As “embaixadoras” de uma Feira de recordações

Edição de 14 de setembro de 2018
15-09-2018
 

A Feira de S. Mateus faz-se de feirantes, sobretudo daqueles que se habituaram a estar por Viseu durante longos dias, com mais ou menos frio, atravessando crises económicas, sempre na luta.

Um desses casos é o de Lucinda Coelho, que tem uma barraca de artesanato. “Vim para aqui com um mês. Nasci em 30 de julho de 1944. A Feira antigamente era mais tarde, fins de agosto e acabava quase em outubro. Já íamos daqui com frio e chuva”, lembra Lucinda com tom nostálgico. E de uma conversa sobre o negócio que mantém na Feira, recorda o seu tempo de menina, em Viseu. “Vínhamos aqui todos os anos e passávamos um mês, quase dois e daqui íamos para a escola. A escola começava num dia e nós íamos dois dias antes, de madrugada”, refere Lucinda Coelho.

Da infância recorda-se ainda de vários episódios, como aquele em que fugiu aos pais e foi para uma ponte que vai para onde agora é o Fórum. “Lembro-me que o meu irmão mais velho queria ir jogar bilhar e levou-me. E eu vi uma montra muito bonita e ali fiquei. Acabei a noite a chorar em cima da ponte. Passou um casal que me perguntou de onde era e eu respondi que era da Feiran e a minha mãe vende bonecos. Pegaram em mim e vieram trazer-me à nossa barraca e o meu irmão ainda levou uma tareia por me ter levado”, conta.

As histórias de Lucinda Coelho não terminam... “Havia um comboio pequenino dentro da Feira e o condutor não nos deixava andar mas nós pendurávamo-nos”, diz, a sorrir, com um brilho nos olhos. “Enquanto eu puder, venho. Enquanto tiver forças e puder andar, não queria desistir. Fazia todo o gosto de celebrar 75 anos de Feira. Acredite, pela minha saúde.”. A edição 627, para o ano, da Feira Franca será a 75ª presença de Lucinda no certame.

A Feira que se fazia com frio

Uma conversa sobre recordações permite sempre abrir um baú de histórias. “A Feira começava mais tarde e os pipos eram de madeira e nós tirávamos as tampas e fazíamos fogueiras por causa do frio”, recorda D. Zélia.

Do frio também se lembra a D. Milú. “O picadeiro estava dividido em duas ruas, uma que subia, outra que descia. A Feira acabava a 7 de outubro e as senhoritas vinham todas de casaco de bison à noite, porque estava frio. Os cachorros (que é o seu negócio) saiam quentinhos e iam atrás deles. Foi assim que comecei a fazer sucesso”, diz, com orgulho Maria de Lurdes. E foi assim durante mais de duas décadas. Os cachorros da Milú estão ininterruptamente há 26 edições da Feira Franca. “Tenho clientes que eram bebés quando vinham com os pais e agora já cá vêm com os filhos. E perguntam-me se me lembro deles. E eu penso que devo estar a ficar mesmo velha”, diz, a sorrir, a D. Milú.

Tudo começou quando a empresa onde trabalhava fechou e a necessidade de poupar já a pensar na reforma fez Maria de Lurdes questionar o que poderia fazer. “Não ia ficar parada e comecei a trabalhar no que sabia: trabalhava numa fábrica de enchidos, pensei logo fazer cachorros”. Num ápice tudo começou. O nome veio da necessidade de não ser copiada. “O meu neto, depois de dois anos em que imitaram o nome que pus no meu negócio, sugeriu que ficasse “Cachorro da Milu” porque assim ninguém me ia copiar”, recorda Maria de Lurdes. E assim inventou a sua própria receita. Propos o negócio à Feira mas ninguém acreditava no sucesso dele. “Insisti na minha ideia e nem queira saber... Era uma fila tão grande que não aguentei. Ao outro dia pedi ajuda a uma amiga. Foi um sucesso.”, relembra. 26 anos depois, confessa-se cansada e até já tinha dito aos amigos e família que não viria para o ano mas há sempre uma vontade maior do que o cansaço. “Tenho o bichinho da Feira. Tenho uma paixão por isto. Não sei porquê, mas tenho”, remata.

As tradicionais enguias

Atravessando o picadeiro, chegamos às enguias. Sentada, qual figura marcante do certame, Zélia da Silva está junto a uma pipa das enguias da Murtosa, marca de sucesso da Feira. “Tenho 74 anos. Faço 75 a 14 de dezembro. Eu e a minha irmã vínhamos com a minha mãe desde pequeninas, acho que já nasci aqui... A nossa mãe morreu, ficámos juntas e depois apareceu outra barraca: a minha irmã ficou com a nova e eu fiquei com a da minha mãe”, recorda a D. Zélia. Pelo meio desvendam-se memórias da Feira Franca de outros tempos. “Era muito linda. Estávamos lá em baixo ao pé do Viriato e as pessoas iam buscar as enguias e iam lá comer. Coziam as batatas, outras vezes cozíamos nós e lá comiam em pé. Não havia cá mesas ou bancos. Traziam um prato grande, nós punhamos lá as enguias e era tudo comido à mão. Hoje é com talheres”. E se Lucinda lembra um comboio na Feira, Zélia recorda um circo que havia no certame. “Havia um circo ao pé do Viriato e imitávamos, torciamo-nos todas, saltávamos para cima das pipas”, desvenda.





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