05 Abr
Viseu

Henrique Monteiro

OPINIÃO

Um país surpreendente

"Afinal, os portugueses são melhores do que os seus dirigentes pensam"

20 de Março de 2020, 00:00

CLIPS ÁUDIO

Penso que quase toda a gente ficou surpreendida com a reação da grande maioria dos portugueses às recomendações das autoridades de Saúde, a propósito do Covid-19. Nós, um povo que se tem por desorganizado e baralhado, revelámo-nos, em grande parte, uma espécie de nórdicos, dispostos a aceitar com civismo, educação, altruísmo e, até, solidariedade as diretivas da DGS e do Governo.

Em muitos bairros se disponibilizaram jovens para fazer compras aos mais velhos, nomeadamente nos supermercados e farmácias; inúmeras pessoas acorreram às janelas para aplaudir os profissionais de saúde e outros que pela força das circunstâncias não se podem retirar para a quarentena caseira. À porta de lojas formavam-se filas com razoáveis distâncias entre os que esperavam a sua vez, de modo a entrar um – e apenas um freguês no estabelecimento; há concertos transmitidos pelo Instagram ou por outros meios da Internet. Enfim, a situação que tem sido descrita, a somar à desertificação dos centros urbanos porque a maioria dos portugueses ficou realmente em casa, pode constituir, de facto, uma surpresa, em relação ao modo como costumamos olhar para nós próprios.

Exatamente por isso penso que o facto merece uma reflexão. Por que não somos assim em tantas outras circunstâncias? Mais: por que não começámos por ser assim, quando chegaram as notícias da epidemia?

E só encontro uma resposta cabal: a comunicação não teve o ruído habitual, mais motivado por pontos que cada um quer marcar a seu favor do que pela necessidade de arranjar soluções. Neste momento, ainda que haja divergências sobre aspetos acessórios do combate ao vírus - e existem - todos entendem que o essencial é derrotar a ameaça. E entendem, sobretudo, porque houve clareza na transmissão e – mais do que isso – houve uma compreensão absoluta da ameaça.

A lição deveria servir para muitos outros aspetos da política e da vida em sociedade. É claro que uma ameaça como a deste vírus esperamos não ter outra; mas ainda assim vale a pena pensar se os debates não deveriam ser mais serenos e as posições mais claras, o que não significa conflituosas. Afinal, os portugueses são melhores do que os seus dirigentes pensam. E entendem bem as mensagens, quando elas fazem sentido e são claras.

Ouça e trabalhe ao mesmo tempo

Destaques

Podcasts