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"Com a lágrima no olho, despedi-me das pessoas porque senti-me um filho da terra"

Edição de 7 de junho de 2019
 

Entrevista a Pepa

Programa completo


07-06-2019
 

Pepa terminou um ciclo no Tondela. O treinador “das manutenções” diz que o futuro pode passar por estagiar no estrangeiro, embora admita que gostasse de continuar a lutar na Primeira Liga portuguesa. Sobre a equipa que deixou, sublinha que a próxima época já não vai ter a espinha dorsal que “criou” o Tondela e que uma nova fase se abre. Já do presidente do clube, Gilberto Coimbra, diz que é um homem que até convence um morto de que está vivo.

Há um ano, ao Jornal do Centro, disse que estava com expetativas para ficar num clube que iria ter uma equipa B e uma SAD. Houve coisas que não se verificaram, nomeadamente os Sub-23. Sentiu-se desiludido? Pensou em sair?

Esperava outra coisas que não proporcionaram. Idealizava uma equipa B porque sabíamos que iríamos potenciar vários jogadores. Foi pena não termos tido essa situação, entre outras que pensávamos que iríamos ter...

Por exemplo?

Físicas e, mesmo, em termos financeiros para ter outro tipo de argumentos, ferramentas de trabalho. Mas a opção do presidente do Clube Desportivo do Tondela não avançar com isso na altura foi a correta. A SAD só entrou em novembro e o presidente optou por meter na gaveta esses projetos e bem porque iriam disparar os orçamentos. Foi a decisão mais ponderada para não estar a correr riscos com tudo e com todos. O Tondela é um clube cumpridor que nunca falhou com nada. Espero que agora possam avançar com esses projetos.

E que expetativas foram criadas com a entrada da SAD?

A SAD entrou a meio [da época], estar a alterar grandes coisas não é benéfico. Pouco ou nada alterou... o que alterou foi, talvez, sentir-se mais a falta de Gilberto Coimbra (presidente). Estas transições nunca são fáceis.

A SAD já está há sete meses. Não deveria ter trabalho já demonstrado?

Eu acho que eles optaram por deixar as coisas rolarem com as pessoas que lá estavam. Acredito que na próxima época vão existir mudanças mais a fundo.

E que mudanças terão de ser essas? Se lá estivesse o que iria exigir?

Estão identificadas. O meu relatório final está terminado e nele estão várias coisas que só são partilhadas com eles. Há várias coisas que sabem que podem dar o passo seguinte... e acredito que vai ser dado.

Mais condições aos jogadores e equipa técnica? Que mudanças?

Sim. Isto não é uma crítica destrutiva, é construtiva. Há pouco tempo fiz uma viagem no tempo... saí do Tondela como adjunto do Filipe Moreira, na época 2010/11. O Tondela não subiu à Segunda liga por um ponto. A verdade é que estive no Benfica, depois dois anos na Sanjoanense, Feirense, Moreirense e volto, entretanto, a Tondela com a equipa na Primeira Liga. Isto quer dizer que houve uma subida rápida e essa subida foi com a mesma estrutura que estava na Segunda B e essas pessoas são competentes. O que é preciso é mais pessoas para ajudar no trabalho diário porque as exigências são maiores.

Essas exigências são fundamentais para o Tondela se manter na Primeira Liga?

Tondela tem tudo para fazer mais épocas ao nível da época 2017/18.

Sentiu que a SAD esteve ausente? Foi isso que provocou alguma irregularidade na equipa?

A irregularidade é responsabilidade minha e dos jogadores. A ausência... eles vinham no dia do jogo ou dos estágios, vinha um ou vinha outro... nós não estávamos habituados a isso.

Mas quando estavam presentes davam algumas indicações, faziam exigências nomeadamente na equipa?

Não, deixaram as coisas rolar.

Então como se justifica a irregularidade?

Tem a ver com o trabalho, com a mentalidade da equipa. A incapacidade de manter os níveis de concentração, de rigor, de agressividade, de motivação, de disponibilidade. São situações que, infelizmente, acontecem e connosco aconteceram muitas vezes...

