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Doenças oncológicas: fragilidade é real, mas não é uma sentença de morte

Edição de 1 de novembro de 2019
03-11-2019
 

O cancro da mama tem cura, mas ninguém está preparado para receber a notícia. É um percurso clínico físico, emocional, muitas vezes solitário, mas “já não é uma sentença de morte”.

Chegou ao fim mais um mês (outubro) de prevenção do cancro da mama e médicos, psicólogos, sobreviventes e familiares são unânimes em afirmar que é isto que tem de ser muito bem explicado a quem sofre da doença que apesar de ter uma elevada incidência, em Portugal, tem boas taxas de sobrevivência.

Aos 34 anos Susana, mãe de uma criança de três anos, foi-lhe diagnosticada a doença. Era o penúltimo dia do ano e ficou a saber que tinha um carcinoma total invasivo. Não estava preparada, mas lembra que teve a sorte de estar rodeada de excelentes profissionais e ter um suporte familiar forte. Oito anos depois, é um dos rostos das mulheres que sobrevivem à doença. O medo que tinha continua a ter, mas sabe que hoje é uma mulher diferente. Teve uma luta onde, como costuma dizer, “a quimioterapia me secou as lágrimas”.

Ana Isabel é outro dos rostos de uma mulher mastectomizada. Um desafio que teve e que diz que continua a ter para a vida e que o encara, agora, “com humor” porque a ajuda a superar os momentos mais difíceis. Em jeito de brincadeira, refere que a mulher é “mais do que um par de mamas” e que a “fragilidade é real”.

Já fez 30 anos que Emília fez a remoção do peito. Na altura, quando recebeu a notícia que tinha cancro foi, para ela, como uma “sentença de morte”. Não foi. Está junto da família e é, em Viseu, um dos rostos do Movimento Vencer e Viver que dá apoio ao doente e à família. “Enquanto voluntárias temos a ambivalência de dar e receber. Nós estamos aqui, nem que seja só para ouvir”, conta.

E é isso, muitas das vezes, que a enfermeira Augusta também faz. Ouvir e dizer “eu estou aqui”. A profissional faz parte da equipa multidisciplinar que trabalha com médicos oncologistas e sabe bem do que fala. Se hoje ajuda quem tem a doença, ela própria já passou pelo mesmo. “Foi difícil, há muitos medos, muita insegurança, mas tive a sorte de ter apoio dos familiares e colegas e esse medo foi passando”, conta.

A evolução na medicina e a insegurança de voltar a acontecer

Estes foram alguns dos testemunhos deixados num encontro que reuniu na CUF, em Viseu, médicos, doentes e sobreviventes do cancro da mama. “#1500 razões para estarmos próximos” assinalou os 12 anos de atividade da Unidade da Mama deste grupo de saúde. O cancro é a doença que mais preocupa os portugueses e os tumores da mama são os que causam mais apreensão, segundo um estudo a nível nacional baseado em entrevistas presenciais a mais de mil adultos. Mas, a evolução da medicina tem ajudado a esbater alguns mitos.

“A cirurgia do cancro da mama evoluiu muito nas últimas décadas”, atesta Francisco Cortez Vaz, médico com diferenciação na cirurgia oncológica e um dos principais responsáveis por desenvolver, em Portugal, a técnica da cirurgia conservadora (procedimento para retirar o tumor com uma margem de segurança, preservando a maior parte possível da mama). No futuro, diz este profissional, a “grande abordagem vai ser a de mexer o mínimo possível na axila”.

No encontro, os efeitos secundários dos tratamentos foram temas em destaque e a médica Helena Gervásio, presidente do Colégio da Especialidade de Oncologia Médica da Ordem dos Médicos e membro da Sociedade Portuguesa de Oncologia, lembra que “cada pessoa é um caso”. “A mulher tem de perceber pelo que está a passar. Tem de compreender o que é o tratamento. Não lhe podemos dizer que lhe estamos a dar um rebuçado”, sustenta, voltando a frisar que cada caso, cada pessoa, passa por impactos diferentes.

É por isso que as equipas que tratam de um doente com cancro da mama são multidisciplinares e no grupo há uma parte que tem de ser desempenhada pelos psicólogos. “O apoio é diferente ao longo do processo. Na primeira fase atuamos aquando do diagnóstico, depois acompanhamos no tratamento e é necessário também fazer o seguimento, o depois, porque os maiores receios da mulher, que já se sente desprotegida, são a insegurança e a incerteza de voltar a acontecer”, explica a psicóloga Susana Lucas. Segundo a responsável, muitas mulheres, principalmente as mais jovens, ainda recusam procurar ajuda porque acreditam ser fortes e esta é uma situação à qual se deve dar atenção. “Muitas acabam por nos procurar já com graves depressões”, conta.

A medicina tem avançado no tratamento desta doença e o campo da reconstrução mamária também está a evoluir. O médico em Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética, Carlos Rangel, destaca a evolução que tem havido e o facto de cada vez mais mulheres optarem por uma cirurgia onde, por exemplo, se pode usar os tecidos da própria doente.

Portugal está entre os 10 países da Europa com os melhores resultados na taxa de sobrevivência, situada entre os 80 e 85 por cento. Os especialistas, que nesta conversa aberta e descomplicada aproximaram profissionais e doentes, lembram a importância de se fazer um diagnóstico precoce com a regularidade recomendada para cada idade ou caso como forma mais eficaz para a deteção precoce da doença.

Testes genéticos e cirurgias preventivas

As alterações genéticas relacionadas com o aparecimento de cancro de mama têm estado em debate entre especialistas nos últimos tempos, assim como a realização ou não de cirurgias preventivas.

Tamara Milagre, presidente da Evita - Associação de Apoio a Portadores de Alterações nos Genes Relacionados com Cancro Hereditário, alerta para a falta de consciencialização de alguns profissionais de saúde, como o médico de família. Diz que “o maior desafio atualmente é o seguimento correto numa consulta multidisciplinar”, sublinhando que “os centros especializados precisam de aumentar a sua capacidade de resposta para quem decide avançar com cirurgias preventivas” e que o tempo de espera é “bastante longo em algumas instituições”.

O cancro da mama é um tumor que, apesar de ser dos que apresenta maior capacidade de prevenção secundária, “tem uma alta incidência e uma alta mortalidade”, afirma, por seu lado, o presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), Vítor Rodrigues. Para o especialista, é “a combinação do diagnóstico precoce e, particularmente do rastreio, e os progressos terapêuticos alcançados que permitiram uma significativa diminuição da taxa de mortalidade”.

“É necessário também que o cancro da mama diagnosticado seja objeto, por parte das instituições de saúde (estruturando a oferta do serviço) e dos médicos (referenciando os casos suspeitos), de atenção quanto à possibilidade, felizmente diminuta, de se estar perante um síndrome familiar. Caso esta exista, pode permitir formas de prevenção dirigidas a familiares que podem estar em risco”, acrescenta.





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