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Médicos e enfermeiros encontraram "sorrisos" na destruição, em Moçambique

Edição de 17 de maio de 2019
18-05-2019
 

Médicos, enfermeiros, militares, bombeiros, homens e mulheres de vários quadrantes da sociedade saíram da sua zona de conforto e deixaram as suas vidas em suspenso para se unirem a uma causa maior: a ajuda ao povo de Moçambique. Disponibilizaram os seus conhecimentos, competências e empenho ao dispor dos que mais precisam. Segundo os dados das agências das Nações Unidas, a passagem do ciclone por Moçambique fez, pelo menos, 786 mortos e afetou 2,9 milhões de pessoas.

Joana Cardoso é médica de saúde pública e após o ciclone Idai integrou uma operação conjunta da Cruz Vermelha Internacional e dos Médicos do Mundo. De Penalva do Castelo partiu para a cidade da Beira numa viagem que durou 23 dias.

Na chegada ao Aeroporto, o contacto com a devastação causada pelo furacão foi imediato, a médica lembra “as letras caídas no topo do edifício” que, simbolicamente, demonstravam a devastação de um país. Da missão, diz ter-se tratado de uma experiência “muito enriquecedora a nível profissional e pessoal”.

Também Tiago Pereira, natural de Mangualde, partiu para Moçambique enquanto membro de uma equipa do INEM. O enfermeiro conta que as informações disponíveis internamente e pelos órgãos de comunicação social relatavam uma destruição imensa. E foi isso o que constatou in loco. “Todas essas dificuldades encontradas foram o motivo que nos deu mais resiliência para ajudarmos tão nobre povo”.

Para o socorrista, foram 22 dias ricos em experiências não só profissionais, mas pessoais. Perante tudo o que o marcou, o que teve mais impacto foram as crianças que, independentemente da situação, “tinham sempre um sorriso a dar”.

Tiago Pereira conta que em Portugal a semana anterior à ida foi repleta de informações do que estava a acontecer. As expectativas não eram as melhores tanto pelo rasto de destruição como pelo potencial risco de algumas epidemias, como a cólera. Mesmo assim partiu na noite de 27 de março, “com angústia de quem deixei cá, mas com vontade de fazer o máximo que conseguir, por quem pelas minhas mãos iria passar”. Filho de pai moçambicano, natural da cidade da Beira, não podia ter ligação mais forte ao país e avança que depois de tudo o que viveu “não faria sentido não regressar”.

"As letras caídas no topo do edifício anunciavam a chegada a um destino ferido"

 

Joana Cardoso é natural da Ínsua, Penalva do Castelo. É médica de Saúde Pública no Agrupamento de Centros de Saúde Dão Lafões. Após o ciclone Idai, a 14 de março, que atingiu parte de Moçambique, participou na operação Embondeiro, no âmbito da ajuda humanitária prestada àquele país, integrando a equipa da Cruz Vernelha e Médicos do Mundo. Embondeiro é o nome da mais icónica das árvores africanas que se tornou o abrigo inicial de muitos dos sobreviventes desta catástrofe. De regresso, a médica conta a sua missão num país que continua a precisar de cuidados.

É a primeira vez que participa numa iniciativa como esta?

Não sendo a primeira experiência de ajuda humanitária, a participação na Operação Embondeiro por Moçambique foi, curiosamente, a minha primeira experiência numa missão de emergência. No ano 2017, integrei a Aventura Solidária da Assistência Médica Internacional (AMI), no Senegal, onde permaneci cerca de 12 dias.

Como surgiu a vontade de abraçar estas causas?

Surgiu da motivação e vontade de contribuir para o apoio à população em situação de emergência, contribuindo assim para a preservação da vida e aliviando o sofrimento, prevenindo doenças e promovendo a saúde das populações. Certa de que seria uma missão humanitária diferente, muito mais exigente e desafiante, foi tranquilizadora a experiência com o apoio e mestria dos elementos da equipa, alguns dos quais com uma vasta experiência em missões no Haiti, Afeganistão, Iraque, Sri Lanka ou Somália.

