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Amigos, amigos... futebol à parte

Edição de 16 de agosto de 2019
 
 

Entrevista de desporto com Rogério Sousa e Vasco Almeida

Programa completo


16-08-2019
 

A amizade é antiga e o futebol é responsável por ela. Agora, em clubes diferentes, Vasco Almeida (Castro Daire) e Rogério Sousa (Lusitano) têm o mesmo objetivo: a manutenção no Campeonato de Portugal. Se a meta é a mesma, os treinadores lidam de forma diferente com a arbitragem e admitem que se pudessem tiravam um jogador à equipa do amigo que agora é rival.

São amigos da bola?

Rogério Sousa (R.S.): Somos amigos e o futebol é que nos trouxe essa amizade. Já nos conhecemos há alguns anos, mas foi através do mundo da bola.

E o mundo da bola nunca foi motivo para se desentenderem?

Vasco Almeida (V.A.): Não. Vamo-nos encontrar (jornada 4) e não é por causa disso que nos vamos zangar. Conheci o Rogério no futebol, através de amigos ligados, também, ao futebol. Desde essa altura temos traçado uma amizade e tem corrido tudo bem. E não é este ano que vai deixar de correr [risos].

O Vasco treina o Castro Daire, que se estreia em campeonatos nacionais. Tem um longo currículo enquanto treinador, já esteve na Segunda Liga, como treinador-adjunto do Académico de Viseu. Pegando nessa experiência, quais são os maiores desafios que vê para o Castro Daire esta época?

V.A.: Já estive, realmente, na Segunda Liga, como adjunto, mas a carreira ainda não é assim tão longa. Os desafios são os naturais de um clube que vai participar pela primeira vez neste campeonato. Há uma série de adaptações que tiveram de ser feitas. Quer por parte de nós, enquanto intervenientes do jogo, quer por parte da estrutura diretiva e do clube em si. É um nível de exigência muito grande, mas creio que nos temos preparado e que toda a gente está consciente de que tem de enfrentar todos esses problemas e grau de exigência. O clube também tem dado passos importantes para puder estar apto nesta primeira jornada e durante o campeonato.

Para o Rogério esta vai ser a quarta época consecutiva à frente do Lusitano de Vildemoinhos. Perguntava-lhe que conselho daria ao Vasco.

R.S.:O Vasco não precisa de conselhos. É um treinador competente e já deu provas disso. O Castro Daire também é um clube que está a ser bem gerido. Não há grandes conselhos a dar. Cada equipa tem a sua especificidade e eles, melhor que eu e que ninguém, sabem como tratar as coisas.

Que jogador admiram mais na equipa um do outro? Isto é, se o Rogério pudesse treinar algum jogador que o Vasco tem à sua disposição e vice-versa...

R.S: O Vasco tem uma excelente equipa. Aliás, eu tentei contratar alguns que não consegui [risos]. Mas... eu estou satisfeito com a minha equipa e o Vasco certamente que também está com a dele. Em relação a jogadores... nós queremos uns, outras vezes queremos outros, conseguimos uns, não conseguimos outros, faz parte do futebol. Há poucos jogadores de qualidade para esta divisão porque os subsídios que temos para oferecer são poucos. Quem tem qualidade é natural que as equipas batam à porta dos mesmos. Por isso, o Vasco tem, certamente, jogadores que eu gostava de ter e eu tenho jogadores que ele também deveria gostar.

É verdade Vasco?

V.A.: Sim. Num mercado tão pequeno como este de Viseu é provável. Por vezes vamos tocar nos mesmos jogadores. O Lusitano é uma equipa com muita qualidade. Evidentemente que também gostava de contar com jogadores que o Rogério tem.

E os plantéis estão fechados?

V.A.: O Castro Daire, à partida, estará fechado. Só se aparecer algum negócio muito vantajoso para o clube. Mas já está fechado há três semanas.

R.S.: O meu não. Está aberto. Temos um plantel muito curto. Por isso, eu espero que não esteja fechado.

Isso assusta-o para o arranque do campeonato?

R.S.: Não. Temos que viver com isso. Nestas equipas que não são profissionais há sempre a dificuldade em contratar e em formar plantéis porque o dinheiro não abona. Felizmente, temos um plantel que nos dá garantias e que faz com que comecemos o campeonato numa boa forma.

Como é que se motivam jogadores não profissionais? Muitos deles trabalham de segunda a sexta-feira, ao fim do dia treinam três, quatro vezes por semana, e jogam ao fim de semana...

V.A.: A partir do momento em que cada um assume um compromisso, seja por cinco, por dez, ou por nada, é uma questão de cumpri-lo. Se o pessoal está comprometido com aquilo que vai fazer, tem que assumir isso. Não é um processo fácil, poderá ser um handicap forte para equipas do nosso campeonato que não têm esses problemas porque são profissionais, mas em termos de motivação e compromisso cada um tem que assumir o seu.

