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"Toda a ciência encontra-se na sombra de um ponteiro de um relógio de sol"

Edição de 9 de agosto de 2019
11-08-2019
 

A coleção privada de relógios de sol (instrumentos para medir o tempo em que as horas são indicadas pela sombra projetada por um gnómon) que podem ser apreciados no Protomuseu, em Vila Chã de Sá, começou muito cedo a ser construída. Naquele que é o primeiro museu que Portugal tem dedicado a este património, estão expostos mais de uma centena de instrumentos.

Tudo começou quando Pedro Gomes Almeida, que se designa como astrónomo e gnomista amador, agora com 78 anos, ainda frequentava o liceu. “Desde novo que me interessei por ecologia e pelo espaço... mas quando passei do segundo para o terceiro ano do liceu o meu avô materno ofereceu-me um relógio de sol de madeira. Há uns anos quando o encontrei comecei a olhar para aquilo e achei interessante”, contou o antigo engenheiro mecânico, recordando que o encontrou quando se mudou para Vila Chã de Sá, “por causa do espaço”, diz.

“Comecei a fazer o meu primeiro relógio de sol pirogravado em 1990 e hoje todos eles me encantam”, afirma Pedro Almeida.

Tem, por exemplo, representações de relógios que remontam a dois mil anos antes de Cristo. “Depois comecei-me a interessar por relógios egípcios, gregos, romanos e fiquei admiradíssimo como é que este povo já tinha relógios portáteis. De seguida surgiram os relógios ligados à religião, os canonicais, os árabes e por aí fora”, acrescenta.

Um relógio de sol, para o astrónomo, não é uma velharia. Lembra que este instrumento “apareceu a partir do momento em que o Homem deixou de ser sedentário”, explica.

Em Portugal “ninguém se interessa por este património”, lamenta Pedro Almeida, que considera que poderia ser um excelente produto turístico. Uma vez que em Portugal não há informação e que é um apaixonado por estes instrumentos, decidiu, então, há vários anos, contactar a Comissão dos Relógios de Sol, sediada em França, para que pudesse saber mais. “Disseram-me que era só para pessoas especializadas e membros. Mandei-lhes o meu site e passado uns meses disseram-me “sim senhor”, recorda em tom feliz. Assim, começou a receber informação, com alguma frequência, que o ajudou a construir as peças que hoje pertencem à sua vasta coleção.

Pedro Gomes Almeida não se cansa de dedicar o seu tempo à realização de novos relógios, mas afirma que a idade já pesa. Tem representado, por exemplo, um medidor do tempo portátil, que apareceu na Alemanha e tem mais de 1600 anos. “Demorei algum tempo a perceber como se fazia, mas devo ter demorado cerca de mês e meio a construí-lo”, conta, identificando este instrumento como aquele ao qual despendeu mais tempo.

Existem Relógios de Sol na cidade de Viseu?

“Ninguém me responde, mas eu sei que há. Há um relógio de sol no Passeio dos Cónegos, na Sé. Um relógio horizontal antigo. Deve haver mais relógios privados…. Há um relógio no Campo, em pedra. Agora muito badalado o relógio do Parque Linear de Santiago, não sei se foi um projetista que o fez, tem alguns problemas, mas que era interessante que se resolvessem”, começa por explicar Pedro Almeida.

Uma das sugestões do astrónomo amador é que seja criado um parque temático na cidade com vários relógios de sol, uma vez que na zona da Feira existe um. Na sua opinião, deveria existir espaço para estes instrumentos. “A grande maioria é pelo folclore, gastronomia e vinho. Há outro património que se está a perder”, conta.

O apaixonado pelos Relógios de Sol diz que nunca dará a sua coleção. “Muitas vezes eu vejo as coleções e coisas privadas a serem doadas, faz-se uma festa, recebe-se uma placa com um agradecimento e os objetos vão para um armazém até ficarem totalmente deteriorados”, sustenta. Contudo, estimula qualquer pessoa a descobrir estes instrumentos. “Se gostarem de ciências, matemática, geografia, história e filosofia, interessem-se por relógios de sol”, apela.

A leitura das horas

O astrónomo escolheu um relógio de sol simples para demonstrar à equipa do Jornal do Centro como se faz a leitura das horas.

A linha das 12h00 deve apontar para o norte. “Este relógio é diferente dos outros porque se repararmos o gnómon (peça do meio) é grosso. Vai dar uma sombra bastante larga”, começa por indicar. As horas da manhã são dadas pela esquina da esquerda, as da tarde pela da direita. Quando for meio dia a sobra da barra preenche perfeitamente a zona das 12h00.

A leitura de um relógio de sol é, por norma, pela sombra. Alguns permitem perceber as horas de verão e de inverno. Basta aumentar uma hora fazendo segundas marcações exteriores. No passado, nada disto era necessário: “A pessoa, quando o sol estava ao alto, ao meio dia, ia almoçar, por exemplo”, sustenta.

“Uma vez alguém me disse que toda a ciência e toda informação que existe encontra-se na sombra de um ponteiro de um relógio de sol”, remata Pedro Almeida Gomes.





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