A OUVIR 98.9 FM
           00:00:00 | 00:00:00        
      
  
 
        

"Fujam que vem aí o diabo" e o herói ficou para salvar 20 vizinhos

Edição de 8 de fevereiro de 2019
08-02-2019
 

Em Treixedo, concelho de Santa Comba Dão, a população considera Armando Roque um herói. Na noite de 15 de outubro de 2017, pelas 22h00, o habitante apercebeu-se de que a tragédia estava a chegar. O filho telefonou-lhe e disse- -lhe “fujam que vem aí o diabo”. Ele decidiu enfrentá-lo e ajudar os vizinhos. Um ato heróico que agora foi, uma vez mais, agradecido com um almoço “surpresa” que juntou, na sua nova casa, mais de 100 pessoas. “Era um autêntico “ciclone de fogo” que rapidamente atingiu diversas casas, que foram num ápice tomadas pelas chamas”, conta Armando Roque.

O novo herói de Treixedo lembra-se que chegou à varanda e viu um cenário de horror. Com a única roupa que trazia no corpo, saiu de casa. “Corri sem parar para bater a todas as portas dos vizinhos que moravam ali perto de minha casa, que ainda vi arder, sem nada poder fazer”, conta emocionado entre os seus amigos que no último sábado se juntaram a ele.

Lembra-se que faltou a luz e que depois se limitou a correr e “a gritar que nem um louco pelos nomes dos meus vizinhos”. Ao mesmo tempo batia-lhes à porta com muita força e lá foram acordando. “Uns estavam estremunhados e outros estupefactos com o mar vermelho de chamas que redopiava em forma de tornado à nossa volta. Não havia muito a fazer, senão fugir para não sermos apanhados por aquele vendaval que destruía tudo à sua passagem”.

Armando Roque lembra que “as pessoas já andavam desnorteadas”. “Consegui trazer comigo um bebé de 15 dias e uma senhora de 93 anos para os meter no interior de um anexo em pedra, tapei todos os buracos, meti lá oito ou nove poceiros de água para não faltar o oxigénio. De repente ouvi uma pessoa a gritar acudam, acudam. Era o amigo Leonardo dentro de casa cheia de fumo, fui lá dentro e tirei-o debaixo de chamas”, recorda ainda emocionado.

Depois disso, ainda conseguiu voltar atrás para ir buscar o Nunes, irmão do Leonardo. Quando ia entrar na casa dele, no meio das chamas, rebentou uma botija de gás. “A minha sorte é que a esfera era de alcatrão e o rebentamento deu-se na vertical, porque se fosse de ferro, eu e o Nunes, hoje não estávamos aqui...”

Tiago Costa, advogado e amigo de Armando Roque, foi um dos presentes no almoço de homenagem. “Todos devem enaltecer a coragem deste homem, porque mesmo vendo a sua casa e as adjacentes serem absolutamente engolidas pela fúria das chamas, ‘obrigou’ cerca de 20 vizinhos a fugirem, levando-os consigo para o interior de um armazém, onde ficaram a salvo”, descreve.

Reconstruiu a casa praticamente sozinho

Este “herói” teve direito à reconstrução da sua casa, no âmbito do Programa lançado pelo Governo para a reconstrução das primeiras habitações ardidas.

Apesar de a obra ter sido entregue ao consórcio da Edivisa, através da Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), durante vários meses, Armando Roque andou completamente sozinho a reerguer a casa. Só praticamente no último mês de obra é que uma empresa de construção civil, - um subempreiteiro do consórcio da Edivisa contratado pela CCDRC - tomou conta dos trabalhos.

Armando chegou mesmo a trabalhar na sua casa como funcionário dessa empresa, de sol a sol. “Apesar de ter andado na obra praticamente todo o tempo sozinho, ainda tenho muito dinheiro a receber da empresa”, que teima em não lhe pagar o que deve. “Isto, por si só, é já um escândalo merecedor da maior atenção por parte das autoridades competentes”, avança Tiago Costa. Nos últimos tempos, o dia e a noite foram passados na construção. Um vizinho até lhe arranjou luz para ele poder trabalhar.

Um outro amigo e vizinho, João Pais, antigo militar da GNR, conta que Armando é mesmo um herói pela bravura com que enfrentou todas as contrariedades. “Não sei como é que ele ainda está no seu perfeito juízo, porque sempre pensámos que este rapaz “pifava”, que não tinha hipóteses de ficar normal como ele hoje está”, salienta.





  • 2002 - 2019 - Jornal do Centro é uma marca registada da Legenda Transparente, lda
  • Desenvolvido por: WLC.PT