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As descobertas que desenham a história da região

Edição de 23 de agosto de 2019
24-08-2019
 

Há três grandes descobertas arqueológicas que foram feitas em Viseu e que dão a conhecer a história desta cidade: a ara romana, a muralha romana e a basílica paleocristã. A elas juntam-se agora os achados do que poderá ter sido uma casa da Idade do Ferro e que foi encontrada na Praça da Misericórdia, no centro histórico.

Não é a primeira vez que se encontra uma estrutura datada desta época, mas, ao que tudo indica, esta vai ser estudada, preservada e musealizada. A intenção já foi anunciada pela autarquia viseense que arrancou este ano com o seu pólo arqueológico. A estrutura da casa foi encontrada durante escavações feitas num torreão que estava a ser preparado para ser ajardinado. O arqueólogo responsável, Pedro Sobral, esclareceu que o achado agora colocado a descoberto tem “uma importância enorme”, porque comprova a antiguidade da cidade.

“Temos aqui um dos vestígios mais preservados, que é uma estrutura habitacional da Idade do Ferro, uma casa típica daqueles castros que conhecemos do noroeste peninsular, dos castros lusitanos”, explicou.

Os trabalhos de estudo e preservação dos vestígios arqueológicos estão a ser já articulados com a Direção Geral do Património Cultural e com a Direção Regional de Cultura do Centro. “Face à localização destes achados, a confirmar-se a sua relevância, nós não deixaremos de fazer a sua musealização”, garantiu também Almeida Henriques, presidente da Câmara de Viseu.

Estruturas idênticas já tinham sido encontradas junto ao Funicular

Estes achados terão, assim, um fim diferente daqueles que já tinham sido descobertos aquando de outras intervenções na malha urbana de Viseu, nomeadamente nas obras de requalificação do Museu Nacional Grão Vasco (há quase duas décadas) e da construção das infraestruturas para o funicular. Na altura, e tal como se constata numa tese intitulada “A Idade do Ferro no Planalto de Viseu: o Caso do Morro da Sé” várias estruturas tinham sido encontradas, nomeadamente construções de cariz doméstico e uma estrutura defensiva.

No meio académico, o que foi encontrado agora em Viseu não é novidade, tendo em conta os achados anteriores e os estudos feitos e outros publicados. Arqueólogos e historiadores falam em descoberta “importante”, mas não “extraordinária, e que vem confirmar a antiguidade de Viseu. A Idade do Ferro marca uma era arqueológica referente à utilização deste metal na fabricação de ferramentas e armas. O período durou de 1.200 a.C. a 550 a.C.

Da ara romana à basílica paleocristã

Se os achados à volta da Idade do Ferro atestam a existência de uma povoação no centro histórico de Viseu, um outro grande achado veio lançar luzes sobre a importância de Viseu e a origem do seu nome. Trata-se da ara romana, agora em exposição no Museu da Cidade, e que durante anos esteve “arrumada” num caixote. Foi encontrada em 2009 durante escavações na zona histórica e é considerado o achado arqueológico mais relevante na construção da história da cidade. Datada da segunda metade do século I d.C, o altar é um dos mais antigos monumentos epigráficos de Viseu. A inscrição, em latim e totalmente perceptível, contém uma mensagem aos “deuses vissaieigenses”, percebendo-se que a palavra deriva de Vissaium, o nome da cidade naquela época. De referir que a mais antiga referência escrita do nome de Viseu remontava ao século VI, sob a forma “Viseo”.

Além da ara, há outros achados da época romana que lançam luzes sobre a história de Viseu. A muralha romana que está à vista na Rua Formosa e os troços que foram recentemente encontrados na Rotunda de Santo António são outros exemplos.

Viseu também tem uma basílica paleocristã (altomedieval) mas que está aterrada. Foi descoberta em 1987 pelo arqueólogo João Luís da Inês Vaz na Praça D. Duarte. Durante os trabalhos de escavação foi apenas descoberta o que terá sido a “cabeceira” do templo que poderá ter sido destruído durante a reconquista muçulmana. Muitos dos vestígios arqueológicos e os estudos feitos pelo arqueólogo, que foi também governador Civil de Viseu, têm estado igualmente confinados em caixotes mas que poderão brevemente ver a luz do dia, agora que o pólo arqueológico de Viseu está vocacionado para a investigação.

