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Viseense convidada para fazer curadoria da Bienal de Istambul

Edição de 27 de setembro de 2019
28-09-2019
 

Mariana Pestana é arquiteta e vai ser a próxima curadora da Bienal de Design de Istambul, sendo a primeira portuguesa a ocupar o cargo. A viseense mudou-se em 2008 para Londres, onde viveu por dez anos, e volta agora a Portugal. A 5.ª Bienal de Design de Istambul decorre entre 26 de setembro e 8 de novembro de 2020. Em entrevista, a nova curadora conta a sua experiência.

Para começar, o que é uma Bienal de Design e o que faz um curador?

Um curador é uma pessoa que organiza exposições em contextos museológicos ou fora deles. No fundo, tem de contar uma história, não num livro, mas num contexto tridimensional de uma exposição.

Estas bienais são uma reflexão sobre o estado do design que tem sempre, normalmente, esta componente contemporânea. No fundo constrói um discurso da sociedade contemporânea através de designers e arquitetos em torno de um programa que pode ser composto por uma exposição ou em vários pontos da cidade que são ativados durante o tempo da bienal.

Qual a sensação de ser a primeira portuguesa a ocupar o cargo em Istambul?

Fiquei surpreendida e contente por ser nomeada para este cargo muito importante. Todos os curadores que fizeram a Bienal de Istambul nas edições passadas são pessoas que eu admiro muitíssimo. É um momento de ficar contente, mas também é um enorme sentido de responsabilidade. É um desafio muito grande ser responsável pela próxima edição da Bienal. O design contemporâneo é muitas vezes feito por pessoas do norte e centro da Europa. Creio que é uma oportunidade para pensar a partir de uma perspetiva mais no sul da Europa.

O facto de trabalhar no estrangeiro acabou por influenciar a escolha?

Talvez. Os elementos do júri puderam ver o trabalho que eu realizei, por exemplo, em Londres e também nas exposições que fiz em Lisboa. Penso que esta escolha é feita com base em trabalhos que fiz cá em Portugal como em trabalhos que fiz no estrangeiro.

Já que estamos a falar em emigração… porque decidiu emigrar e afirmar-se no estrangeiro?

Eu saí de Portugal em 2008. Tinha estudado arquitetura. Na altura, tinha sido lançada a primeira Trienal de Arquitetura de Lisboa e esse foi o meu estudo de caso para a minha tese de licenciatura e depois trabalhei com Pedro Gadanho no design de uma exposição que fez parte da Milão Capital Europeia da Cultura e trabalhei um pouco em arquitetura aqui em Portugal.

Eu queria-me dedicar a este mundo das exposições e, por isso, decidi mudar-me para Londres para estudar em Saint Martin porque havia um curso de ambientes narrativos e era precisamente toda esta relação entre a narrativa e o espaço que eu desejava. Saí para estudar e depois fui ficando… Mais tarde criei um estúdio, chamado “The Decorators” com três pessoas que conheci nesse mestrado e começamos a trabalhar juntos. E agora regressei a Portugal… [risos] Passado esse tempo todo tinha muita vontade de voltar a aqui viver e fazer trabalho a partir daqui. Tomei esta decisão no verão passado e em novembro mudei-me para cá.

Está a fazer trabalhos em Portugal para Londres?

Na verdade é uma mistura, mesmo quando vivia em Londres fazia algum trabalho lá e cá. Agora estou no Porto. Dou aulas na Universidade do Minho, estou a tratar da Bienal de Istambul e depois tenho alguns projetos com os “Decorators” em Londres e noutros lugares que vamos fazendo juntos.

Mesmo depois de receber a proposta para a Bienal de Istambul não para e apesar de se dedicar a cem por cento ao projeto vai ter sempre outros projetos em mão…

Ser curador tem muito a ver com conhecer aquilo que está a acontecer no meio e ir acompanhando o trabalho de designers emergentes, de arquitetos. É muito raro haver um curador que esteja a trabalhar num só projeto de cada vez, pois uns vão alimentando os outros também.

Já tem algumas ideias ou começou a construir alguma coisa para Istambul?

Infelizmente ainda não posso revelar nada do que vai acontecer. A Bienal de Istambul tem tido um papel muito importante naquilo que é o panorama do design contemporâneo. As várias edições têm conseguido lançar novas ideias e têm sido bastante influentes naquilo que é a prática do design. Honestamente, ainda não posso mesmo revelar, mas alguns temas que são recorrentes do meu trabalho certamente poderão ter alguma influência naquilo que irei fazer na Bienal como, por exemplo, a Exposição Eco Visionários que eu fiz no MAAT.

O objetivo da exposição será, então, de mudar mentalidades?

Exato. Acho que uma exposição pode ter esse caráter de transformação social, acredito muito nisso. É um contexto em que, por um lado, se pode partilhar e dar algum conhecimento, mas também é onde se podem ir buscar ideias, soluções e projetos às vezes imaginários que pensam o mundo de outra forma. Para mim isso é muito desafiante.

Pretende levar para a exposição em Istambul alguma obra de artistas portugueses?

É muito cedo para dizer. Ainda tenho que definir um tema e estou muito longe de saber o que vou fazer. Tenho trabalhado com alguns artistas portugueses como, por exemplo, Inês Neves dos Santos, Pedro Lino, – que é realizador de cinema – Hugo Passos ou Tiago Almeida e espero, claro, continuar a trabalhar com designers portugueses, mas ainda é cedo para dizer. Não tenho ainda uma lista de artistas ou de designers com quem vou trabalhar.





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