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Edição impressa: José Valle de Figueiredo, o ensaísta da literatura geográfica

Edição de 3 de janeiro de 2020
04-01-2020
 

Nasceu em Tondela há 77 anos e define-se como poeta e ensaísta. José Valle de Figueiredo formou-se em História, foi presidente da Associação Académica de Coimbra, é diretor do Centro de Estudos Tomaz Ribeiro e diretor de um jornal do concelho (Folha de Tondela). É ainda Confrade de Honra da Confraria Queirosiana, Sócio de Mérito da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, sócio fundador do Instituto Internacional de Macau, Comissário do Projeto Foz Literária (Porto) e professor de Geografia Literária do Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes. Em conversa com o Jornal do Centro, fala do seu percurso de vida e carreira profissional.

Como surgiu o interesse pela literatura, particularmente a poesia e a crítica literária?

Será um pouco difícil assinalar o começo de interesse pela Literatura… direi apenas, que principiou bastante cedo e que publiquei o primeiro texto aos doze anos no “Tronco em Flor ” que se publicava na Beira, Moçambique, onde então vivia. Era um conto de tipo policial.

A partir daí, as letras foram-me escrevendo, especialmente a partir de Tondela e Coimbra. Como isto anda sempre tudo muito ligado, vieram a poesia e a crítica literária. Aos dezassete anos publiquei o primeiro livro de poesia – “ As cinco regras do equilíbrio” – que foi considerado uma das revelações do ano de 1959. Nesse mesmo ano, dirigia uma página literária – “Perspectiva 59” – na “Folha de Tondela. A propósito, uma curiosidade: foi aqui que o Zeca Afonso publicou o seu primeiro poema.

É considerado um especialista em geografia literária. Como define esta área do conhecimento e quais as maiores aprendizagens que retirou de trabalhos como os cadernos sobre Tomás Ribeiro, Ramalho Ortigão ou a elaboração da antologia de poesia brasileira?

É verdade que me tenho interessado pela “geografia literária” como proposta para re-ligar as letras com os locais onde se “produzem”. Isto é, ligar os escritores com os lugares onde nasceram ou viveram ou sobre os quais escreveram. Por exemplo: quais os escritores que nasceram em Viseu, aqui viveram ou sobre Viseu escreveram? Ou sobre a nossa Beira? Um exemplo de um trabalho – entre vários – que fiz foi o de estabelecer as relações entre Camilo, Viseu e a Beira. Neste caso foram muitas essas relações. Se alargarmos o âmbito poderemos ter o turismo (visitar os locais ligados às obras) e a gastronomia. Calcule-se o que poderia nascer desta “trindade” para a qual arranjei o neologismo de “Literaturismo”. Atrevo-me a aproveitar este ponto para reprovar a recente moda dos chamados “festivais literários” em que uns quantos elementos vêm da capital, bebem uns copos e trocam umas palavras. Fala-se dos autores locais? Não. Fala-se das obras de escritores locais? Não. Dá-se a conhecer a literatura escrita localmente? Não… e por aí fora…

A luta pela democracia permeou a sua vida desde os tempos de estudante na Universidade de Coimbra. Como têm evoluído os seus ideais de juventude com a passagem dos anos e de que forma encara o conceito de liberdade nos tempos modernos?

Por prudência sempre preferi as liberdades à liberdade. As liberdades concretas, as que têm a ver com a nossa vida do dia a dia, da comunidade em que nos inserimos, da família, do município, da profissão e do trabalho, da região e das assembleias locais. E isto, porque temos uma má experiência dos iluminados que estão sempre a invocar a liberdade para, em nome dela, cometerem os maiores atropelos e as maiores arbitrariedades.

A sua experiência na Guiné mudou de alguma forma a sua visão do mundo e os temas em que escolheu trabalhar numa fase posterior?

A minha experiência da Guiné (1967-69) daria “pano para mangas”, como se costuma dizer. Direi apenas que foi um marco na minha vida. Criei laços profundos com a terra e os homens, que ainda hoje se mantêm.

Fez um poema que ganhou notoriedade ao ser musicado, sobre Jan Palach, o jovem que se imolou durante a invasão soviética da então Checoslováquia...

O poema a que se refere, “Requiem por Jan Palach”, musicado pelo meu velho e grande amigo Manuel Rebanda, tornou-se como que um canto de resistência de várias gerações que passaram por Coimbra e não só. Nos anos do PREC (Processo Revolucionário em Curso) ainda se reforçou mais essa condição. Recentemente, a convite das autoridades checas e da Embaixada portuguesa em Praga, e no âmbito da evocação da invasão soviética daquele País (1969), o Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra foi lá cantar o “Requiem”. Quando muitos dos que aplaudiram a invasão, agora vestidos de anjos de procissão, é bom lembrar o que foi aquele terrível esmagamento das liberdades da então Tchecoslováquia, de que foram cúmplices.

Numa altura em que tanto se fala de notícias falsas no campo do jornalismo e enquanto diretor do Folha de Tondela, o jornal mais antigo do distrito de Viseu, quais são os princípios que o impulsionam a continuar?

Começo por assinalar que temos de ter muito cuidado com este ponto: há jornalismo e há falso jornalismo. A pretexto de se atacar o segundo, não se deve vilipendiar o primeiro. O problema, reconheço, é que nem sempre é fácil distinguir um do outro, pois o sistema usa várias “caixas de ressonância” para baralhar tudo e todos. Assim, nunca foi tão necessário os órgãos de comunicação terem verdadeiros profissionais ao seu serviço, habilitados, e que saibam distinguir os recados e as encomendas do que é verdadeiro.

Aos 77 anos o que ainda lhe falta fazer?

Em relação ao que me pergunta, o que posso dizer é que procurarei continuar a cumprir a condição que me foi dada: a de ser, tanto quanto possível, Beirão.

O que quer isto dizer?

Por um lado, tentar plantar - sempre que for o caso - uma flor no meio do granito. Por outro, ser como o muar, sempre que for preciso. O que isto quer dizer? Diz a sabedoria ancestral que o Beirão é como o muar, tem sempre um coice para dar.





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