Qual foi o primeiro impacto quando lá chegou?

Na chegada ao Aeroporto da Beira, as letras caídas no topo do edifício anunciavam a chegada a um destino ferido. Cerca de 10 dias depois do ciclone, as marcas da passagem destruidora do Idai eram ainda bem visíveis quando se atravessava a região da Beira. Havia terrenos alagados, casas que ficaram sem telhado, chapas retorcidas com a força do vento, árvores arrancadas pela raiz, pessoas desalojadas, campos de acomodação com inúmeras tendas que alojam milhares de desalojados, pessoas feridas e a grande necessidade de cuidados de saúde emergentes, água potável e alimentação. E, no entanto, a vida tentava prosseguir sob o calor escaldante dos trópicos. Chegámos a registar 38ºC às 8h00. As necessidades encontradas fazem com que as organizações de saúde sejam necessárias no terreno, não só numa resposta rápida, de emergência, mas também de continuidade para que possam reforçar profissionais locais, apostar e apoiar a reconstrução destes espaços e melhorar as condições higiossanitárias tanto quanto possível.

Quais foram as principais necessidades encontradas?

As necessidades encontradas foram muitas e não havia tempo a perder. Eram milhares as pessoas que já tinham pouco e ficaram sem nada. E muitos os cuidados de saúde necessários, patologias como malária, infeções respiratórias e lesões cutâneas devido ao corte de chapa e, posteriormente, a cólera. Existia ainda o elevado risco do agravamento das condições higiossanitárias. Com intuito de minimizar estas necessidades e ameaças, a Cruz Vermelha Portuguesa instalou o Hospital de Campanha no complexo de saúde do bairro de Macurungo, um dos mais populosos e mais pobres da cidade.

Como foram passados os seus dias em Moçambique?

Antes de cuidar da saúde dos moçambicanos, a equipa empenhou-se na descarga das mais de 30 toneladas de bens levados de Portugal. As 15 toneladas de alimentos transportadas no voo humanitário foram entregues às Nações Unidas, responsável pela gestão da ajuda humanitária na Beira...

E no dia a dia?

O dia começava cedo, com a deslocação para o Hospital de Campanha. Eram necessários cerca de 20 minutos para percorrer uns escassos quilómetros, que se tornavam mais demorados porque a viatura tinha de navegar entre os inúmeros buracos na estrada de terra. No complexo de saúde, além das tendas da Cruz Vermelha Portuguesa, encontravam-se o arruinado Centro de Saúde Urbano de Macurungo, a maternidade sem equipamento e o Centro de Tratamento da Cólera da UNICEF. Havia também uma organização dinamarquesa, a Danish Emergency Management Agency, responsável pelo tratamento da água que está a ser fornecida às unidades de saúde. As tendas da Cruz Vermelha Portuguesa têm várias valências: bloco de partos, unidade de emergência, gabinetes de consulta, sala de tratamentos, farmácia e apoio psicossocial. Para além de participar nas atividades do Hospital de Campanha, tive ainda oportunidade de participar em outras diversas, como por exemplo, a campanha de vacinação contra a cólera, sessões de educação para a saúde para a população sobre “Cuidados a ter para evitar cólera e outras diarreias agudas”, integração das equipas na visita aos bairros mais afetados, para seleção do local mais apropriado para implementação dos postos de reidratação e de distribuição de cloro.

Como foi deixar o país, depois de terminada a missão? Qual era o seu estado de espírito?

Apesar do cansaço, foi uma experiência indescritível que nos preenche e nos fez e faz crescer a vários níveis. Não há dúvida que as aventuras mais gratificantes são aquelas que vivemos quando saímos da nossa zona de conforto, o que damos, ainda que seja muito para aquela população, é muito pouco comparado ao que recebi. A nossa missão foi mais do que esperávamos... muito enriquecedora a nível profissional e pessoal. Parti da Beira de alma cheia, com uma bagagem bem mais rica, bem mais pesada de cultura, de risos, de emoções, de gestos, de olhares que dizem muito... foram dias que deixam saudades e nostalgia...

