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Vila Nova da Rainha: um ano depois da tragédia

Edição de 11 de janeiro de 2019
13-01-2019
 

Um ano depois do fatídico acidente, que matou mais de uma dezena de pessoas, num incêndio numa associação em Tondela, as vítimas ainda não receberam qualquer indemnização. O caso continua a ser investigado pelo Ministério Público. A dor e as memórias da tragédia ocorridas nessa noite mantêm-se vivas naqueles que, um ano depois, ainda sofrem física e psicologicamente. Apesar do drama vivido em Vila Nova da Rainha, todos querem que a coletividade volte a abrir portas.

13 de janeiro de 2018. Passou um ano, mas as marcas do fogo que afetou a associação recreativa de Vila Nova da Rainha permanecem. À dor dos que perderam familiares e amigos, juntam-se as mazelas dos que ficaram gravemente feridos.

No domingo faz um ano o trágico incêndio, no andar de cima da sede da Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha, onde estavam cerca de 70 pessoas num torneio de sueca. Nesse dia registaram-se oito mortos e 38 feridos, entre graves e ligeiros, tendo o número de mortes aumentado para 11 nas semanas seguintes. Tudo começou quando o teto revestido com material altamente combustível entrou em colapso depois do tubo de uma salamandra ter sobreaquecido e iniciado o fogo. Em instantes, o teto desabou e as pessoas, em pânico, precipitaram-se por uma saída que estava fechada. Acabaram por cair amontoadas e apanhadas pelos pedaços de teto em combustão.

José Luís, de 56 anos, relata ao Jornal do Centro como foi este último ano da sua vida, as dificuldades físicas, a necessidade de apoio que não chegou e as poucas perspetivas para o futuro.

“Foi um ano de martírio, com operações e vários tratamentos. Sempre em sofrimento, embora agora, fisicamente, já esteja bem”, conta José Luís, depois de ter passado por sete operações.

Em relação ao futuro, as perspetivas não são muitas. “Os médicos estão a fazer o possível, mas fiquei muito danificado ao nível das mãos”, explica Zé Luís enquanto mostra o que resta dos membros escondidos por umas luvas. Pela frente tem ainda três operações, uma já dia 21 de janeiro. Mas não há garantias de melhoras. “Tudo será feito para que ganhe a maior mobilidade possível”, quando, não sabe. “Vai arrastar-se no tempo. Por mais dois anos tenho este martírio pela frente. Estou nesta luta e não desisto”, conclui.

Sobre o acidente, lembra que esteve consciente desde o “primeiro minuto” da tragédia, que ocorreu a um sábado, mas só na segunda-feira seguinte soube da morte do irmão, Vítor Rodrigues, que residia em Coimbra, mas também estava na associação de Vila Nova Rainha, depois de ter ido ao funeral da sua própria mãe, que tinha sido sepultada na quinta-feira (11 de janeiro). Na altura soube também de outros amigos que morreram. “Isso custou. Por ordem dos médicos, só o soube na segunda-feira pela minha mulher que me citou os nomes todos”, lembra, emocionado.

“Não conheço a palavra solidariedade”

Zé Luís, como é conhecido pela maioria, lamenta que o único gesto de solidariedade demonstrado ao longo deste ano tenha sido o do jogo do Tondela frente ao Braga, em que metade das receitas reverteu a seu favor. No total recebeu 3171,66 euros.

“De resto, solidariedade é uma palavra que não conheço”. “Tenho a solidariedade da família e dos meus amigos, isso não tem faltado. Doutras instituições não. Politicamente não houve qualquer espécie de solidariedade. Houve, sim, no dia a seguir quando souberam vir aqui políticos e foi muito falado. Mas a partir daí calaram-se e nada mais fizeram. Só se lembram da palavra solidariedade quando a escrevem, ou a dizem em discursos ou a ouvem numa missa, mas nem todos os políticos também lá vão. É normal por isso que se esqueçam da solidariedade”, lamenta José Luís.

O incêndio na associação ainda está em investigação pelo Ministério Público que, segundo apurou o Jornal do Centro, ainda não recebeu todas as perícias solicitadas. O dinheiro das indemnizações ainda não foi entregue às vítimas porque está “cativo” no Tribunal. Uma situação que, para Zé Luís, não é boa, mas, encolhendo os ombros, diz que não há outro remédio se não continuar à espera. Aponta, no entanto, algumas críticas ao poder político local, “que não se interessou devida e politicamente pelo caso, pelas mortes e pelos feridos que houve. Vamos ver o que é que isto vai dar”, lastima.

Autarquia diz estar a fazer o possível

Em resposta, a Câmara de Tondela nega ter-se esquecido do caso. “Cada lesado, individualmente, tem uma perceção da sua condição que para nós é difícil contrariar. Aquilo que tentámos fazer com este processo (a autarquia avançou com vistorias nas associações e apoio nas obras) foi exatamente contrariar isso e dizer ‘nós estamos aqui, ao lado do tecido associativo, a tentar garantir que isto não se volte a repetir’. Temos a perceção de que estamos a fazer o possível. Acho que não há da nossa parte nenhum esquecimento sobre isso”, disse ao Jornal do Centro o vereador Miguel Torres, responsável pelo pelouro da fiscalização municipal.