E porque aconteceram tantas vezes?

Se eu soubesse não tinham acontecido.

Ao longo da época, foi dito que o Tondela só jogava bem contra os grandes e perdeu pontos escusados...

Se houvesse uma explicação não tinha acontecido, volto a dizer. Já apontei vários factores: a concentração, a motivação.... Não consegui resolver esse problema. Desde o início que disse que a responsabilidade era minha, equipa técnica, e jogadores. Já analisei treinos, palestras... aquilo que passámos aos jogadores não foi diferente das equipas grandes ou mais pequenas.

No final do jogo da manutenção (Tondela/Chaves), alguns jogadores disseram que a vitória não era de todos. É porque havia esse desconsolo dentro do balneário?

Foi um desabafo a quente de quem sente muito o clube, provavelmente até direcionado a dois, três colegas que não sentiam o clube como eles gostavam. O jogador português sente muito essas coisas.

Quando Gilberto Coimbra sair como vai ficar o clube?

Na minha opinião, o presidente faz muita falta ao clube. Há o treinador que manda na equipa e o presidente manda no clube e essa voz falta... O Gilberto Coimbra afastou-se um bocadinho para dar espaço a quem entrou. O presidente é uma pessoa carismática, é aquela pessoa que consegue convencer um morto que está vivo.
O Tondela está num ciclo novo. Treinador, diretor desportivo... vai ser uma mudança muito grande. Cláudio Ramos não sei se continua e é uma peça fundamental naquele balneário, Tomané também...

São jogadores que precisam de sair e ter voos mais altos?

Eles é que sabem. Têm qualidade para isso e a vida de futebolista é curta. E o ano passado as palavras que eu utilizei com eles para acreditarem que era possível foi mostrar-lhes os pontos que fizemos, o trabalho que fizemos … O meu objetivo foi o Tomané fazer uma época melhor e fez e o Cláudio chegar à Seleção Nacional e chegou. Sinto-me super realizado, contente por ter contribuído, por muito pouco que seja, para isso. Mas sim, está na altura de saírem. É legítimo.

Quantas vezes o Pepa quis ir embora?

No ano passado não pensei, tanto mais que renovei logo dois dias depois de terminar o campeonato. Houve vários fatores que me fizeram ficar. A espinha dorsal da equipa manter-se, a tal entrada da SAD que iria criar a equipa Sub-23 e dar outras condições como, por exemplo, os GPS para os jogadores. Éramos a única equipa que não tinha e ajuda muito para o controlo de treino. Depois, em termos pessoais, poder estar também mais perto de Coimbra que na altura era necessário. Foram todas razões para ficar mais uma época.

Mas não deitou nenhuma vez a toalha ao chão já no decorrer desta época?

Houve só ali uma vez, um episódio com a saída do Hélder Tavares. Eu não queria que ele saísse. Ele pode ter os pés meios tortos, mas tem uma alma incrível e ajudou-me. Era aquele que despertava quem estava a dormir, quem ajudava nos treinos, nos jogos, metia o pé na chapa. Depois da saída do Hélder houve ali um conflito de opiniões e tive vontade de bater a porta por causa de alguma saturação...

E como foi convencido a ficar?

Pelos jogadores, não que o tivessem pedido, mas foi por eles. Nós estávamos numa fase de cinco vitórias seguidas, e há quem diga que se deve aproveitar esses momentos para sair pela porta grande. Eu não penso assim. Se me sinto desmotivado por isto ou por aquilo ou se não há paixão para, então mais vale sair. Mas, a verdade, é que a motivação e a paixão continuavam lá... olhei para os jogadores e já passámos tanto juntos... agarrei-me a isso.

Foi aliciado por outras equipas?

Houve duas. Uma em Portugal e outra no estrangeiro. E a resposta foi igual para as duas. Só consigo estar a 100 por cento num lado. Como posso planear uma época com uma equipa e estar focado numa luta pela manutenção por outra? Não conseguia fazer isso. É uma incapacidade que tenho...