R.S.: Nas nossas equipas conseguimos gerir bem isso. Não é problema porque os jogadores estão motivados para isso. O futebol é isto. Quem joga, fá-lo por prazer. Temos que gerir o esforço porque há jogadores com trabalhos muito físicos durante o dia. O grande handicap é termos de lutar ombro a ombro com equipas que são profissionais, em que os jogadores estão focados a 100 por cento. Na nossa série, na maioria das equipas é o que acontece. Connosco e com o Castro Daire não. Se os orçamentos já são muito diferentes, o ser ou não profissional ainda acentua mais as diferenças. As equipas que não são profissionais têm que trabalhar muito mais e com mais qualidade para ombrearem com as profissionais.

Qual o momento que não esquecem no mundo do futebol, enquanto jogadores ou treinadores?

R.S.: Enquanto jogador, as subidas de divisão são sempre marcantes. Enquanto treinador, felizmente, também já tive alguns sucessos e, nomeadamente, no Lusitano. Quando passamos fases que, à partida não seriam para passar, é uma alegria imensa, é chegar ao fim com a sensação de missão cumprida.

V.A.: Eu como jogador tenho poucos. Não consegui empurrar muito a carreira de jogador [risos]. Enquanto treinador, as questões das subidas são sempre importantes. São marcos para nós e que ficam, também, no nosso currículo. Já tive a oportunidade de subir três equipas. Mais recentemente, se calhar no Lamego, pela forma como decorreu o campeonato, é um marco grande na minha carreira.

Como é que lidam com a arbitragem? Sentem que estão mais calmos com o passar do tempo ou pelo contrário?

R.S.: Eu lido bem. A arbitragem tem que fazer o trabalho deles e eu tenho que fazer o meu. Nunca fui expulso. Como jogador fui, mas era por dar umas porradas, não por discutir [risos]. Às vezes é difícil controlar-nos, mas tento manter-me sereno, porque também acho que não adianta muito estarmos sempre a manifestar-nos contra o árbitro.

V.A.: Eu já fui expulso algumas vezes. Com a experiência vamos ficando mais calmos e a minha opinião é a mesma. Os árbitros estão lá para fazerem o trabalho deles. Muitas vezes erram, mas nós também e há que saber dar esse pequeno desconto. O jogo também é de emoções, às vezes podemos reagir menos bem. Com o acumular de jogos e situações que vamos vivendo, vamos tendo mais calma. Convém que estejamos calmos no banco e que o banco transmita alguma tranquilidade para quem está lá dentro. Também da parte dos jogadores não quero que reajam contra o árbitro.

Não desvalorizando nenhum jogador que treinam atualmente ou que já treinaram, conseguem identificar o mais talentoso?

R.S.: É difícil. Felizmente, já treinei alguns jogadores que acho que têm capacidade para ir mais longe no futebol português, para chegar a uma Primeira Liga. Estou a lembrar-me porque foi recente o caso do Kiko (Bondoso) e do Nuno (Rodrigues). Têm potencial para lá chegar. Só falta um empurrãozinho, não serem do interior e, se calhar, terem um empresário. O talento está lá. Se conseguissem chegar a um outro patamar, iam conseguir afirmar-se.

V.A.: Há sempre preferências ou que acha que, por determinado motivo, que tem um valor mais acrescentado que outros. Não é que se trate de ser injusto, mas é difícil escolher um. Depende dos olhos com que se veem as coisas. Há jogadores que treinamos que sentimos, claramente, que podiam chegar mais longe, mas por um ou outro motivo não conseguem. 

O Vasco já admitou que o facto de ser natural de Castro Daire a responsabilidade não é maior à frente do clube... mas quais são os objetivos da equipa para esta época? O que é que a direção lhe pediu?

V.A.: O meu trabalho é feito seja em Castro Daire, seja em Resende, seja em Lamego, seja onde for. A única diferença é poder encontrar mais adeptos na rua. O objetivo do Castro Daire é manter-se nesta divisão. Não é fácil, mas vamos persegui-lo enquanto pudermos. Estou em crer que temos hipóteses, senão então nem sequer entrávamos em jogo.

E o do Lusitano é o mesmo ou mais alto?

R.S.: Não. Analisando a série em que estamos inseridos (Série B), as ambições do Lusitano não podem ser muito maiores do que lutar pela manutenção. Se analisarmos friamente orçamentos e condições, as possibilidades do Castro Daire e do Lusitano, em lutar por algo mais que a manutenção, são extremamente difíceis. Para constituir o plantel são precisos apoios, é tudo uma questão de orçamentos, de apoios e de espaços para treinar ou não. A dificuldade do Lusitano em ter espaços para treinar é imensa. Acho que a autarquia e as entidades deviam apoiar muito mais as equipas do concelho. Mas tenho a certeza que vamos ser uma equipa competitiva, tal como temos sido até aqui. Mesmo com dificuldades.

