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A Morgadinha sai de Teivas e marcha até Viseu

Edição de 14 de junho de 2019
15-06-2019
 

O encontro está marcado para as nove da noite e as colunas já passam a Morgadinha do ano passado. É sinal de que as portas estão abertas para mais uma longa noite de trabalho. Dentro do pavilhão da associação de Teivas percebe-se que se estão a construir os carros: ouve-se martelar e soldar.

David Cardoso está no topo de um dos carros alegóricos da sua autoria a moldar o ferro, enquanto espera que lhe cheguem mais tinta para acertar os últimos detalhes. David nasceu e sempre cresceu em Teivas. É um dos que sente desde novo o espírito das Cavalhadas. Já participou nos grupos de bombos dos Zés Pereiras e na Dança da Morgadinha, mas hoje é na elaboração dos carros alegóricos que se sente realizado. E já lá vão vinte anos desde que fez o primeiro. “De ano para ano noto que cada vez há menos gente a querer participar. Este ano estou a fazer três carros alegóricos porque há cada vez menos mão de obra para ajudar. Temos de inserir nos mais novos este gosto, mas é difícil porque é algo de responsabilidade”, confessa.

O calendário vai apertando nestes últimos dias até domingo. Os carros são pensados em março mas é em maio que aumenta a pressão. “A partir dessa altura já abdicamos de tudo: fins de semana, feriados, fazemos noitadas. Nem vale a pena olhar para o relógio...”, refere. Nem há relógios nem camas. Prova disso, os colchões improvisados em que se transformam os bancos dos carros para dar descanso aos bebés e às crianças mais pequenas. A vigilância é constante e a atenção tem mesmo de ser repartida por esta altura entre família e Cavalhadas. Neste corso há duas equipas a construir carros.

Também no pavilhão, atento aos detalhes que ainda há por acertar está Manuel Cardoso, outro dos responsáveis pela elaboração de carros alegóricos. “Há sempre um bichinho que nos cativa, ano após ano, a estar aqui. Há sempre dificuldades, mas vamos superando e tendo forças para realizar estes trabalhos que aqui estão”, refere, apontando para os três carros que criou. 

O sino que só toca quando estiver tudo pronto

Quanto a rivalidades que possam existir, David Cardoso diz que há sobretudo entreajuda. “A competição obriga-nos a fazer cada vez melhor. Caso contrário relaxávamos e aí o trabalho não seria o melhor. É uma rivalidade saudável, somos amigos e, por isso, quando vemos que há uma equipa mais atrasada do que outra, não nos deixamos de apoiar. Mas há sempre aquela picardia, claro”, assume.

Manuel concorda com o amigo e diz que mais do que rivais, são família. “Ele chama-me à atenção a mim, eu a ele. É uma competição saudável. O que é importante é tanto eu, como ele, ainda termos força anímica para continuar a construir carros”, assinala. A tradição das equipas que constroem os carros alegóricos mantêm-se: na véspera do desfile das Cavalhadas, há trabalho pela noite dentro. “Assim que nasce o sol, lá pelas seis e meia da manhã toca o sino a dar sinal de alvorada. Deixou de haver foguetes por causa dos incêndios e optámos por tocar o sino da capela. Foi uma brincadeira que se tornou tradição: se os carros não estiverem prontos, o sino não toca”, explica Dav id Cardoso.

Quanto ao sono perdido na paixão de participar no desfile, diz que só ao fim de muito tempo consegue estar em pleno. 

As cavalhadas que integram toda a gente

“Ainda há papel para cortar?”, perguntava uma popular à entrada da associação. Este costume tem outra finalidade: contribuir para atenuar o isolamento e promover o encontro das pessoas da terra. “Preocupo-me sempre em fazer pelo menos um carro em papel que é feito pelas pessoas mais idosas. No fundo, serve para não deixarmos de lado o convívio. São tardes e noites que passam numa sala a conviver e a ajudarem a fazer um carro alegórico”, assinala David Cardoso.

Nessa sala, ao fundo do pavilhão, está Lucília Carvalho, entre dois chapéus que serão usados na Morgadinha, o ponto alto das Cavalhadas de Teivas. “É preciso gostar-se muito”, responde quando lhe perguntamos o porquê de dedicar tanto tempo a uma tradição.

