“Nunca teremos uma feira com a dimensão que queremos, enquanto não tivermos essa estratégia de internacionalização”

JOSÉ MOREIRA

José Moreira assumiu no inicio de 2011 a liderança da Expovis, empresa de capitais maioritariamente municipais, que organiza diferentes feiras sectoriais, em Viseu e que tem todos os anos como tarefa principal preparar a Feira de São Mateus. A edição deste ano tem um número redondo, 620 anos. O antigo professor e ex-vereador do PSD juntamente com a sua equipa introduziu mais algumas alterações pontuais, mas assume, quase num discurso empresarial, que o grande salto do certame passa por uma estratégia internacionalização e que não está só nas suas mãos. A poucos dias de abrir a feira (10 de agosto), e cerca de dois anos depois de assumir os comandandos da organização,José Moreira tem uma certeza: “Deu para perceber que a Feira de S. Mateus é a grande festa de Viseu”. Agora, é importante que esta grande festa seja a grande festa da região Centro e que seja uma grande festa de Portugal, esse é que é o objetivo”.

 

 

Qual foi a sensação que ficou depois de terminada a edição do ano passado da Feira de S. Mateus, a primeira organizada por José Moreira?

É um lugar-comum dizer que me senti satisfeito, mas foi mais do que isso, foi uma experiência nova e sobretudo porque veio de encontro a algo que me está muito intrínseco, que é a vontade de querer inovar, de querer criar, de lhe dar um contributo forte para o crescimento da cidade. Julgo que o desafio que se me impôs foi dar caminho à opinião generalizada de que a Feira precisava de se rejuvenescer e de se reencontrar com a sua própria história e com aquilo que os viseenses querem que ela seja. Senti que no final da primeira edição da minha responsabilidade demos um pequeno passo, mas há ainda bastante caminho para fazer.

 

Que pequeno passo foi esse?

Procurar uma intervenção diferente, criando o tal ponto de encontro ao dar mais espaço às pessoas dentro da feira. Julgo que isso aconteceu e é a opinião generalidade das pessoas. Numa perspetiva de autocrítica, reconheço que o espelho de água é uma boa localização, mas não resultou como eu sonhei.

 

Vai manter-se este ano?

Não. Vamos fazer uma nova tentativa, embora aquela zona continue a ser aproveitada para outras iniciativas em que procuramos chamar público (mercado de artigos em segunda mão e artesanato “Negócio de Rua”), porque na feira há circuitos. Estou convicto que o espaço da feira é um espaço historicamente talhado, que está bem recuperado, é muito bonito e tem um enquadramento fantástico, mas que precisa de ser repensado e a feira precisa de olhares diferentes. É esse caminho que é necessário fazer, com um olhar muito especializado que falta à feira.

 

Enquanto organizava esta edição em que pensava?

Um pouco na insatisfação de não poder concretizar tudo ao mesmo tempo.

 

Tem sido criticado por ter chegado com muitas e novas ideias para “revolucionar” a Feira e, no entanto, tudo parece manter-se.

Esta minha passagem pela Expovis e pela Feira é uma tentativa de fazer caminho e de procurar ir construindo uma feira que corresponda às expetativas.

 

A feira completa este ano 620 anos, mas o certame nem sempre teve este figurino. As edições atuais retratam a história do certame?

Aí está um dos aspetos que ainda não consegui concretizar, que é a ideia da celebração da memória das pessoas que são a própria feira. Essas memórias, essas vivências estão cá, mas é necessário redescobri-las, não para fazer como se fazia há 60 anos, mas para construir uma feira melhor.

 

Quando pensou na edição deste ano o que lhe ocorreu imediatamente?

A palavra que me ocorreu foi desafio.

 

Qual é o desafio para este ano?

Trazer mais pessoas à feira, fazer mais, fazer melhor e conseguir melhores resultados.

 

Este ano a feira vai ter mais ou menos feirantes?

Aumentámos claramente o número.

 

Curioso em tempo de crise.

As pessoas vêm na feira uma oportunidade de negócio. Não nos podemos esquecer que numa feira há negócio. Vou dar um exemplo: o corredor do pavilhão Multiusos destinado a instituições que ficavam ali gratuitamente, este ano, foi vendido.

 

Como é que se sente a crise na edição deste ano?

Nós sentimos este ano uma maior motivação comercial, de vender e de ganhar dinheiro, o que é positivo. Neste ambiente de crise que todos vivemos, a feira é uma oportunidade para ganhar mais algum dinheiro.

 

A crise acabou por facilitar o negócio de contratação de bandas?

Nós contratamos as bandas com bastante tempo de antecedência. Programamos, sabemos o que queremos e em função disso criamos a programação.

 

A aposta é nacional.

Sim. Acho que a edição 620 vai proporcionar grandes espetáculos.

 

O que lhe está a dar mais gozo fazer este ano?