Quanto à equipa de ação social da Câmara de Tondela que desde o primeiro momento andava no terreno, “tem estado sempre presente, desde que solicitada”.

Na aldeia faz falta um espaço de convívio

A maioria da população gostava de ver a coletividade de novo com as portas abertas e Zé Luís não é exceção. “A associação é extremamente necessária para esta aldeia. Fazia parte da vida das pessoas. Há um ano que isto paralisou”, admite. Até porque nos fogos de outubro, na povoação vizinha de Gândara também a associação desapareceu à mercê das chamas. “Não há aqui nada em Vila Nova, as pessoas não têm onde se entreter. Andam tresmalhadas porque nunca mais se juntaram, nunca mais houve aquela união que havia. Ficou uma aldeia deserta, por isso deve ser feita uma [associação], não sei como, tem de ser pensar nisso. Neste local penso que não, mas terá que se reerguer outra”, afirma.

Maria Odete era a parceira de sueca de Máxima da Silva, uma das vítimas mortais. Lembra o trágico acidente e a falta que o espaço faz para o convívio das gentes da terra. “A aldeia está muito triste, não há aqui nada. Agora vai cada um para seu lado”, conta, recordando os torneios de sueca e os jantares que todos os domingos juntavam ali imensas pessoas.

Reerguer associação continua a ser a vontade do presidente

Jorge Dias, dirigente da associação, em declarações ao Jornal do Centro, admite que continua a ser sua vontade reerguer a coletividade. “Só que as coisas não são tão fáceis como pensávamos, sobretudo a nível psicológico. Ainda é difícil lidar com a situação”, confessa.

O presidente da associação adianta, ainda, que estão a ser reunidas condições para a abertura de um novo espaço. “Vamos conseguir abrir alguma coisa, vamos ver. Estamos a reunir condições para isso e também à espera da decisão do Ministério Público”, explica.

Confirmou também ao Jornal do Centro que o dinheiro que dizia respeito às indemnizações foi depositado em Tribunal, pelo que ainda não chegou às vítimas.

Em homenagem aos que faleceram a 13 de janeiro de 2018, será celebrada uma missa este domingo, às 15h00, e seguir-se-á uma romagem ao cemitério de Vila Nova da Rainha.

Unidade de queimados não é prioridade

O serviço de urgência do Centro Hospitalar Tondela Viseu foi organizado de forma a dar resposta à quantidade de vítimas queimadas que deram entrada na fatídica noite de 13 de janeiro. Só o hospital de Viseu recebeu 13.

Um dia depois da catástrofe, Cílio Correia, presidente do conselho de administração, defendia que deveria ser equacionada a criação de uma unidade de queimados na instituição. “Uma questão que temos que equacionar no futuro, no quadro do desenvolvimento do plano estratégico do hospital, é pensarmos numa unidade de queimados e para responder a este tipo de situações”, frisava, na altura, o responsável.

Mas, agora, um ano depois da tragédia que provocou quase uma centena de feridos e mais de uma dezena de mortos, o conselho de administração diz que esta “não é uma das prioridades da administração no quadro do desenvolvimento do plano estratégico do Hospital”.

Município preocupado com segurança de associações locais

A Câmara Municipal de Tondela está a apoiar intervenções em 71 edifícios de associações do concelho para garantir melhores condições de segurança contra incêndios. Uma decisão tomada no seguimento de vistorias a 103 edifícios e depois do trágico acidente de Vila Nova da Rainha que chamou a atenção para uma realidade até então ignorada no país.

As fiscalizações foram feitas por empresas certificadas pela Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), seguindo-se a elaboração de “relatórios de desconformidades”, com a identificação dos problemas e orçamento para a resolução. A seguir foram assinados protocolos para “implementar as medidas necessárias para que as condições de segurança contra incêndios dos edifícios possam ficar salvaguardadas”, explicou Miguel Torres, vereador da autarquia.

Há obras que vão desde os mil aos 15 mil euros, mas o orçamento global ronda os 400 mil euros.

“Pelas circunstâncias do processo que está a decorrer, a associação de Vila Nova da Rainha não foi objeto de vistoria. A associação está fechada e nós achamos que as pessoas e a associação precisa de ter o seu tempo para definir como, quando e de que forma quer fazer a recuperação ou o que quer que seja da sua associação. Esse tempo têm de ser essas pessoas a geri-lo. Não somos nós, nem são as condições mediáticas do acontecimento que o devem fazer. Sabem que têm sempre a Câmara como parceiro no momento em que o quiserem fazer”, referiu.

Algumas obras nas associações já arrancaram, mas o município prevê que só no final do primeiro semestre deste ano estejam totalmente concluídas.





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