O pólo Arqueológico é um espaço que funciona como reserva municipal de salvaguarda do património, mas que pretende ir mais longe, podendo acompanhar trabalhos arqueológicos públicos e privados.

Vouzela: exploração de volfrâmio destruiu diverso património pré-histórico

A corrida ao volfrâmio, no século passado, em Queirã, no concelho de Vouzela, fez desaparecer diverso património arqueológico Pré-Histórico, mas não só. A convicção é de Manuel Luís Real, o coordenador do “Estudo do Património Histórico-Arqueológico de Vouzela”, e que na próxima terça-feira, 27 de agosto, vai revelar à população de Queirã os resultados das pesquisas que foram feitas na localidade pela equipa de investigadores que está envolvida no projeto.

“Queirã tem poucos monumentos megalíticos ao contrário do que acontece na parte ocidental [do concelho] porque a maior parte foi destruída com a exploração do volfrâmico, mas a zona é bastante rica na Idade do Bronze”, adianta ao Jornal do Centro, Manuel Luís Real.

A exploração mineira na zona remonta ao tempo dos romanos ainda que os vestígios sejam poucos. Com a ajuda da população local, os arqueólogos identificaram artefactos variados e não apenas pré-históricos. Também material usado nas minas no século passado foi encontrado ao abandono.

“Localizámos e conseguimos salvar grande parte da maquinaria antiga que é possível vir a utilizar mais tarde num museu sobre o complexo mineiro dessa zona”, conta o coordenador do estudo.

O complexo mineiro foi calcorreado e nesta altura as minas existentes estão a ser inventariadas com o objetivo de mais tarde poder vir a ser criado um “um circuito para as pessoas poderem visitar algumas das mais interessantes”. Esse trilho terá que ser criado pela Câmara Municipal e ou pela Junta de Freguesia local, refere Manuel Luís Real, que considera ainda que o município deveria aproveitar melhor e até valorizar a antiga exploração de volfrâmio também do ponto de vista turístico.

“O complexo mineiro de Queirã é um ponto forte do concelho e acho que deveria ser melhorado e aproveitado este impulso para valorizar algum do património existente e que está relacionado com a arqueologia industrial, como é o caso da Bejanca que a prazo poderá ser uma grande mais-valia”, defende.

Monumentos variados

Para além das minas, em Queirã há ainda a realçar a existência de dois importantes castros (povoados), destacando-se o de Ribamá, que os arqueólogos consideram um dos principais “pontos de interesse” na freguesia tal como a ribeira onde está situado. Apesar de datar do final da Idade do Bronze, este castro foi também utilizado no período romano e na Idade Média, sendo que os achados feitos no local comprovam isso. “Encontrámos uma sepultura aberta na rocha no próprio castro. No interior encontrámos também uma plataforma bastante importante com uma mão ciclópica com pedras de grande qualidade que será da Idade Romana ou Alta Idade Média”, revela Manuel Luís Real.

Ainda na localidade, a equipa de investigadores envolvidos no projeto salienta a existência de dois dólmens, num dos quais foi encontrada a letra “R” da perdida Torre Medieval de Loumão os arqueológos acreditam ter encontrado uma das paredes da estrutura, destacando ainda a identificação de uma via romana e de dois sarcófagos numa necrópole. Numa pequena gruta foi descoberta uma lâmina de sílex que terá provavelmente 4500 anos.

É de tudo isto que Manuel Luís Real vai falar com as gentes de Queirã. A apresentação dos resultados do estudo está agendada para a próxima terça-feira, pelas 21h00, na sede da Junta de Freguesia.

“A decorrer desde 2016, o ‘Estudo do Património Histórico-Arqueológico de Vouzela’, tem feito consideráveis avanços no conhecimento do passado do concelho. Foram já identificadas várias centenas de estruturas ou sítios arqueológicos, desde a Pré-História à Idade Média, havendo também registos de alguns bens patrimoniais de época moderna considerados de especial relevância. Entre os sítios referenciados, há elementos já dados a conhecer por antigas investigações, mas a maioria encontra-se inédita”, salienta em comunicado a Câmara de Vouzela.





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