A OUVIR 98.9 FM
           00:00:00 | 00:00:00        
      
  
 
        

Os segredos dos monges cistercienses

Edição de 5 de julho de 2019
06-07-2019
 

“Estamos na Ponte Fortificada da Ucanha que é a travessia mais famosa sobre o rio Varosa. Antes desta ponte já deveria existir uma outra do tempo dos romanos, provavelmente feita com materiais perecíveis e por isso não chegou nenhum vestígio dessa ponte aos nossos dias”, começa por dizer Patrícia Brás, até agota técnica no Museu de Lamego, responsável pelos monumentos que fazem parte do projeto Vale do Varosa.

O som das águas do rio Varosa, bem como partes dos antigos moinhos, torna ainda mais mística a história da Ponte Fortificada. “Sabemos que a atual terá sido já construída no século XIII, por isso ela é de perfil medieval”, afirma a guia. A ponte foi edificada naquele exato local, pois sempre constituiu uma importante passagem para a cidade de Lamego e, a partir daí, Moimenta da Beira, Trancoso e Riba Côa.

A torre, que está adossada à ponte, foi construída em 1465 por ordem do abade Fernando do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas (mosteiro cisterciense). O mais curioso é que foi edificada para “servir de depósito dos bens que os viajantes que queriam chegar a Lamego, e ao interior do país, eram obrigados a pagar se a queriam transpor”, diz Patrícia Brás. Estamos, portanto, a falar de uma portagem como hoje as conhecemos. Portagem essa que vigorou até 1504. Além de servir como depósito de bens, a torre servia, ainda, como afirmação de poder dos cistercienses de Salzedas, daí ser icónica. “A ponte é em V, em cavalete. É quase como se eu colocar o pé de um lado, estou sob o poder dos cistercienses, mas se colocar no outro já estou sob o poder da diocese”, remata.

Mosteiro de Santa Maria de Salzedas

Da Ucanha, que marca a entrada no couto do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, segue-se viagem até ao monumento nacional.

O Mosteiro, da ordem de Cister, começou a ser construído em 1168. No entanto, a construção primitiva não aconteceu naquele local. “O primitivo mosteiro começou a ser construído a cerca de dois quilómetros daqui, num sítio que se chama ‘Local da Abadia Velha’. Sabemos que terá sido aí construído porque na década de 60 um agricultor colocou a descoberto aquilo que são os vestígios de uma igreja com três naves e que se veio a verificar poder ser, então, o primitivo mosteiro”, esclarece Patrícia Brás.

Coloca-se em questão o porquê de os monges terem abandonado a primitiva construção, uma vez que já tinham a igreja construída, porque era a partir desse elemento que os mosteiros cistercienses iniciavam. “Há algumas [razões] que poderemos avançar, nomeadamente o facto de na primitiva localização não estarem asseguradas as condições de higiene porque o curso de água estaria a uma distância considerável”, diz a técnica, relembrando que, no momento de fundação, os mosteiros tinham de estar localizados em vales férteis, irrigados e próximos de linhas de água.

Ao mesmo tempo, a primitiva construção encontrava-se muito próxima da Ponte da Ucanha. Um local de passagem muito concorrido e que, por essa razão, não cumpria outro dos princípios dos cistercienses – o isolamento e afastamento dos aglomerados populacionais. Assim, o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas foi deslocado para o local onde hoje se encontra.

Criado e fundado por D. Teresa Afonso, segunda esposa de Egas Moniz, foi ela quem doou o couto de Argeriz à comunidade religiosa cisterciense que lá se fixou e foi crescendo. O mosteiro masculino cisterciense alberga, ainda, um núcleo expositivo – “Fragmentos” – onde deve terminar a visita.

O nome da exposição representa o que restou da venda em hasta pública. “Os mosteiros, de norte a sul do país, em 1834, tiveram um destino comum, na sequência da guerra civil, que levou à extinção das ordens religiosas. As igrejas passaram para as paróquias, mas os mosteiros e todo o seu recheio foi a hasta pública. As peças que temos aqui nesta exposição é o que resta dessa venda”, refere Patrícia Brás. No núcleo de pintura podem ver-se obras de Grão Vasco, Bento Coelho da Silveira ou Pascoal Parente. A este, juntou-se o núcleo de escultura, livro antigo, arquitetura e ourivesaria.

No espaço expositivo, o corredor da noviciaria construída no séc. XVIII, a certa altura o visitante é surpreendido pela única cela de noviço que resta. “É nessa cela que pensamos que o visitante se sente mais próximo da vivência monástica. Foi-nos possível redesenhar o mobiliário que lá estaria porque, os últimos noviços que por ali passaram, deixaram algumas pinturas na parede que nos permitiram ensaiar esse mobiliário”, remata Patrícia Brás, a guia.





  • 2002 - 2019 - Jornal do Centro é uma marca registada da Legenda Transparente, lda
  • Desenvolvido por: WLC.PT