Estas manifestações culturais, por norma, têm um sentimento bairrista associado. Afinal, o que é ser-se de Teivas? “Costumamos dizer que somos telhudos, bem mais fortes do que a telha”, diz, sorridente Lucília Carvalho, lembrando a história da povoação. Telhudo, na língua portuguesa significa alguém que é teimoso, nalguns casos pode entender-se como alguém que é maniento. Teivas teve durante anos um forno onde se fabricavam telhas. “Há muitas casas por aí fora que ainda são tapadas com a telha de Teivas. Eu já não me lembro disso, mas a minha mãe conta-me histórias desse tempo”, afirma.

A história da tradição

Lucília, ainda na sala, olha para os chapéus que vão ser usados pelos homens ou pelas mulheres que vão fazer de homem na dança. “A cada ano temos de renovar o papel dos chapéus. Pela primeira vez fizemos em minha casa um chapéu de raiz para a minha filha usar. Ela irá de homem porque há mais mulheres do que homens disponíveis para dançar. Então, como não tinha um chapéu que lhe assentasse na cabeça, fizemos um novo”, explica.

Fora da associação já se ouve o hino da Morgadinha. Amador Oliveira, presidente da associação que organiza as Cavalhadas de Teivas, não tem mãos a medir com os últimos pormenores a afinar. “Esta dança é uma mistura de sensações. Ouvimos a música, vemos o colorido, sentimos os odores das flores”, descreve.

Diz a história que a Morgadinha nasceu em 1653, com a chegada a Teivas de portugueses, vindos do Brasil. Trouxeram daquele país a forma colorida como uma cabocla, uma jovem filha de um português e de uma índia do nordeste do Brasil, se vestia nos bailes e nas festas. “Por alturas das sementeiras, eles passeavam pelas ruas da aldeia e da freguesia de S. João de Lourosa e mostravam toda a cor e as alegrias à população”, assinala Amador Oliveira.

A candidatura da Dança da Morgadinha a património da Humanidade é cada vez mais falada em Teivas. “Espero que, no próximo ano, ela seja de todos nós. Há historial, há gente com vontade, música, indumentárias. Temos todas as condições para mostrar a toda a gente esta dança que é única no mundo”, reforça.

Os ensaios da Morgadinha

Num terreno que já foi um campo de futebol, os 14 pares já ensaiam ao detalhe o que têm de fazer este domingo, dia das Cavalhadas. José Santos ensaia o grupo há doze anos e confessa orgulho nos participantes. “Idealizo sempre novas contradanças para todos os anos haver novidades”, refere.

Mas a história de José na Morgadinha começou bem antes de ser ensaiador. “Eu comecei a dançar há uns valentes anos e passado um tempo perguntaram-me se queria experimentar fazer o ensaio do pessoal. Apanharam-me e não me largaram mais”, realça.

A formar uma roda ou em formato de marcha, a dança é repetida várias vezes até tudo ficar afinado, mesmo quando há pessoas menos habilitadas para dançar. “Quando entra um par novo que tenha “pé de chumbo”, eu tento pô-lo atrás ou à frente de alguém que sabe dançar e as coisas acabam por correr bem”, confessa.

Quem dança há muito tempo a Morgadinha é Cátia Carvalho. “Comecei a pegar na bandeira, depois dancei como mulher a partir dos meus 14 ou 15 anos e desde aí só falhei dois anos, quando tive os meus filhos. O meu avô foi um dos fundadadores da associação, pegou-me o gosto, motivou-me sempre e acabo por gostar disto”, conclui.

Também Nélida Rodrigues, que dança desde pequena, não esconde o amor pelo lado tradicional da dança. “É um orgulho ser de Teivas e dançar a Morgadinha. É uma dança única e marcamos a diferença com ela. Passa de geração em geração: a minha mãe é o meu par na dança e a minha filha também participa nas Cavalhadas. A família está toda envolvida”, enaltece. 376 anos de história que se resumem num cortejo a sair à rua este domingo à tarde, em Viseu.





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