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Edição impressa: "Aqui em Manhouce a fé ajuda a espantar a solidão"

Isabel Silvestre, Manhouce
27-12-2019
 

Símbolo vivo do Portugal profundo, Isabel Silvestre levou o interior português aos quatro cantos do Mundo. Dona de uma voz inconfundível, tem no ‘nós’, na fé nos outros e num ser superior e na forma positiva como encara a vida os segredos para ter chegado aqui. Quando for dado o último acorde quer ser lembrada como é: a Isabel Silvestre, de Manhouce

 

Como é que começou o gosto por cantar?

O canto em Manhouce é tão preciso como comer ou respirar. Neste momento, já não acontece tanto porque os tempos mudaram, mas lembro-me que se cantava por tudo e com tudo. Bastava uma ida à fonte. Mas também nas ceifas, nas malhas, nas romarias, nos atos litúrgicos... Cantar faz parte de todos nesta terra.

Como é que foi a sua infância?

Foi linda, o melhor que podemos imaginar. Uma casa de família, onde reinava o entendimento e a preocupação com o outro. Sou a mais nova, fui um pouco filha de todos.

Era um tempo diferente...

Sem dúvida nenhuma. Posso dizer que, graças a Deus, tive uma família. Faz agora anos que esteve cá o Professor José Hermano Saraiva que me contou que as pedras de granito da nossa casa lhe transmitiram ternura.

Aqui todos se conhecem. O lado solidário está aqui muito presente...

Sou do tempo em que Manhouce era uma família. Havia um problema com um vizinho, todos ajudavam. Nos momentos de alegria, a aldeia também estava toda. Era um viver comunitário. Trocávamos, hoje ajudavam-me, amanhã ajudo-te eu.

A Isabel foi professora primária. Ao que sei também cantava nas aulas...

Sempre. O canto na escola, para mim, era mais uma disciplina. Ou começávamos ou acabávamos as aulas a cantar. E penso que este cuidado ajudou a manter vivo o canto de Manhouce.

Também já passou pela Junta de Freguesia da sua terra. Que ensinamentos ficaram?

A política é uma coisa muito complicada. Nos tempos em que fui professora sempre me entendi bem com os pais e com toda a gente, mas quando entrei na po- lítica as coisas mudaram um bocadinho. As pessoas pensam que quem ali está tem a obrigação de fazer tudo e ninguém pode fazer tudo... Nem tudo está nas nossas mãos. Estive só um mandato, mas abrimos caminhos sobretudo na parte da Cultura.

Nunca escondeu que é uma mulher de fé. Essa fé ajudou-a a chegar aqui?

Manhouce é uma terra de fé. Quando se entrava na casa de alguém, a primeira coisa que se dizia era ‘benza cá Deus tudo’. Na rua, cumprimentávamo-nos falando de Deus. Benzíamo-nos quando passávamos na igreja.

É de ir à missa muitas vezes?

Não muito, sobretudo agora no Inverno é complicado, mas sempre que posso ouço-a em casa.

A fé ajuda a espantar a solidão nos meios mais pequenos?

Sem dúvida nenhuma. E não é só a solidão. A fé espanta tudo! Temos de ter fé em qualquer coisa que se faça.

“Pronúncia do Norte”, o nome de uma canção. Como é que surgiu o convite para cantar o tema com o vocalista dos GNR?

Foi muito engraçado. Estava na Valentim de Carvalho a promover um disco e o Rui Reininho telefonou para o Mário Martins, que era o produtor na altura, a pedir sugestões de vozes femininas para um tema que tinha. Ele sugeriu o meu nome e depois o Rui Reininho ligou-me para ensaiar. Voltei lá mais duas vezes e disse-lhe que voltava lá as vezes que fossem precisas porque aquele trabalho era diferente de todos os que tinha feito. Depois de gravar nunca mais disseram nada e liguei para lá. Disseram-me que estava lindo. Correu bem, a música era muito bonita. É um hino do Norte, é uma canção que nos representa.

Tal como os cantares de Manhouce pode representar a Humanidade. É esse o seu grande sonho? Ser Pa- trimónio da Humanidade?

Era uma das últimas coisas que eu gostaria de ver acontecer.

O que falta?

Trabalho. Falta pôr mãos à obra e fazer o possível e impossível para que isso aconteça. Material temos, as cantigas têm a qualidade que têm e já são consideradas mais do que património. Estão vivas, prontas para serem mostradas desde 1938, mas gostava que ficassem sem data, para sempre. O cantar de Manhouce devia ficar imorredoiro. É uma palavra complicada, ou seja, que não morra.

Onde é que está a beleza do cantar de Manhouce? As origens, as vozes, o cantar?

É tudo. Antes de mais é o sentimento. Se a música, seja ela qual for, não for capaz de chegar ao outro não encanta. Estas pessoas cantavam muitas vezes para não chorar. A emigração levava os maridos, elas ficavam a tomar conta da casa e dos filhos e o canto aliviava. Há cantigas de despedida, de amor, de morte... O sentimento está sempre lá, seja qual for o momento, mas é sempre preciso ir de encontro ao outro. Caso contrário, não é cantar, é desencantar.

Que figuras admira na música portuguesa?

Muitas, felizmente temos pessoas muito boas na música. O Rão Kyao foi o primeiro, foi aquele que me pegou na mão e me levou para o Coliseu. Ficou toda a gente aflita. ‘Ó rapariga, o que vais fazer para o Coliseu?’. Estava tudo preocupado. Não se pode dizer que é sem preparação, mas tenho feito coisas que não estava habituada a fazer. Sair de Manhouce e ir para o Coliseu, ensaios um ou dois. Nem sei se fiz ensaios... devemos ter feito um ensaio geral. E depois, graças a Deus, correu bem. Com o Rão fui ao Canadá duas vezes, à Alemanha cinco, Nova Iorque... Eu sei lá por onde andámos... Já me perdi...

Estávamos a falar das referências na música...

Ah, sim. O João Gil é outro. A Amália... A Teresa Salgueiro e a Dulce Pontes. Temos tanta gente nova a cantar Fado que é uma maravilha...

Os seus pares, quer sejam autores, compositores, cantores, têm-na como alguém simples, de trato humilde. Faz falta alguém assim no mundo da música, tantas vezes cheio de egos?

Acho que sim. Quando estamos cheios de nós e começamos a querer impor-nos funciona precisamente ao contrário. Seja em que área for em que situação for, não podemos deixar de ser iguais a nós próprios. Quando se deixa isso, já não somos nós. O mundo da música é muito complicado. Há muitas pessoas que sentem que têm obrigação de se impor aos outros, seja de que maneira for. Mas eu penso que não. Cada um é como é. Temos é de ter a preocupação de fazermos o melhor que pudermos e soubermos. Não nos devemos impor, o trabalho fala por si.

O João Gil chegou a dizer que, tal co- mo Amália cantou o Fado e o litoral português, a Isabel Silvestre repre- senta o chamado Portugal profundo. Sente isso?

(suspiro) Faço por representar a minha terra com as cantigas que ela tem. Se assim o consideram, agradeço.

Notei que ficou um pouco sem jeito com o elogio do João Gil. Costuma ser assim?

Agradeço os elogios, sinto-os profundamente como reconhecimento do trabalho que faço. Mas é esse trabalho que tem de mostrar o que foi feito de melhor e de menos bom. Fala, igualmente, muito do nós... Sim, é um grupo. Não é só a Isabel.

Quando partir, que legado espera deixar?

Aquilo que eu sou. Aquilo que se fez.





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