24 Fev
Viseu

Entrevista

"Os presidentes de Viseu e Tondela podem recandidatar-se em 2021"

por Redação

14 de Fevereiro de 2020, 00:00

Foto Igor Ferreira

Entrevista ao presidente da distrital de Viseu do PSD, Pedro Alves

CLIPS ÁUDIO

Pedro Alves é deputado na Assembleia da República e presidente da Comissão Política Distrital de Viseu do PSD. Foi apoiante de Luís Montenegro e isso levou-o a perder “protagonismo” dentro do Partido, liderado por Rui Rio. O social-democrata recusa a leitura de que saiu derrotado e anuncia já a sua recandidatura ao cargo que ocupa. Nesta entrevista ao Espaço Atualidade do Jornal do Centro – Rádio e TV, o dirigente diz que a estratégia que escolheu para o distrito deu os seus frutos.

Depois do Congresso, os apoiantes de Luís Montenegro, do qual foi um dos principais rostos, já se convenceram que perderam?

Não foi preciso perceber o resultado depois do Congresso. O resultado foi inequívoco e houve 47 por cento dos militantes que votaram na opção Montenegro, o que quer dizer que era uma alternativa válida para a direção do partido. O Conselho Nacional deve também, ele próprio, respaldar as diferentes sensibilidades. Não vamos criar dificuldade à gestão do mandato do presidente, mas julgo que o Partido tem mais a ganhar quanto mais diverso for o contributo que enriqueça a estratégia da atual direção.

Tem razão Alberto João Jardim quando diz que o PSD não pode estar preocupado com os “meninos traquinas”? O Pedro Alves é um deles?

Primeiro, já não sou nenhum menino (risos). Quanto a traquinices... o Dr. Alberto lá saberá, conhecemos o seu histórico. Não será, certamente, a voz mais avisada para falar em traquinice.

Rui Rio vai ter sossego neste mandato?

Vai ter todas as condições para fazer um bom mandato. Temos de estar todos comprometidos com o Partido, mais ainda com este ciclo autárquico. Cabe a todos ajudar a construir as melhores soluções para os melhores resultados.

Que sentimento lhe transmitiu o discurso de encerramento proferido por Rui Rio? Revê-se no que foi dito?

Eu revejo-me num conjunto de circunstâncias. Não é em tudo, claro. Mas penso que ele conseguiu sinalizar aquilo que são prioridades para o Partido e para o país. Não são novidades quando fala da justiça e da reforma do sistema político, mas aqui há que perceber que nós não podemos fazer as reformas se não houver vontade dos parceiros e é nesse sentido que eu acho que não vale a pena insistir numa estratégia que nós já sabemos que não resulta porque não temos quem nos acompanhe. No entanto, revejo-me nestas prioridades e também nas questões da coesão territorial. Se alguém tem tido o cuidado de apresentar propostas nessa área tem sido a Distrital de Viseu. Ainda no último Congresso apresentámos um pacto para o Interior e neste momento voltou o assunto para cima da mesa.

Fica confortável quando Rui Rio diz que o PSD não pode ser uma agência de emprego para os seus dirigentes?

Não é uma questão de ficar confortável ou não. E estas coisas não podem ser generalizadas...

Em 2015, numa entrevista precisamente ao Jornal do Centro falava disso e assumia de uma forma clara que o Partido deveria arranjar emprego para aqueles que se dedicavam à política...

É preciso fazer então o ponto de situação. Nós não temos é um sistema ajustado, principalmente para aqueles que têm profissões liberais e se dedicam à política de forma profissional. Dou um exemplo: um advogado ou engenheiro que durante 20 anos se dedica à política a tempo inteiro e sai e faz o quê? Quem garante a sua reintegração? Devemos ter a preocupação com aqueles que se dedicaram à causa pública e ajudá-los efetivamente na reintegração. Não estamos a falar de uma agência de emprego.

Então Rui Rio está a exagerar?

O dr. Rui Rio deve falar de uma realidade que deve conhecer e tem de colocar as questões em cima da mesa e falar em concreto sobre elas porque generalizar é um dos riscos da política.

Mas há muita gente que se movimenta nos partidos do arco da governação na perspetiva de arranjar um lugar?

