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"Gosto de escrever sobre temas que geram discussão"

Edição de 5 de julho de 2019
06-07-2019
 

Gabriel Gomes lançou o primeiro livro que é simultaneamente a primeira peça de teatro lançada oficialmente pelo escritor de apenas 22 anos. O jovem, que é também ator, aventura-se agora na escrita teatral com uma trama que conta com cinco personagens.

Parecendo cliché, como é que começou o “era uma vez” na escrita?

Eu comecei no projeto “Panos”, mas era só uma vez por ano. A partir daí ganhei o gosto e não consegui esperar mais para tornar a fazer um projeto teatral. Comecei a escrever textos dramáticos e chamei amigos para levar os espetáculos a cena. Tenho várias peças escritas, mas o primeiro livro é este.

À partida o livro parece pequeno, mas tem muitos temas envolvidos para uma única peça de teatro. Desde o luto ao suicídio, passando pela prostituição ou a existência de Deus. Como é que consegue conjugar todos estes temas?

Parti de uma relação conjugal conturbada e a ideia era mostrar uma família disfuncional. Eu sabia que, partindo daqui, ia abrir outros temas que também lá estão.

Onde é que se inspirou?

São referências, séries, filmes, várias coisas. Há muitas pessoas que pensam que é sobre mim e eu também posso admitir que assim seja, de forma inconsciente.

Há duas personagens principais, a Emma e o Bernardo. Foi fácil ligar as duas histórias tão fortes que envolvem sobretudo a falta de amor?

Para além de tudo aquilo que eles discutem, mais do que ser um problema de ambos, enquanto casal, é algo que eles têm de resolver com eles mesmos. As histórias do passado de cada um, faz com que eles sejam assim, um com o outro. A culpa, chamemos-lhe assim, é da forma como há problemas interiores a resolver.

Este livro pode resumir-se à falta de amor. É isso que os faz discutir tanto?

Quis explorar a questão da violência e pus no livro uma discussão constante. Hoje fala-se de violência doméstica e a minha intenção foi referir que as palavras podem magoar tanto ou mais do que as ações físicas. A comunicação é muito importante, mesmo que falem mal um com o outro, é bom dizerem as coisas, em vez de as guardarem.

O início é interessante. Há um acidente de avião que, à partida, os podia chocar e fazê-los falar sobre o que aconteceu, mas continuam centrados no mundo deles...

Isso. O mundo continua a acontecer lá fora, mas cá dentro a destruição é a mesma.

Era capaz de ser amigo de algum dos cinco personagens?

Sim, porque eles todos dizem coisas que eu diria. Fui descrevendo as personalidades deles e em cada uma delas, eu me revejo.

A certa altura a Emma refere que o Bernardo só discute tanto, porque ela se assume de esquerda. Como é que entrou a política aqui?

Escrevi coisas das quais eu gosto de falar. Desde o comunismo à existência de Deus, quase todos estes temas entram nos meus textos. Sei que são temas que provocam, intrigam e geram discussão.

Tem alguma referência?

Em escrita teatral, revejo-me em Samuel Becket, principalmente na questão das frases curtas, concisas, muito diretas. Gosto de diálogos rápidos que tenham falas muito seguidas. No “Éramos nós, uma arma e nós”, eu queria que houvesse diálogo muito rápido sem parar e, ao mesmo tempo, uma pausa que desse lugar à introspeção das personagens.

Recorre às letras maiúsculas, constantemente...

Não é tanto para indicar, quando for levado a cena, que o ator aqui ou ali tem de gritar. É mesmo para dar o sentido de intensidade e revolta, mais para entender o sentimento da personagem.

Quer levar este texto a cena?

Gostava, mas não consigo encená-lo por estar muito por dentro do texto. Além de que, por norma, os textos que escrevo são levados a cena por atores que têm, ou a minha idade, ou um pouco mais velhos e, neste caso, gostava que fossem profissionais com a idade dos personagens.

Há futuro depois deste livro?

Sim, há vários trabalhos que gostava de partilhar, todos escrita teatral. Tenho escrito um conto, mas já o estou a adaptar para ficar um texto dramático.





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