E agora saiu por sua opção ou teve sinais da SAD para ir embora?

Eu acho que foi tudo. É um fim de ciclo. Da minha parte também já não estou a ver o plantel com aquele núcleo que tanto me fez ficar... o Joãozinho, o David Bruno, o Ricardo Costa...O Tomané e o Cláudio Ramos não sabemos... o Hélder Tavares foi embora... Ou seja, há ali uma espinha dorsal que se perdeu. O Carlos Carneiro (diretor desportivo) também saiu, mais tarde o Gilberto Coimbra vai afastar-se.

Então o que vai ser o Tondela da próxima época?

Vai ser competente e vai conseguir a manutenção.

Que treinador era bom para a equipa?

Não faço a mínima ideia. Alguém que, com as ferramentas que tiver, faça um bom trabalho.

Sentiu que a cidade e os adeptos estiveram ligados com o clube?

Sim, sempre a 100 por cento. Podem não ser tão fervorosos, mas é uma forma de estar. Senti muito apoio, tanto é que eu fiquei dois dias de propósito para ir visitar quatro ou cinco capelinhas para me despedir. Com a lágrima no olho despedi-me das pessoas porque senti-me um filho da terra.

Mas houve ali jogos em que os adeptos exigiram mais da equipa e até lançaram críticas a jogadores...

Quem são cinco adeptos ao pé de 500 ou mil? Não é nada. Agora custa, nós a jogar contra o Setúbal, com menos um, a dar a vida, a ter um penálti escandaloso que não foi marcado e estão-nos a agradecer o esforço que tivemos e há um ou dois que manda uma boca foleira. Quem é que não reage?

Quais foram as estrelinhas do jogo com o Chaves?

O Hélder Tavares foi uma delas. Ele apareceu de surpresa no balneário. Outra foi porque nós fizemos a nossa rotina normal e não colocámos mais pressão num jogo que é de loucos, num jogo que é para tocar o céu. A outra foi uma semana de treinos com muita finalização, a exibição de um vídeo motivacional com muito golo nosso e discurso que, por muito ansiosos que estivéssemos, tentou passar uma mensagem de tranquilidade. Mas, sempre com o discurso de ganhar, ganhar, ganhar... não podíamos ficar só pelo X (empate) e fomos para dentro do campo só com um resultado para nos salvar a pele e a do clube e da cidade e de tanta gente. Foi ir para cima deles e atropelá-los...

Tondela sofreu muito com as arbitragens?

Sim, sofreu. Quero acreditar, e acredito, que são erros normais. Tivemos foi o azar de terem sido em cinco jogos seguidos. Quando estávamos ali para disparar para perto do Belenenses e do Santa Clara parece que de repente nos meteram o pé na cabeça e nos puxaram para baixo... quero acreditar que são erros normais que acontecem.

O Pepa ainda fala muito “nós Tondela”. Mas já não está lá. Qual vai ser o futuro?

Agora é estar com a família, com as minhas filhotas e ir de férias...

E depois? Vai ter de fazer alguma coisa?

(risos) Convém...

Alguns contactos?

Formal, concreto não. Só sondagens e isso vale o que vale.

E gostava de ir para onde?

Onde for desejado e me dêem condições para trabalhar.

Quer começar um novo ciclo onde?

Gostava de trabalhar em Portugal, na Primeira Liga, lutar por títulos. O que tiver de acontecer acontece. É uma fase de ter paciência. Por muito que eu gostasse estar a trabalhar já com um diretor desportivo ou a ver jogadores... olhe, não surgiu, não apareceu mas há tempo para aparecer um bom projeto. Das duas uma: ou entro num que sinta que me desejam muito para trabalhar, quer em Portugal quer no estrangeiro; ou não entrando em lado nenhum é ir estagiar para o estrangeiro. Temos tantos treinadores lá fora.

E propostas para a Segunda Liga?