Não sei se está certo ou errado no que diz. Há realidades distintas na organização do partido e das instituições. A organização autárquica, por exemplo, nas áreas metropolitanas, é muito diferente da daqui. Olhemos para uma Assembleia Municipal de Lisboa que reúne uma ou duas vezes por semana, que tem assessores... nós não temos esta realidade espalhada pelo país. Eu penso que será muito nesta linha que se fala de agências de empregos. Este não é o retrato no Interior.

Mas sabemos que ao nível das autarquias, e isto é transversal a todos os partidos, lá vão os amigos para uma assessoria ou chefe de gabinete...

Isso são os custos da democracia.

Isto também cabe na tal agência de empregos?

Não, eu penso que isso aí cabe nos custos que a democracia tem. Para se exercer as funções de natureza política tem de se ter um quadro de pessoas de confiança política.

Olhando para os resultados das sucessivas eleições no distrito, temos a derrota de Montenegro, em Viseu, na segunda volta para as diretas do PSD, enquanto que no distrito a vitória foi pouco folgada de Montenegro. O PSD saiu derrotado nas Europeias... isto tudo faz de si um derrotado no PSD?

Os resultados eleitorais têm de ser interpretados não em função das pessoas em si mesmo, embora também, mas sobretudo das conjunturas. Infelizmente, quem está de turno é que tem a responsabilidade de assumir os resultados. Em relação às Europeias percebemos qual foi o sinal que foi dado e não foi em Viseu, foi no país inteiro. Custou-me ver a derrota em Viseu, até porque tinha uma estratégia diferente e fiz questão de a afirmar, mas não foi aceite. Envolvi-me, ainda assim, com o mesmo empenho de sempre.

Mas os resultados não lhe criaram desconforto dentro do Partido. Continua a ter condições para liderar?

Quanto ao resultado das diretas... o dr. Rui Rio tinha ganho as eleições há dois anos no distrito de Viseu e agora perdeu. Eu há dois estive com o dr. Rui Rio e agora não estive. Se alguém tem de retirar ilações do resultado, certamente não serei eu.

Sente condições para se manter à frente da Distrital e recandidatar-se a novo mandato?

Eu estou tranquilo. Vamos cumprir o nosso mandato até ao fim. Não há ainda eleições marcadas... Este mandato foi marcado por várias eleições. O que nós escolhemos correu bem, fruto da estratégia que definimos para o distrito de Viseu.

Deve-se mais a Pedro Alves ou a Fernando Ruas, que foi o cabeça de lista nas legislativas, onde o PSD manteve quatro deputados?

Deve-se ao trabalho de todos e também ao cabeça de lista. Efetivamente, conseguimos, de uma forma muito clara e unida, estar juntos na estratégia e ganhámos e isso é um mérito pelo qual temos de ser reconhecidos. O balanço, independentemente de não ser aquele que pretendíamos, é bom. Custa-me é perceber que estamos a perder relevância em termos nacionais com a perda de um mandato de deputado.

Neste momento já tem um adversário para a Distrital, Domingos Nascimento. Vai ser um adversário difícil ou fácil?

Não tenho adversário nenhum. O Domingos Nascimento merece todo o respeito e máxima consideração. É um militante como tantos os outros e que está a assumir uma disponibilidade. Quando houver eleições marcadas vamos ver.

Está em condições de liderar o processo das autárquicas?

Recandidatar-me-ei nesse sentido.

Vai mudar a estratégia para não perder câmaras como Lamego, Oliveira de Frades, S. João da Pesqueira?

Perdemos as câmaras, não se nega isso, em circunstâncias distintas. Na Câmara de Lamego, por exemplo, houve um desentendimento não apenas interno, mas também com o nosso parceiro de coligação.

O PSD em 2021 está em condições de recuperar essas câmaras?

O PSD tem como objetivo melhorar os resultados.

Já disse que é tradição no PSD recandidatar os presidentes que não estejam na limitação dos mandatos. Em Viseu, Almeida Henriques, perante estes processos judiciais dos quais se tem falado, tem condições para se recandidatar?

Não conheço nenhum processo...

Não lê jornais?

Eu conheço notícias, não conheço o resto. Naturalmente que a decisão de recandidatar os presidentes em funções não é uma decisão que caberá à Concelhia ou à Distrital. É um processo nacional. É um convite do presidente do Partido e isso ficou estipulado no Congresso.

Mas uma câmara como Viseu passa sempre pela Distrital?

