A OUVIR 98.9 FM
           00:00:00 | 00:00:00        
      
  
 
        

"Deixa-me triste que quem mais nos devia apoiar às vezes se distraia"

Edição de 10 de maio de 2019
11-05-2019
 

Ganhou muito no Benfica e no Sporting, mas é no Viseu 2001 que vai continuar. Depois de assegurar a subida à Primeira Divisão e confirmar a permanência no principal escalão do futsal português, Paulo Fernandes olha para o futuro com otimismo. O treinador aborda as polémicas do passado, critica a falta de apoios e projeta um clube focado na formação.

Vai para a quarta época à frente do Viseu 2001. Porque é que aceitou renovar contrato?

Pelo projeto, pelas pessoas e pela cidade. Estão reunidas condições para que o clube possa fazer uma época mais tranquila do que aquela que terminou agora. O objetivo é estabilizar o clube na Primeira Divisão.

No rescaldo da vitória frente ao Belenenses, que garantiu a manutenção, Pedro Almeida, presidente do Viseu 2001, disse que iam chegar propostas ao Paulo Fernandes, financeiramente mais vantajosas para si. Chegaram?

Claro que sim e nunca escondi isso. No período mais conturbado da época, a direção depositou toda a confiança em mim e propôs-me logo a renovação. Mas eu queria focar-me na manutenção e apontei toda a minha energia para a equipa e, só depois, se falou na renovação.

Ainda nesse jogo, o Paulo assumiu que o plantel do Viseu 2001 era, por um lado, o mais curto e, por outro, o mais barato. Pelo meio houve uma volta do campeonato sem vitórias. Nunca pensou desistir?

Nunca. Pela educação que tive, é nas dificuldades e na contrariedade que se vê o caráter. Sempre fui assim. Mesmo tendo propostas melhores, se por acaso o Viseu 2001 descesse eu ia continuar para recolocar o clube na Primeira Divisão.

Não teve receio de que uma época negativa pusesse em causa a sua carreira, em que já conquistou quatro campeonatos e três Taças de Portugal?

Não, isso faz parte do passado. À oitava jornada, o Viseu 2001 estava em quinto lugar, com os mesmos pontos do quarto classificado. Acima de nós só estava o Elétrico, o Modicus, Sporting e Benfica.

O que é que aconteceu depois disso?

É fácil de explicar. Não tivemos a estabilidade emocional para continuarmos a ganhar e, por outro lado, não é apenas falta de experiência, mas também tínhamos um plantel curto e houve contratações falhadas.

O Viseu 2001 anunciou recentemente a contratação de um atleta lesionado. Isto não pode fazer duvidar os adeptos da tal promessa de uma época mais tranquila?

Estamos a falar de um atleta que já foi internacional e que tem muita experiência de Primeira Divisão. Sei também que, depois de ser observado por um especialista, estão reunidas as condições para que, em setembro, possa começar a representar o clube.

Quando se fala em tranquilidade, não é apenas desportivamente. Houve um conflito permanente entre o clube e a autarquia de Viseu, que envolveu alegados compromissos financeiros por cumprir. Como é que o Paulo conseguiu focar a equipa com este ambiente?

Foram os próprios atletas que quiseram baixar o salário que estava acordado para mostrar às pessoas que não é o dinheiro que nos faz estar aqui, mas sim a ambição e o querer elevar o nome do Viseu 2001.

Mas da parte da direção o que transpareceu foi que era preciso mais dinheiro...

Quando este cenário surgiu só havia duas situações: ou os atletas baixavam os salários que já estavam acordados e assinados ou o Viseu 2001 acabava com a equipa sénior de futsal e, por arrasto, a modalidade no clube. Ao contrário do que se possa pensar, esteve mesmo em cima da mesa o fim da equipa. Garanto isso. Todos nós tivemos de baixar salários, a direção da modalidade foi super transparente com a equipa técnica e com os jogadores. E mesmo assim ninguém virou a cara à luta.

Disse muitas vezes que a cidade merece estes atletas do Viseu 2001. Acha que a autarquia trata o clube de forma diferente?

Tenho a minha opinião, não a quero dar, prefiro não ir por aí. Quero apenas reforçar o que disse. Neste momento, em Viseu, infelizmente, não temos um clube no mais alto patamar, seja em que modalidade for, que possa trazer para a cidade aquilo que o Viseu 2001 conseguiu. Não é só trazer o Sporting ou o Benfica a jogar cá. Não será por acaso que o lema do clube que está gravado em todas as camisolas desde os mais novos aos seniores é “honrar Viseu”. O mais engraçado nisto é que poucos são os atletas naturais de Viseu. O que me deixa menos feliz é ver que toda a gente que nos pode reconhecer, às vezes parece que se distrae. Mas, com muito esforço, determinação e resiliência, acabamos por conseguir aquilo que foi sonhado pelos fundadores do clube. Felizmente vamos continuar com maiores ou menores apoios.