Já tive e, neste momento, há gestões que têm de ser bem feitas. Não é estar a menosprezar nada, mas não é o que eu quero para mim agora. O que ambiciono em Portugal é lutar por títulos e há clubes, tirando os três chamados grandes, que podem ter essas ambições, mas, como têm treinadores, se calhar tenho de tirar o cavalinho da chuva e, portanto, cada vez ganha mais força ir para Inglaterra ou Grécia, pronto, já disse para onde vou (risos). Um passo de cada vez. As coisas têm estado a correr tão bem.

Ao longo da sua carreira desportiva como jogador e treinador, o que o marcou mais?

Como jogador ter sido Campeão Europeu e ter estreado pelo Benfica logo a marcar, isto numa altura em que a aposta na formação não era tão grande como agora. Negativas foi ter deixado de jogar por causa das lesões.
Como treinador, até agora é só coisas positivas. A primeira foi na Sanjoanense porque foi a primeira equipa sénior que treinei e foi um grupo de loucos que encontrei, que tinha uma alma enorme. Daí foi o Feirense e nunca pensava que subíssemos logo de divisão no primeiro ano. Depois veio a hipótese do Moreirense, onde não tiveram paciência comigo, mas o grupo era fantástico. E agora as manutenções do Tondela, que são incríveis.

Foi uma decisão difícil deixar de jogar?

Mexeu com tudo. Eu não sabia fazer mais nada, nem cozinhar... era só bola, bola, bola, de manhã à noite. Para mim, era a profissão mais bonita do mundo eu fazia o que mais gostava e ainda por cima me pagavam. Depois, com as lesões, complicou tudo, também com filhas para sustentar. Foi muito difícil, mas reagi rápido. Mais do que a queda foi a forma como me levantei. Se não sabia fazer nada, passei a saber. Tirei o 12.º ano, entrei na universidade, mas não tinha dinheiro para continuar, mas está lá a inscrição... olhe, fui crescendo. Depois, não deu como jogador virei para treinador e meti uma coisa na cabeça. Tinha de ser melhor treinador do que jogador..

E é?

Isso já sou e quero muito mais ainda.

Na altura em que deixou de ser jogador, o que o ajudou a ultrapassar a travessia no deserto?

A Joana, a minha mulher, que esteve sempre lá para tudo. As minhas filhas, com a alegria delas, a minha mãe e o meu pai que é um malandreco. Tenho o saber estar que me foram passados pela minha família e isso tem-me acompanhado.
Comecei como treinador na Sanjoanense (Distrital). Comecei abaixo da cave e sem elevador... obrigou-me a não tremer, a ver os jogos de vida ou de morte com naturalidade. Este espírito, esta naturalidade é meu. De treino toda a gente percebe, mais estratégia ou menos estratégia... mas quanto mais naturais formos melhor e acho que isso tem feito a diferença. E a espinha dorsal são os valores. Sou o que sou e não tenho cá capas.

Que modelo de treinador tem?

Há treinadores com os quais gosto de aprender. Paulo Fonseca, Paulo Sérgio, que foi meu treinador. Não vale a pena falar no Mourinho, claro. O Simeone (Atlético de Madrid) gostava de saber o que ele faz para ficar ali tanto ano, aquilo é um caso de estudo. Gostava de ir lá uma semaninha ou duas para ver como se faz...

De Panuci a Coluna

O Jornal do Centro lançou o desafio a Pepa para criar a sua equipa de sonho. O treinador diz que não precisaria de jogar porque com a qualidade dos jogadores até o adversário desistia do jogo

Guarda-redes: Buffon

Centrais: Marezi e Beckenbauer

Esquerda: Maldini

Direita: Panuci

A partir daqui é tudo para a frente: Pelé, Eusébio e Maradona, Cristiano Ronaldo e Messi

Para segurar isto tudo: Redondo ou Coluna

Diretor desportivo: Carlos Carneiro

Treinador adjunto: Não é preciso com esta equipa

E ainda faltam os figos e os ruis costas....





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