma dinâmica. Aquilo em que vamos trabalhar, assenta em criar parcerias com todas as forças e em diálogo com a autarquia. É muito mais interessante ter uma festa na rua do que dentro do Museu. Mais importante que ter a festa no Museu é ter a festa na cidade. Para alem de uma programação do MGV caminhamos para uma programação do Centro histórico.
|