Passa por todos. É normal recandidatar todos os autarcas em funções. O dr. Almeida Henriques, naturalmente, é um dos presidentes em exercício e que poderá ser recandidato. Já lhe perguntou se ele se quer recandidatar?

Ele já disse que sim...

Então pronto... não sabemos ainda o calendário para a escolha de candidatos.

Porque é que não houve uma palavra de conforto para com Almeida Henriques por parte do PSD, faz sentido?

O que quer dizer com isso?

Por parte da Distrital e da Concelhia, até tendo em conta o exemplo do concelho vizinho de Tondela em que o presidente e vice-presidente estão envolvidos num processo judicial, o Partido teve uma palavra de conforto...

Todas as notícias, todos os processos com todos os autarcas a Comissão Política Distrital nunca tomou uma posição pública sobre nada. No devido tempo, quando acharmos que é para tomar posição, teremos. Neste momento não temos razão para o fazer.

O presidente da Distrital não deu uma palavra à Concelhia para tomar uma posição?

A Distrital não faz ingerência na gestão política dos concelhos.

Então pergunto de outra maneira. Pedro Alves, militante do PSD em Viseu, fica confortável quando vê a sua Concelhia a não sair em defesa do seu presidente da Câmara?

Vamos ser mais claros. Não podemos isolar o caso de Viseu de tudo o resto que se passa no distrito e todo os outros casos. Não é única circunstância e em todos os partidos. Quantos arguidos foram constituídos no âmbito do processo Éter? Acha que há algum desconforto porque as concelhias não vieram dizer nada?

Mas em Tondela, a Concelhia do PSD foi em defesa dos seus autarcas...

É a autonomia que tem. Achou que era importante fazer daquela forma e nós achamos por bem, como respeitamos a autonomia da Concelhia de Viseu em reservar a sua opinião.

Pedro Alves pode ser candidato à Câmara.

Essa situação não se coloca em cima da mesa.

Há quem diga que tem essa ambição?

Eu acho isso engraçado. Se me disser que o Pedro Alves vai dar um contributo para que a Câmara de Viseu continue a ser dirigida pelo PSD, sim, o Pedro Alves vai fazer parte dessa solução. Agora, o Pedro Alves nunca teve como prioridade a sua agenda pessoal. Não tenho nada agendado em termos de ambições de natureza política.

Fernando Ruas é sempre uma reserva para manter o PSD na Câmara?

Não é só uma referência autárquica para o PSD de Viseu, como para todo o país. É reconhecido por todos os quadrantes políticos. Fernando Ruas será uma pessoa tida em conta nas soluções que forem encontradas para o concelho.

Porque é que Pedro Alves não quer que o vereador Jorge Sobrado seja militante do PSD?

Nunca me pronuncio sobre isso, nem tenho de o fazer. Quem tem de se pronunciar é a Concelhia. Nunca impedi ninguém de ser militante do partido.

Então discorda da posição da Concelhia que impediu Jorge Sobrado de ser militante?

A Concelhia não impediu ninguém de ser militante. Não houve nenhum veto, pelo que eu sei. Houve reuniões onde foi discutida a filiação de militantes, nomeadamente a dele e não se votou rigorosamente nada.

Mas não ter sido aceite não é uma afronta ao presidente da Câmara de Viseu que foi quem o propôs?

Nada disso. As conjunturas acabam por levar a interpretações que não são boas. Os factos é que têm de ser revelados. E não houve nem um veto, nem uma votação. Depois, houve alguém que em função de uma reunião interpretou outras coisa e a interpretação que foi retirada desse processo é que levou a que muitas coisas ficassem como mal entendidos.

Joaquim Seixas, presidente da Concelhia e que foi vice-presidente da Câmara da qual saiu, tem condições para continuar neste órgão? Não se vê ação ou posições por parte dele?

A partir de abril entrámos todos num processo eleitoral. Foi as Europeias, as Legislativas e depois as internas... estivemos focados todos nisso. As pessoas é que confundem o protagonismo com o trabalho. A Concelhia de Viseu tem dado o seu contributo.

Voltando às autárquicas, Tondela é uma tarefa difícil para o PSD?

Todos os processos eleitorais são difíceis e começamos do zero. Em Tondela temos dos melhores autarcas e um quadro do Partido não só de Viseu como do país. Temos confiança no trabalho autárquico que tem feito. Certamente que ele ponderará se quer ou não ser candidato e terá todas as condições para ganhar a câmara.