Ainda acha que não respondeu à pergunta?

Acho que já respondi.

Uma das cláusulas do seu contrato está na formação do Viseu 2001. A cidade pode tornar-se num modelo na arte de formar e levar cada vez mais atletas a sair para grandes clubes portugueses e europeus?

Acho que sim, há muita matéria prima. Continua a haver mais Fábios Cecílios, Andrés Coelhos, atletas nascidos no distrito. Neste momento, o Viseu 2001 pode orgulhar-se de ser o clube que mais atletas federados tem inscritos na Associação de Futebol de Viseu, no que diz respeito ao futsal. Vamos inscrever uma equipa sub23 só com jogadores da região. O principal objetivo é aproveitar todos os atletas que chegaram ao topo da formação dos clubes e dotá-los da possibilidade de subirem à Segunda Divisão. A ideia é alimentar a equipa sénior e dentro de quatro ou cinco anos termos só atletas oriundos do distrito de Viseu.

É sonhar muito alto acreditar-se que, só com formação, se pode discutir o título com Sporting ou Benfica?

É possível, mas é muito mais difícil. Neste momento, Sporting e Benfica estão num patamar que durante muito tempo mais nenhuma equipa lá poderá chegar. Não quer dizer que não aconteça, mas não é expectável.

Um clube como o Viseu 2001 poder vir a ganhar uma Primeira Divisão é semelhante a um grande do futebol português poder ganhar a Liga dos Campeões?

É mais fácil um clube português ganhar a Champions.

Que objetivos estão traçados para a próxima época? Playoff?

O objetivo principal é atingir a manutenção, mas de uma forma mais tranquila. Depois, mediante o que for acontecendo, vamos ter objetivos mais audazes. Não vale a pena dizer que vamos apontar as baterias para cima quando podemos nem sequer chegar ao patamar mais desejável.

O Paulo subiu o Viseu 2001 para a Primeira Divisão. Que lugar esta passagem por Viseu tem na sua carreira?

Tem um marco exatamente igual aos anteriores. Ser campeão no Benfica ou no Sporting é um dever, é o único objetivo. No caso do Viseu 2001, temos a noção de que vamos ficar nas páginas douradas do clube. Mais importante do que subir de divisão, para mim, foi termos sido campeões nacionais da Segunda Divisão. Eu costumo dizer que um clube é observado através da sua história, palmarés e número de sócios. Quanto maior a massa adepta, maior o clube. Esta pequena grandeza de ter sido campeão da Segunda Divisão faz surgir mais sócios e adeptos. A cidade já está conquistada e eu tive a maior prova no domingo de Páscoa. Uma data ligada à família e à religião e estavam mais de 700 pessoas a assistir ao jogo.

Teve pena que noutros jogos não tivessem estado tantas pessoas?

Num outro jogo decisivo, frente ao Rio Ave, tivemos mais de mil pessoas no pavilhão. Temos de agradecer às pessoas porque jogo após jogo, mesmo quando as coisas não estavam a correr bem, vi crianças de todos os escalões a trazerem pais e irmãos a pavilhão. E isto é que é a família do Viseu 2001. Não esperamos pelos jogos mais atrativos para trazer público.

No fim do jogo que confirmou a permanência do Viseu 2001, o Paulo Fernandes disse que Viseu merece os jogadores do clube. E Viseu merece-o?

Não me cabe a mim responder, mas há uma marca que vou deixar. Vesti esta camisola no dia que cheguei e, se tiver de trabalhar 24 horas em prol do clube, faço-o. Dou todo o meu saber e experiência a todos aqueles que eu sinta que me vejam com referência. No dia em que eu tiver de sair, abandono com o sentimento de dever cumprido porque fiz muito mais do que aquilo que me pediram. Este ano corri praticamente quase todos os escalões enquanto treinador. Outra pessoa não o faria e diria: “eu tenho um passado..”. O passado já foi. Terminado o jogo que confirmou a permanência, o clube na hora chamou um a um os atletas e pagou tudo e agradeceu o trabalho. Nessa noite, reuni-me com a direção e já estávamos a preparar o futuro. Cada vez festejo menos, se calhar já é da idade... Mudou o chip, no momento a seguir, já se está a pensar na próxima época.





  • 2002 - 2019 - Jornal do Centro é uma marca registada da Legenda Transparente, lda
  • Desenvolvido por: WLC.PT