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Durante 40 dias, salvam-se almas com cânticos

Edição de 19 de abril de 2019
19-04-2019
 

A cantar alimentamos a alma”. É com rituais como o da amentação que os crentes celebram a Páscoa. Um grupo de pessoas, durante 40 dias, percorre todas as ruas de uma aldeia de Viseu à procura de salvar o espírito de quem já partiu. A salvação e a lembrança juntam-se num ritual único que ganha na Quaresma, o tempo que antecede a Páscoa, ainda mais força. Há quem lhe chame fé, outros referem-se ao amor. O ritual perdura e há quem lute para que nunca se venha a perder. Uma tradição que ainda existe por muitas aldeias do distrito de Viseu.

Cavernães, véspera de domingo de ramos, em plena Quaresma. O tempo que os católicos defendem ser de jejum e abstinência, é igualmente tempo pesaroso e de reflexão. Afinal, para os crentes, celebra-se a paixão e morte de Jesus Cristo. Neste tempo, como forma de aproximação entre a maior figura do cristianismo e os crentes, há um sem número de rituais que o povo foi alimentando e aos quais foi dando sentido.

Em Cavernães, canta-se às almas ou, dito por outras palavras, faz- -se a amentação das almas. A tradição é antiga, mas há quem continue a lutar para que continue atual. Neste lugar, já é o segundo ano que ocorre uma celebração formal do amentar das almas. Antes da atuação, os grupos reúnem-se na associação local, que fica bem junto à Igreja paroquial.

“Aqui alimentamos o corpo, lá dentro, na Igreja, vamos alimentar a alma”, começou por dizer Silvério Figueiredo, enquanto se punha na fila para tomar um café com os restantes elementos do Grupo de Cantares Amenta das Almas de Cavernães. A eles juntam-se mais cinco. Dentro de uma sala pequena estão 70 pessoas, homens e mulheres que se vão aprontando entre um café e um dedo de conversa, comentando-se o jogo de futebol da semana. Lá fora, esperam mais. A Igreja abre-se e começa a compor-se de gente. Entretanto, há lenha a arder em três pequenos potes, junto à escadaria. O fumo entranha-se, mistura-se com o ar frio e húmido daquela noite e o abrir de portas do edifício religioso fá-lo entrar e tornar o ambiente ainda mais pesado.

Lá dentro, os fiéis aguardam o início da celebração. Famílias inteiras juntam-se nos bancos da Igreja. Ao fundo um altar-mor iluminado com o roxo a dominar os tecidos do interior do edifício, não fosse esta uma cor dominante desta época do ano. O organizador deste encontro, Silvério Figueiredo, dá o mote e apresenta os grupos, dando uma breve explicação de o porquê de ali estarem. “Este não é um espetáculo para aplaudir. É um espetáculo para sentir, um espetáculo de fé”, conclui.

Não se ouvia ninguém dentro da Igreja, silêncio absoluto, até que oito mulheres, vestidas totalmente de preto, se juntam numa roda, entre os bancos. As luzes da Igreja são desligadas, resta a lâmpada do altar principal e a talha dourada que dá alguma claridade. Para começar, convidam os presentes a benzer-se. “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

A povoação acede e começam a interpretar os martírios. O tom assemelha-se aos cantos gregorianos, a voz perdura em cada sílaba e as palavras demoram a sair. É um canto longo e intenso com letras cheias de termos fortes e específicos, ligados à morte, ao luto e à fé. A tradição oral manda que um grupo feminino interprete estas quadras. Para os homens reserva-se a amenta das almas. A diferença entre ambos nem sempre é fácil de estabelecer porque se aos martírios se reserva a referência à paixão e morte de Cristo, ao ementar das almas relembra-se também a morte, mas dos familiares e amigos próximos de quem canta e de quem ouve.

Ao fim da primeira quadra, o grupo reza um Pai Nosso, e dá uns passos. “Vossos sagrados ouvidos, estão a ouvir os meus pecados. Lá no dia do juízo, serão todos perdoados”. Há um novo convite a rezar e retoma o cântico. Aqui, rara é a frase que não tenha a palavra “pecado”. O grupo avança ao longo do corredor principal e a povoação mantém-se em silêncio. No fim do primeiro grupo participar neste encontro, as luzes tornam a ligar-se, as mulheres benzem-se e retiram-se.

