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Cardo: uma planta "mágica" com múltiplas utilizações

Edição de 18 de outubro de 2019
20-10-2019
 

Bancos, um móvel para guardar queijos e um carrinho de transporte de sobremesas. Estes são alguns dos exemplos de móveis que foram criados por um grupo de investigadores do Instituto Politécnico de Viseu (IPV) a partir do cardo, uma flor que é usada no fabrico do queijo serra da estrela. Este produto típico só leva mesmo três ingredientes: o leite, o sal e claro o cardo, “a planta mágica” que está a ter cada vez mais utilizações.

No caso do mobiliário, o projeto nasceu no seio do Departamento de Engenharia de Madeiras do IPV, que estudou o cardo para a criação de móveis mais leves. “Ligthwood – Compósitos de madeira e poliuretano inovadores” foi o nome dado ao programa e que permitiu o desenvolvimento de uma nova tecnologia de compósitos de madeira, recentemente patenteada e que combina partículas de madeira e cardo com espuma de poliuretano. A ideia surgiu depois de o grupo de investigadores ter escutado o professor da Escola Superior Agrária de Viseu Paulo Barracosa falar sobre o cardo.

“O arbusto tem dois metros de altura e só se aproveitam três ou quatro centímetros que estão lá em cima para fazer o queijo. O resto que está para baixo não vale para nada”, explica Jorge Martins, docente do Departamento de Engenharia de Madeiras do Politécnico de Viseu.

Com este facto em mente e como os resíduos da planta “parecem quase madeira”, a equipa de investigadores achou que “era boa ideia experimentar” usar o cardo. A aposta, que parece ter-se revelado acertada, foi feita numa altura em que o grupo andava “a tentar desenvolver um produto que fosse leve” e que permitisse fazer “móveis de madeira que competissem com os plásticos”.

O projeto permitiu encontrar um material mais leve, mas também mais fácil de fazer e que é resistente mecanicamente. Agora o desafio é “torná-lo 100 por cento biodegradável”.

Inicialmente, a ideia era criar apenas material para “as indústrias do queijo”, mas “os designers acharam que este tinha potencialidades do ponto de vista estético”. Acabaram por ser desenhados vários objetos que já foram mostrados com sucesso em certames de Milão e de Londres.

Estudos mais antigos

O mobiliário é apenas um dos exemplos do que se pode fazer com o cardo. A investigação no Politécnico de Viseu arrancou há cerca de dez anos pela mão do professor Paulo Barracosa, que começou por estudar “o perfil bioquímico das flores e a implicação que isso tinha no fabrico do queijo serra da estrela”.

Os estudos publicados e que foram feitos em parceria com as queijarias de referência da região confirmam que “a diversidade bioquímica tem efetivamente uma implicação grande na qualidade do queijo”. “Nos ensaios que temos feito com o mesmo leite e usando diferentes tipos de cardo, o que acontece é que o queijo pode sair mais ou menos amanteigado”, explica.

A aplicação na industria-agroalimentar não se fica por aqui. Em estreita colaboração com várias empresas regionais, a Escola Superior Agrária ajudou a lançar bombons, mas também doces e até picles. “O cardo tem nas suas raízes um composto, a inulina, que é ótimo para diabéticos e que é muito usado na área alimentar”, refere. Os investigadores da Agrária estão também à procura de outras mais-valias do óleo das sementes do cardo na alimentação, mas também no biodiesel.

Vinhas tratadas com... cardo

A flor é um mundo sem fim e “um case study” que na opinião de Paulo Barracosa, merecia um livro como o que já existe para a cortiça. “É uma planta que se pode ser toda usada. Há muito poucas plantas no mundo que se possam usar todas”, vinca, salientando que é essa a mensagem que tenta passar aos seus alunos.

O docente universitário salienta que as folhas do cardo “tem uma capacidade enorme antioxidante, antibacteriana, antiviral e antifúngica”, características essas que levaram um grupo de investigadores da agrária a desenvolver um produto fitofármaco que já foi usado no tratamento de vinhas. “Acabamos de fazer um vinho que não levou uma gota de pesticida. É uma extração que fazemos. Como a folha é antifúngica, antibacteriana e antiviral, serve-nos como proteção na vinha ao oídio, míldio, etc.”, destaca, revelando que o ano passado foram feitas 350 garrafas de um vinho que foi criado com uvas de uma vinha que foi tratada com cardo.

“Somos pioneiros no mundo nesta área. Imagine o que é andar a aplicar um produto sem nada, sem máscara, não precisa de nada. Estamos a falar de uma coisa inócua. É só pulverizar um extrato natural”, afirma Paulo Barracosa.

Os “poderes” do cardo na área da saúde levaram também já à criação de sabonetes, num processo que está ainda em fase de testes.

Estudo com impacto local

A investigação é feita muitas vezes apenas pela Agrária, que também se junta a outras instituições de ensino e empresas para aprofundar o conhecimento da planta de cor roxa. No caso, a escola viseense prefere apostar em estudos que criem impacto e que possam ser usados pelos diversos atores que atuam na região.

Paulo Barracosa sublinha que a missão da instituição é partilhar a informação que produz sobre um produto que cria valor acrescentado nesta zona do país. Apesar de realçar a importância até económica do cardo, o docente critica “a falta de visão estratégica” que existe na região em torno da flor. Uma prova disso é o reduzido número de plantações existentes. Só a agrária ajudou a criar dez campos, com cerca de cinco hectares, mas que são insuficientes para as necessidades do tecido empresarial local.

Por causa disso, muito do cardo que é usado é comprado no sul do país ainda que este tenha menor qualidade já que cresce de forma espontânea. A falta de matéria-prima já se sente e ameaça piorar no futuro, o que pode comprometer um dos produtos regionais de excelência: o queijo.

“Hoje não há flor em quantidade para as necessidades”, alerta Paulo Barracosa, considerando que um dos desafios que a região tem é criação de mais plantações. “É preciso plantar, plantar, há necessidade urgente de criarmos aqui uma oportunidade de negócio”, diz, acrescentando ter em carteira a colocação de milhares de plantas.

Segundo Paulo Barracosa, o cardo pode constituir uma fonte de rendimento para quem nele aposta. O quilo desta flor proveniente do sul do país está a ser vendido a 50 euros, mas o da região, que tem mais qualidade pode ser vendido a 100. Um valor que não vai prejudicar as queijarias uma vez que a produção só precisa de um terço ou mesmo metade deste ingrediente.





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