Acho que é tudo. Dá-me gozo programar a própria feira em termos de espetáculos. É dá-me muito gozo ouvir os jovens e ouvir as pessoas que me procuram quase diariamente a fazer propostas. Ao longo do ano recebo centenas de pessoas e imensos mails a dar sugestões. É um alento muito interessante e já deu para perceber que a Feira de S. Mateus é a grande festa de Viseu. Agora, é importante que esta grande festa seja a grande festa da região centro, que seja uma grande festa em Portugal, esse é que é o objetivo. Temos que derrubar essas fronteiras e alarga-las. A Feira de S. Mateus tem que ser uma grande iniciativa nacional e internacional.

 

Continua a ter uma estratégia de internacionalização para a feira?

É um sonho que todos nós acalentamos. É difícil sobretudo nos tempos que correm chegar a Salamanca ou a Vigo e dizer: temos aqui a Feira de S. Mateus. Mas é evidente que esse é o caminho, nós nunca teremos uma feira que tenha a dimensão que queremos, enquanto não tivermos essa estratégia de internacionalização.

 

Essa internacionalização passa por uma nova programação musical?

Não deve ser só isso. É pensar para além da Serra da Estrela, é pensar para além da Fronteira de Vilar Formoso ou da fronteira de Valença e perceber que do lado de lá, há um conjunto enorme de pessoas que podem ser público, devem ser público da Feira de S. Mateus e que podem vir fazer negócio.

 

Não incluiu uma banda estrangeira no cartaz deste ano porquê?

Tivemos oportunidade disso, simplesmente deve ser avaliada, porque são clachês que, não sendo proibitivos, exigem uma decisão diferente. Gostaria imenso de trazer vários nomes e tivemos perspetivas de ter grandes nomes na feira deste ano…

 

É uma questão de orçamento?

Não é só uma questão de orçamento, assumo que há limitações orçamentais e tivemos cuidados especiais em tempo de crise.

 

Como é que se consegue dar o salto para a internacionalização de que fala?

Eu pergunto. A feira de S. Mateus tem espaço para levar 40/50 mil pessoas na zona do palco? Há um redimensionamento necessário. Este ano temos uma programação com muita qualidade, muito virada para a juventude, porque assumo que quero que os jovens venham à feira, e trabalhei afincadamente nesse sentido.

 

Além do espaço, o chamado preço social de entrada na Feira (2,5 euros) limita a programação?

É evidente que condiciona. Mesmo a decisão de no ano passado termos subido para cinco euros a entrada em alguns espetáculos, os James não deram lucro. Há uma cultura de feira com um preço social, que eu concordo.

 

Que tipo de anfitrião é na feira? No ano passado acusaram-no de andar pouco no recinto e quando andava por lá nem sequer cumprimentava os feirantes…

O ano passo estava mais numa perspetiva de análise e não foi fácil. Este ano estou bastante mais tranquilo. É legítimo que algumas pessoas sintam a mudança e estranhem um pouco quando aparece uma cara nova com métodos novos. Este ano não há razões nenhumas para reticências e tem havido um diálogo muito importante e construtivo. Não há feira sem feirantes, agora, quem organiza a feira é a Expovis.

 

O tema base do cartaz da edição 620 são os 850 anos da morte de São Teotónio. De que forma é que a feira vai homenagear o padroeiro da cidade de Viseu?

Além do cartaz, o livro oficial da feira vai ter referências ao São Teotónio. Vamos ter também várias iniciativas de um grupo de Viseu que vai celebrar o São Teotónio.

 

Que perspetiva nova é que quer dar ao livro da feira?

Torná-lo um documento de consulta, de estudo ao ir buscar as memórias de Viseu. O livro continua a ter o suporte de publicidade, mas queremos dar-lhe uma feição diferente, com novos conteúdos.

 

O site www.feirasaomateus.pt é também uma aposta da organização. Porquê?

Temos que perceber e respeitar o número de pessoas que hoje quer saber da feira através desses canais. Arejámos a comunicação da feira nas redes sociais. Esse é um desafio que não está terminado.

 

Fale-nos da tenda Multiusos que vai ficar instalada em frente ao Forum Viseu?

Eu não quero que, ao fim da primeira semana, as pessoas digam: Já fui à feira, já vi tudo. A nossa ideia é na tenda Multiusos, o tal segundo palco, criado num espaço de 1500 metros quadrados, reunir um conjunto de iniciativas com as quais queremos criar novidade dentro da própria feira. A ideia da Mostra Beirã (gastronomia), da saúde e bem-estar, do desporto, de propostas musicais, são iniciativas com que pretendemos trazer mais gente e que a feira seja mais agradável para um maior número de pessoas.

 

Quais a melhor e pior recordação destes cerca de dois anos de trabalho na Feira de S. Mateus?

Tive um momento difícil, que ainda hoje não compreendo, quando no ano passado houve uma paralisação dos divertimentos. Foi um momento particularmente azedo. A melhor recordação é a própria feira, as pessoas, mas saí particularmente feliz do concerto dos James. Lutei um pouco por aquele momento e, depois, quando terminou o concerto vi aqueles milhares de pessoas muito felizes e vi ali um momento diferente com o qual me senti recompensado.

Publicado por em 3 de Agosto de 2012, 10:58. Arquivado em À Conversa, Destaque. Pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

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