"Isto é o coração a cantar"

Já no exterior da Igreja, Maria do Céu Rodrigues, confessa que desde menina participa nesta tradição. “Gosto de aqui vir porque tenho fé e depois que o meu marido faleceu mais vontade tenho de vir e de homenagear quem já partiu”, diz com um brilho nos olhos.

Enquanto soam as badaladas das dez da noite no sino da igreja, Maria de Lurdes conta que este foi apenas um momento. “Nós começamos a cantar os martírios desde o primeiro dia da Quaresma. Todos os dias, na rua, desde o início da povoação até ao fim. Chova, neve ou faça frio, todas as noites, praticamente de porta em porta.  Às vezes chegamos a casa todas encharcadas com o guarda-chuva todo virado do vento forte, mas vamos, estamos lá”, descreve.

E tal como se perde no tempo o início destes cantares, também Maria de Lurdes já não se lembra exatamente quando começou a cantar na Quaresma. “Tenho sessenta anos, comecei em novita com os mais idosos. Isto diz-me alguma coisa, gosto muito de cantar e entra dentro de mim. É uma paixão muito grande por Deus. Quem nos ouviu a cantar, percebe. Isto fica no nosso coração, mexe com o nosso íntimo”, diz, emocionada, referindo ter esperança de que esta tradição não acabe.

Este grupo atua, portanto, durante quarenta dias, todos os anos nas ruas de Cavernães. “As pessoas acompanham-nos, vêm à janela e à porta e rezam connosco. Nós, quando chega a quarta-feira de cinzas, já estamos a organizar o grupo e a saber quem pode ou não pode vir. O segredo é cantar com o coração, não é o cantar alegre. É cantar do coração. Naquele momento, não há olhares, nem falas, estamos concentradas, para que aquilo mexa connosco”, assinala Maria de Lurdes.

Também Ilda Bernardo está encostada à parede exterior da Igreja, com um ouvido lá dentro, onde o segundo grupo já atua, e outro para escutar as companheiras de grupo a falar de uma paixão imensa nestes cantares. “O ano em que eu não vier cantar, fico triste. Não sei explicar o porquê. Sinto-me como se estivesse no céu, a rezar e a cantar. É uma maravilha”, confessa.

Os rituais mudam, mas a fé, dizem, é igual

Por vezes usa-se o termo ementar para designar esta tradição. Para além de palavras parecidas, têm significados idênticos. Amentar pode referir-se a lembrar ou trazer à mente, mas também atar ou prender com correias. Por outro lado, ementar significa, também, relembrar e fazer orações pelos falecidos. Ambas as expressões estão certas e são usadas. A origem desta tradição de evocar os falecidos nesta época do ano não tem uma data inscrita. Julga-se ter nascido na Idade Média. Entretanto, a noite já vai avançada e o grupo de Cantares Amenta das Almas de Vila Nova do Campo prepara-se para atuar. São apenas homens que começam também ao fundo da igreja, igualmente escura. No amentar o foco é a salvação das almas. Diz a tradição religiosa que se canta para salvar as almas de familiares e amigos já falecidos e tirá-las do limbo, a barreira entre o céu e o inferno.

Com os cantares, as almas seguem para o céu, símbolo de salvação. Então, aqui, o tom é de lamento e pedir desculpa pelos pecados cometidos. Numa roda, enquanto rezam, os homens ajoelham-se e, no meio do cântico, referem o nome do falecido como que pedindo a Deus a salvação para ele. Ao longo da Igreja, o cenário de Páscoa vai-se compondo. As paredes são preenchidas com quadros da paixão de Cristo, mais conhecida como Via-Sacra, no teto imagens bíblicas e de santos. É para ali que olha quem espera que o grupo chegue perto do altar principal. É que, à semelhança das mulheres, também os homens começam ao fundo da Igreja e percorrem o corredor, ao ritmo do que vão cantando e rezando. “Acorda, cristão, acorda, deste sono profundo, lembrai as vossas almas, que lá estão no outro mundo”.

Duas horas depois, o encontro chega ao fim. Homens, mulheres e muitas crianças abandonam a Igreja, mas apenas por algumas horas. É que, dali a pouco tempo, há novos momentos que, nas palavras de Maria de Lurdes, são para viver com o coração.





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