Os apoios por parte da autarquia são uma luta antiga, mas, ultimamente, mais acesa. Sente que a polémica entre o presidente do clube e a Câmara Municipal de Viseu afetou de alguma forma o plantel?

R.S.: Eu, pelo menos, tento que não afete. É uma coisa que não me diz respeito nem ao plantel. Sinceramente não estou por dentro, nem quero estar. Não me compete analisar ou falar. A minha missão, neste caso, é gerir esta situação, tentando tranquilizar a equipa e as coisas vão se resolver.

Se o presidente sair, vai ser uma grande perda para o clube?

R.S.: Eu acho que o presidente não vai sair.

Ou, pelo menos, espera isso...

R.S.: Claro. O trajeto do Lusitano está intrinsecamente ligado ao presidente. Tem feito um trabalho extraordinário e, por isso, espero que as coisas se resolvam rapidamente. E estou convencido disso mesmo.

Qual é o estádio onde esperam sentir mais dificuldades?

(Vasco para Rogério: Já lá andaste em todos [risos]).

R.S.: Há muitos estádios complicados. Na zona norte temos muitos campos difíceis, mesmo nas equipas que não lutam pelos primeiros lugares. Em Castro Daire também acho que vou ter muitas dificuldades devido a esta proximidade [risos]. Nós somos amigos. O Vasco tem jogadores que são meus amigos, eu tenho jogadores que são amigos do Vasco, eu sou amigo da direção de lá e o Vasco da de cá. Não existe rivalidade, mas a proximidade traz alguma picardia, por isso sabemos que vamos ter dificuldades com o Castro Daire, tanto em casa como fora.

Sente o mesmo o Vasco?

V.A.: Poderá surgir alguma animosidade por parte das bancadas. Será um jogo mais pressionado, com alguma picardia, porque nos conhecemos todos. Em relação a outros estádios, fala-se muito em Lourosa e em Espinho, que neste momento está a jogar em Fiães, mas são tradicionalmente difíceis os campos da zona norte. Pela pressão que põem, pelo público, pela capacidade que as equipas vão pondo no jogo e pela garra que demonstram. Toda a gente vai querer fazer do fator casa determinante, por isso os jogos fora vão ser todos muito complicados.

O primeiro encontro entre as duas equipas vai ser em Castro Daire, à jornada quatro. O que é que se pode esperar das vossas equipas?

V.A.: Até lá ainda há muito jogo, mas da parte do Castro Daire podem esperar uma equipa que vai querer, naturalmente, ganhar o jogo, sabendo que vai ser extremamente difícil, contra uma excelente equipa. Mas vamos querer ganhá-lo e levar de vencida o Lusitano para que o Rogério saia um bocadinho mais triste de Castro Daire [risos].

Mas o Lusitano não vai facilitar...

R.S.: Logicamente que não [risos]. Cada um tem a sua missão, que é lutar pelo melhor resultado em todos os jogos. Vamos querer ganhar, tanto fora como em casa, como todos os outros. Cada jogo é para ganhar e quando chegar a jornada quatro estaremos de lados opostos com o mesmo pensamento, a vitória.

Em jeito de antevisão, começam os dois a jogar em casa. O Lusitano recebe o Vila Real, que está esta época de regresso aos campeonatos nacionais. O que é que espera deste encontro?

R.S.: Dificuldades. Muitas. Não temos um conhecimento profundo da equipa do Vial Real, mas espero dificuldades até porque a minha pré-época foi um bocadinho atípica. Quando se programa uma pré-época para um plantel de 20, 22, 23 e depois treina-se e joga-se com 10, 12... Tem que se recorrer a miúdos que não fazem parte do plantel para conseguir ter 11... torna-se bastante difícil trabalhar essa equipa. E seja qual for o adversário, não existem jogos fáceis. Esta divisão é extremamente competitiva.

O Castro Daire recebe o Leça...

V.A.: Sim, uma equipa que já no ano passado se manteve nesta divisão. Fez várias contratações boas que lhe dá grande qualidade e, como em todos os jogos, vão ser disputados palmo a palmo. Pode haver um ou outro mais desequilibrado, mas creio que isso não vai ser regra. Estamos à espera de muitas dificuldades, mas queremos fazer do fator casa uma coisa importante e preponderante. Espero apresentar um conjunto de argumentos que nos seja favorável e que nos permita ganhar os três pontos. Era importante para nós ganhar o primeiro jogo, como estreantes, para nos dar algum conforto na abordagem do campeonato. Se não conseguirmos faltam muitas jornadas para o fim e suficientes para o Castro Daire fazer o número de pontos para se manter nesta divisão.





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