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A broa é a rainha nas Cavalhadas trambelas

Edição de 21 de junho de 2019
21-06-2019
 

Vildemoinhos começa esta sexta-feira (21 de junho) a festejar o seu santo popular, São João. Nesta aldeia, às portas da cidade de Viseu, ainda hoje, um filho da terra é conhecido por trambelo. A origem deste nome vem de uma peça essencial para confecionar aquele que, muito provavelmente, é o mais conhecido pão do concelho de Viseu: a broa de Vildemoinhos. O tramelo, assim se chamava o pau que, com o girar da mó do moinho, vibrava e passava a vibração ao depósito do grão que, como abanava, fazia cair o milho no centro da mó e assim nascia a farinha para fazer a broa.

Fundamental para esta história chegar aos dias de hoje foi o contributo de Ermelinda Silva, que vai ser uma das homenageadas do desfile deste ano das Cavalhadas de Vildemoinhos. A filha, Palmira, diz que a broa de Vildemoinhos sempre fez parte da sua família. “Quando nasci, a minha mãe já era padeira. Começou aos sete anos graças a uma tia que a criou. São já cinco gerações a lidar com esta broa. Começou pela tia da minha mãe, passou pela minha mãe, eu e a minha irmã, depois os netos e agora o bisneto”, enumera Palmira que teme pelo fim desta tradição.

É com saudade que a filha de D. Ermelinda lembra o passado da mãe enquanto principal rosto da broa trambela. “Recordo-me de ir com ela, à uma e meia da madrugada, ao fundo do povo de Vildemoinhos, chamar as senhoras que a ajudavam. O pão tinha de estar às seis da manhã na Praça de Viseu”, começa por descrever. Palmira tem na mão um conjunto de fotografias em que a mãe aparece, quer junto ao forno onde a broa era cozida, quer a vender.

Enquanto percorre os retratos, um a um, vai desfiando memórias. “A minha mãe só gostava da farinha moída num moinho de água. Quando a farinha era moída nos moinhos elétricos. Ela mexia e, só com o toque, percebia onde tinha sido feita a moagem. Aliás, chegou a devolver muita farinha. Só com a mão ela percebia quando a massa estava pronta. Ficava sempre um resto de massa do dia anterior que ia servir de fermento para o dia seguinte”, conta. No fim, não podia faltar a reza para que o pão crescesse. “Depois de amassado o pão, benzia-o e dizia ‘que Deus te acrescente, como o milho da semente’”, recorda. Ermelinda, hoje com 95 anos, está ao cuidado da filha. Esteve a fazer broa de Vildemoinhos até aos 90.

O folclore da terra vai entrar na festa

Noutro lugar do pavilhão da associação das Cavalhadas de Vildemoinhos, de há umas semanas a esta parte, há uma tradição que está a renascer: dançar folclore em Vildemoinhos.

De fora do pavilhão já se escutam canções do folclore beirão. Pelo meio, o tradicional cântico a São João que tanto orgulha os trambelos. “Faço 80 anos em agosto e sou o elemento mais antigo destas tricanas”. É desta forma que Isabel Peres se apresenta.

“Lembro-me de ver as Tricanas de Vildemoinhos. Vi as últimas com a idade da minha Leonor”, recorda apontando para a neta, que ali está a ensaiar para a grande estreia do grupo folclórico, que acontece, esta sexta-feira, dia 21, nas festas dedicadas a S. João.

O grupo de folclore nasceu em Vildemoinhos, na década de 30 do século passado. “Vildemoinhos que é terra de Cavalhadas e moinhos, é também feito de folclore. No entanto, em 1950, já não havia memória das Tricanas de Vildemoinhos”, começa por contar Anabela Abreu, presidente da Assembleia Geral das Cavalhadas. “Quando começámos tivemos muitas dúvidas, mas depois tivemos a certeza de que Vildemoinhos é um povo de tradições e que quer revivê-las”, assegura.

