No “bairro dos feirantes”, está quase a hora da partida

Edição de 14 de setembro de 2018
16-09-2018
 

Recolhem-se os estendais, as mesas, as cadeiras e até os animais. Atrelam-se as caravanas aos carros, em alguns casos, ou enchem-se os contentores. A hora da partida está quase. Depois de 39 dias em Viseu, os feirantes pegam na “casa às costas” e partem para outra paragens, outras feiras, antes do inverno os levar, por alguns meses, às suas residências oficias. Até lá, é em cima de rodas que fazem a vida.

E enquanto a Feira de S. Mateus não termina (a data de encerramento é a 16 de setembro) é na antiga sede da Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVRD), perto do recinto, que a maioria dos feirantes tem a sua morada temporária.

Aqui, todos os anos se cria o “bairro” dos feirantes. Aqui, mais de meia centena de caravanas enche este espaço que, durante o resto do ano, está votado ao abandono. Nesta espécie de “condomínio fechado”, os moradores aproveitam o sossego para descansar de uma tarde e noite de trabalho. Chegam de vários pontos de Portugal.

Há camiões grandes, roullotes com portas e janelas enfeitadas, pequenos varandins e jardins “improvisados” e até gatos a tomar conta da casa. Na rua, os brinquedos dos mais novos e as mesas prontas para uma refeição também fazem parte deste bairro.

“Temos aqui tudo. Chuveiros, casa de banho, luz. É uma espécie de condomínio fechado”, conta José Silva. É de Braga e faz a Feira de Viseu com a esposa há mais de 15 anos. Atualmente, é o único certame que ainda o faz sair de casa com o seu reboque de diversões recreativas, onde para ganhar um prémio basta ter pontaria. “Esta é uma Feira jeitosa e para nós chega”, avança.

Os mais de 40 dias que passa fora da sua cidade não o incomodam. “Estamos bem instalados. Muito melhor do que no sítio onde estávamos antes. Lá [antigo parque de campismo do Fontelo] não era tão seguro”, sublinha, enquanto prepara a motoreta que o vai levar ao recinto da Feira. “A minha mulher já lá está à minha espera. Eu fiquei a tratar de umas coisas”, explica.

É meio da tarde. Na mesma “rua”, a vizinha Sandra Teixeira também se prepara para se dirigir ao recinto da Feira. Antes de ir abrir o stand dos crepes é preciso deixar tudo arrumado “em casa”. Chão lavado, roupa apanhada e lixo despejado, fecha-se a porta para só se regressar já de madrugada. Muitos dos vizinhos também já foram abrir os seus negócios.

Alguns ficaram ainda a terminar as rotinas diárias. “Tenho de ir buscar a minha filha e ainda acabar de estender a roupa, estou com pressa”, respondeu uma das moradoras à reportagem do Jornal do Centro enquanto acabava de sacudir o tapete da entrada.

“A rotina é sempre a mesma. Acordar, arrumar, trabalhar e regressar”, sublinha ainda Sandra Teixeira que há 12 anos faz de Viseu a sua casa entre agosto e setembro. Na residência fixa, em Lisboa, apenas passa três meses. “Como fazemos muitas feiras, é só no inverno que lá estamos”, realça. Os filhos também já se habituaram a andar de um lado para o outro, menos na altura das aulas. “Para eles são férias, para nós é trabalho”, diz.

Prestes a levantar o “arraial”, a lisboeta confessa a sua preferência pela Feira de S. Mateus e o agrado pelo espaço onde tem passado as últimas semanas. “É acolhedor e não nos falta nada”, ressalva.

Apesar do vai e vem da Feira de S. Mateus, há muita coisa que fica e que se repete todos os anos, principalmente os reencontros. “Uns andam por um lado e outros por outro. Mas a verdade é que nos meses de verão é aqui que nos encontramos”, resume João Fonseca que não é feirante mas um dos muitos visitantes deste certame que é considerado o mais antigo da Península Ibérica. “Gosto de cá vir (é de Castro Daire) e ver novamente os amigos que já cá fiz”. Há amigos “que já duram uma vida”, lembra.

As amizades que ficam, as histórias dos encontros, os momentos do dia a dia fazem a Feira de S. Mateus a cada ano que passa. 





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