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Moradores do Bairro da Cadeia esperam para ver requalificação em 2020

Edição de 27 de setembro de 2019
27-09-2019
 

Há mais de 50 anos que Maria Teresa quer uma habitação com melhores condições. Desde que chegou ao Bairro Municipal de Viseu, não é só a idade que deixa marcas no rosto. Também a casa demonstra a passagem do tempo. Agora, com a requalificação anunciada daquele que é conhecido como Bairro da Cadeia, está convencida de que muita coisa vai mudar. A começar pelas rendas que receia que venham a aumentar.

“Quando há uns anos disseram que o bairro ia desaparecer, fiquei triste. Se for para cumprir com o que está anunciado, parece-me uma boa ideia. Mas as rendas nestas casas não deviam aumentar. Também preferia que as casas pudessem passar de pais para filhos que é o que estava escrito no alvará que nos deram quando para aqui vim”, conta.

Em 50 anos de bairro, Maria Teresa lembra as várias fases deste pedaço de cidade que foi construído entre 1946 e 1948. “Será que agora é de vez, que agora é que vai ser mesmo requalificado?”, questiona.

A mesma pergunta faz a maioria dos habitantes, alguns dos que, recordam, foram para o bairro provisoriamente há mais de 40 anos. “Deveriam era ter tido cuidado e nunca ter deixado isto chegar ao que chegou”, contam.

Anselmo Cardoso também espera para ver se as obras avançam ou não, mas tem uma certeza. Não quer sair da casa que habita há 30 anos e onde tem feito várias obras para a tornar mais cómoda. “Se me derem uma casa igual, com o mesmo material que usei e onde possa meter os meus bens...agora deram-me a escolher entre duas que são mais pequenas e não tenho onde meter as minhas coisas”, desabafa, enquanto mostra a cozinha que montou e o chão que colocou nos quartos e na sala.

“Quem está em más condições e quer melhor, acho muito bem. Mas deveria ser visto caso a caso. Então eu gastei tanto dinheiro e agora vou sair prejudicado”, pergunta, sabendo que, para já, ainda não vai ter uma resposta. A mesma com que ficou quando tentou questionar o executivo aquando da apresentação do projeto há cerca de duas semanas. “Dizem que a minha casa vai ser para uma das associações, mas se há aí tantas porque foram escolher a minha”, volta a questionar com a convicção de que vai “lutar por todos os meios” para não sair da sua habitação térrea, com dois quartos, uma pequena sala e uma cozinha que é “o resultado de muito trabalho”.

Obras em 2020

“Vamos preservar o património e vamos fazer nascer um novo parque para a cidade, para além da vertente da habitação social que se manterá, do envolvimento de casais novos que pretendemos atrair para os fogos desabitados. Estamos em crer que o impacto da obra vai levar à fixação de alunos na escola que lá está”, explica, por seu lado, Almeida Henriques, presidente da Câmara de Viseu. Além das habitações, o bairro terá cinco residências artísticas e alguns edifícios vão ficar para apoio social. Ali vai ser instalada a Casa da Memória, um serviço de apoio no âmbito do serviço social e um estaleiro escola, junto à cadeia.

As obras deverão iniciar-se em 2020. “Estou ansioso. Aos anos que esta reabilitação era prometida”, refere José Ricardo. Foi para o bairro com seis anos e ali está há mais de 50 com a família. “Vou para uma casa mais jeitosa. A minha precisa de muitas obras”, diz.

O Bairro Municipal de Viseu foi edificado por iniciativa da Câmara Municipal e da então Direcção-Geral de Urbanização, como “bairro de casas para classes pobres”, tendo como projetista Travassos Valdez. Na altura, foram construídos 100 fogos do tipo T2 e T3. Eram casas geminadas, dispostas em banda, de piso térreo com um pequeno jardim à frente. Hoje, menos de 50 estão habitadas.

Este conjunto arquitetónico esteve para ser demolido, mas quando Almeida Henriques chegou à liderança da Câmara de Viseu decidiu reverter o cenário.

“Temos a preocupação de uma intervenção estruturada que reabilite a identidade arquitetónica e social do bairro, preservando e respeitando a sua memória”, sublinha o autarca que afirma que a cidade vai conquistar um novo espaço e uma nova centralidade porque “terá um parque infantil, um parque de gerações ativas e um pequeno anfiteatro ao ar livre onde os criadores que vão estar ali vão ter a obrigatoriedade de ali estrear os seus trabalhos”.

6,8 milhões de euros

O projeto, com um investimento de 6,8 milhões de euros e um prazo de execução de 16 meses, prevê a reabilitação de 87 edifícios, numa área de quase 25 mil metros quadrados e a criação de cinco residências para artistas. Mas há quem “desconfie” do projeto final, questionando a “qualidade” da intervenção, tendo em conta que o concurso foi ganho por um valor 60 por cento abaixo do valor base.

No âmbito da presente intervenção irão ser colocadas todas as novas infraestruturas, designadamente as de abastecimento de água e drenagem de águas residuais, rede de incêndios, iluminação pública, telecomunicações (ITUR), gás, sinalética, além da alteração do pavimento, reorganização dos arranjos exteriores, com reforço na plantação de árvores, a instalação de equipamento e mobiliário urbano e a colocação de pontos de recolha de resíduos urbanos.

“É um dos legados que espero deixar à cidade de Viseu, quando deixar o executivo. A sua permanência resultou de uma decisão que não foi consensual, foi até polémica, mas a esmagadora maioria da população queria preservar o bairro e é isso que vamos fazer”, conclui Almeida Henriques.

Já Maria Teresa só quer que o bairro tenha a vida que tinha quando há 50 anos para ali foi morar.

As valências planeadas

CASA DA MEMÓRIA - Equipamento sociocultural, de valorização dos diferentes tempos de existência do Bairro (passado, presente e futuro) e dos seus habitantes, trabalhando para a construção de uma biblioteca de memórias, acessível e utilizando diferentes suportes (documentos, fotografias, áudio, outros), e para a promoção da cidadania ativa e da partilha de saberes e experiências

EQUIPAMENTOS VISEU APROXIMA E VISEU CUIDA - Tem como objetivo o de prestar o apoio à população idosa e promover o carácter multifuncional do bairro

SERVIÇOS TÉCNICOS DO VISEU ESTALEIRO-ESCOLA - Visa quebrar o isolamento do bairro, promovendo a integração e contacto com o resto da cidade

RESIDÊNCIA DE PESSOAS EM RISCO - Instalação de um equipamento social que permita alojar de forma temporária pessoas ou famílias em risco, até reencaminhamento adequado

RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS - Passa por promover a multifuncionalidade e a miscigenação sociocultural do bairro, bem como a cultura, a arte, e a criatividade, apoiando o desenvolvimento de um programa de residências artísticas, num processo que envolva a interação com a comunidade em geral e com os habitantes deste espaço





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