Na sala estão alguns dos 36 elementos do grupo que se preparam para mais um ensaio. Tem sido assim nos últimos tempos, tudo é acertado ao detalhe. Leonor Sobral, a neta da D. Isabel, mostra-se orgulhosa enquanto dança as modas da aldeia. “No início não gostava de folclore, mas pelos meus avós, vim e acabei por gostar. Agora já me está no sangue”, confessa, referindo que não sente nenhuma vergonha de admitir, junto dos seus amigos da escola, que dança folclore. “Não é fácil de aprender. Cada música tem uma técnica de dançar diferente, há ritmos, modos de saltar que mudam de tema para tema”, refere.

Também Marta Toipa é um dos elementos mais novos das renovadas Tricanas de Vildemoinhos. “A minha avó contou-me histórias sobre o folclore que se dançava aqui e falou-me das atuações. Para além de dançarmos, somos uma família e mostramos ao povo de Vildemoinhos o que foram e agora vão tornar a ser as tricanas”, argumenta.

Mas o folclore não se faz apenas de dança, as músicas são fundamentais para esta tradição popular. “Ensinei ao grupo um cântico que eles não conheciam, a ‘Aldeia sempre risonha, banhada pelo Pavia’. Eu era muito nova e ouvi uma padeira a cantá-lo. Eu aprendia as canções e até sei mais, mas não me lembro da letra toda. A minha mãe e o meu pai faziam parte das Tricanas e agora passei isto à minha neta e cá andamos as duas. Enquanto eu puder, venho. Agora canto, mas também sei dançar”, salienta enquanto sorri.

Os carros que ajudam a colorir uma tradição centenária

Os Santos Populares revestem-se de mitos como o do salto à fogueira. O costume tem origem na crença de que com o saltar há uma purificação da alma. A noite de 23 para 24 de junho é, porventura, a data em que Vildemoinhos junta mais gente no ano. É nesse momento que um tronco adornado com rosmaninho é colocado a arder no meio da povoação. “Nós aqui no pavilhão só vemos a festa em vídeo, porque há muito trabalho para fazer”, conta Carlos Toipa, um dos responsáveis pelos carros alegóricos que anualmente saem à rua na manhã de 24 de junho.

De Vildemoinhos rumo ao centro da cidade de Viseu, vão 22 carros que se juntam a grupos folclóricos, gaitas de foles, bombos, cabeçudos e cavalos. Este ano a ToypaDecor, a equipa de Carlos, decidiu voltar a uma fórmula antiga: apostar nos espelhos para adornar um carro.

“É o material que exige mais trabalho. É preciso fazer a escultura e os espelhos são cortados e colados um a um. No fim, precisam de ser limpos também individualmente. Temos mais de 50 mil espelhos aplicados no carro deste ano”, reforça.

Do outro lado do pavilhão, João Rebelo que está também a trabalhar, com a sua equipa, para levar carros alegóricos a Viseu, lamenta que haja poucos jovens a abraçar este desafio. “Os mais novos preferem estar num bar. Eu já não vou ao Facebook há três meses, não sei o que andam a dizer por lá”, reforça.

Na cave, onde estão outros carros a desfilar na manhã de 24 de junho, Ramiro Figueiredo, presidente da associação que organiza as Cavalhadas, diz que anualmente lança o mesmo repto. “Que seja um desfile melhor do que o do ano passado. A tradição vem de há largos anos e são as pessoas que vêem as Cavalhadas que nos dão força”, confessa.

Neste desfile há uma voz que há, pelo menos duas décadas, se tornou marcante. “Sempre sonhei fazer isto e como sou um trambelo de gema, as palavras saem-me de lá do fundo. As pessoas gostam e eu estou lá até quando puder. Umas semanas antes começo a poupar a voz, porque os anos passam, mas a garra e o espírito estão cá”, confessa.

Antes de ser chamado para a última música que as tricanas vão ensaiar, Carlos confessa ter a certeza de que a voz lhe sairá na altura do desfile. As tricanas terminam mais um ensaio e Vildemoinhos prepara-se para mais um cortejo que vai continuar até que a voz lhes doa.





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