O que é preciso mudar para que situações como estas não voltem a repetir-se?

Considerando que esta situação resultou do Ciclone Idai, uma catástrofe natural, deve cada um de nós contribuir para travar os fatores de risco que estão na origem destes desastres naturais. Aliando-se a melhoria das condições de vida das populações mais desfavorecidas, de modo que quando confrontados com estes eventos as infraestruturas estejam mais preparadas.

Pensa regressar?

Todas as horas desta missão humanitária foram um desafio enorme, superado com a força de uma equipa muito coesa e com a enorme vontade de ajudar. A experiência foi tão intensa e há ainda tanto por fazer para que Moçambique possa voltar ao seu quotidiano, que ficou a vontade de um dia voltar.

Camas de parto e berços entre os bens enviados para as vítimas

A devastação causada em Moçambique pela passagem do furacão Idai sensibilizou o mundo e os portugueses não ficaram indiferentes a essa catástrofe. Por todo o distrito as iniciativas somaram-se e foram várias as entidades e particulares que abraçaram esta causa. A Cruz Vermelha foi uma dessas instituições. Segundo Dílio Francisco, presidente do Centro Humanitário Vale do Dão, logo após a catástrofe foi cedido equipamento PMA (tenda tática para instalação do hospital de campanha). Posteriormente, e dando sequência à vontade de muitos cidadãos anónimos e empresas, foi feita uma angariação para o Fundo de Emergência da Cruz Vermelha.

De salientar também a ação levada a cabo pela ACERT na altura da Queima do Judas, em abril, de apoio à causa.

Já o Centro Hospitalar Tondela Viseu, em colaboração com a Cruz Vermelha, disponibilizou para Moçambique sete camas de parto e cinco berços que serviram de apoio a mulheres grávidas que necessitavam de ajuda naquela região.

A Cáritas Portuguesa também mobilizou meios. Segundo o presidente da Cáritas de Viseu, Manuel Monteiro Marques, “assim que chegaram as primeiras notícias da tragédia que se abateu sobre Moçambique, a Cáritas Portuguesa abriu de imediato uma campanha e uma conta solidária para angariação de fundos destinada a minorar as dificuldades da população”. O resultado da campanha, a nível nacional, foi de 347. 618,30 euros.  Na Diocese de Viseu, foram angariados 3.386, 43 euros. Por indicação do bispo de Viseu, D. António Luciano, o peditório de todas as paróquias no dia 12 de maio destinaram-se a apoiar as vítimas do furacão Idai.

O mundo do futebol também se mostrou muito solidário com esta iniciativa. O Clube Desportivo de Tondela dinamizou uma campanha em que os adeptos fizeram uma doação em troca de um bilhete. Segundo o diretor de comunicação do clube, Francisco Favinha, foi possível encher duas carrinhas com bens de primeira necessidade que foram entregues à Associação de Futebol de Viseu.

Também o Académico de Viseu conseguiu encher várias caixas das utilizadas habitualmente pelo Banco Alimentar. Aos donativos somaram-se as receitas das vendas de t-shirts alusivas a Moçambique criadas especialmente para a ocasião.

A Casa do Benfica em Viseu contribuiu, sobretudo, com alimentos enlatados que foram entregues em Lisboa à fundação do clube. O núcleo do Sporting de Viseu também fez uma campanha de angariação de bens de primeira necessidade como alimentos não perecíveis e produtos de higiene.

A Associação de Futebol de Viseu promoveu a campanha “Vamos ajudar Moçambique” que incitou os clubes filiados a contribuir com bens de primeira necessidade. Segundo o presidente da Associação, José Alberto Ferreira, os bens vão agora ser encaminhados para Moçambique com o “apoio fundamental da Visabeira”.





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