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"Em Portugal, todos acham que percebem de futebol"

Edição de 12 de abril de 2019
13-04-2019
 

Ganhou tudo o que havia para ganhar. Jogou nos melhores estádios, encontrou os adversários mais fortes, triunfou em palcos nacionais e internacionais. Detentor de uma carreira ímpar, Vítor Baía, a antiga glória, confessa-se feliz por ser mais do que um jogador do Futebol Clube do Porto. Em entrevista ao Jornal do Centro, e depois de ter participado em Viseu numa iniciativa da APPACDM, refere qual foi o maior fracasso desportivo e elege o melhor jogador português de todos os tempos.

O Vítor Baía esteve na Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Viseu a assinalar o Dia da Atividade Física. O desporto pode ser uma ponte para ligar todos os cidadãos independentemente da sua condição?

Sem dúvida. O desporto tem uma força tremenda na passagem de valores e princípios importantíssimos para a educação dos jovens. Liga-se também às boas práticas e, por isso mesmo, temos de tratar muito bem o desporto e agarrar no que é bom, por exemplo, no futebol e transportar isso enquanto bons exemplos para uma juventude que precisa dessas referências positivas.

Por falar em referências, o Vítor é um modelo a seguir por muita gente. Sente o peso da responsabilidade de ser uma referência?

Eu vivo de uma forma natural com toda a notoriedade que consegui na minha carreira. Acima de tudo, destaco a responsabilidade social. São as boas ações que nos fazem crescer, mas temos de ter a consciência de que não podemos só fazer o bem para aparecer na televisão. Há que o fazer de forma genuína e séria e faço-o através da minha fundação, com um trabalho de que muito me orgulho.

Há jogadores de futebol que ultrapassam as barreiras dos clubes. O Vítor sente-se um desses atletas? E como é que se conquista esse estatuto de quase embaixador do futebol?

A minha história está aí, ligada diretamente ao Futebol Clube do Porto, o clube do meu coração. No entanto, não temos de, para atingir o êxito, nos descaracterizarmos e sermos pessoas completamente diferentes. Não é preciso ser mal educado, ter práticas reprováveis. Para atingir o sucesso basta estar focado naquilo que verdadeiramente queremos. Foi com esta postura que ganhei todo o respeito. O futebol tem sido muito mal tratado. Ultimamente temos lido e visto situações chocantes que nada abonam em favor da imagem do futebol. E isto acontece quando todos sabem que as equipas que ganham são as que têm melhores jogadores, treinadores e estruturas. Tudo o resto passa completamente ao lado.

O Vítor Baía sentiu também na pele a descredibilização de alguns dos títulos que ganhou. Sente-se exatamente o quê quando se lê que só se ganha através de estratagemas ilegais?

Dá vontade de rir. A história do Futebol Clube do Porto não é só nacional é, também, internacional, com conquistas muito importantes. Mas a cultura portuguesa é mesmo assim: quando não se consegue atingir os objetivos, as pessoas estão presas ao poder e aos lugares e não os querem largar. Para justificarem os erros e os fracassos desculpam-se sempre com os árbitros. É um erro tremendo fazer isso, mas o pior é que se acredita mesmo nisso. Nós sabemos o que custa ganhar, sabemos como é difícil ser campeão e como se fazem campeões. Tudo isto é feito dentro de campo, são os jogadores que decidem os jogos. O resto é ‘faitdivers’, para atirar areia para os olhos dos adeptos.

Não há emails nem telefonemas que apaguem um golo ou um sucesso desportivo...

O importante é a equipa ser forte, construir plantéis bons, com treinadores com qualidade e competentes. O resto não importa.

Os árbitros são hoje melhores?

Sim, e, neste momento, têm uma ferramenta importantíssima que é o vídeoárbitro (VAR). Vão continuar a existir erros porque quem analisa os momentos e os casos é o olho humano. Mas hoje não tem nada a ver com o que acontecia antes, porque no passado o árbitro tinha de decidir no momento e nem sempre dava para poder ver corretamente e analisar de forma mais minuciosa. Felizmente, que o VAR veio para ficar. Agora, como tudo aquilo que está no princípio vai evoluir e, com isso, a competição ganha mais seriedade.

O VAR é uma espécie de bebé a crescer que vai demorar muito a ser devidamente credibilizado?

Sim, vai, mas quando não há VAR as pessoas já sabem porque falta ali uma ajuda importantíssima para que o árbitro possa decidir. Quando não há, reclama-se. Quando ele atua, questiona-se a seriedade de quem está no papel de videoárbitro. Mas isso é cultura latina que não se vê em mais lado nenhum. Há sempre que atirar culpas.

Se percorrermos os programas de televisão sobre futebol são raros os que têm nos painéis antigos jogadores, Porque é que toda a gente fala de futebol em Portugal?

Pois (suspiro)... É um desporto universal e toda a gente pensa que percebe. O grande problema é todos pensarem que entendem de futebol e não têm nem ideia de como se prepara uma equipa ou uma estratégia para um jogo. As pessoas querem é saber se a bola entra ou não entra, se é ou não é falta. A culpa é das televisões portuguesas.

O Vítor jogou numa das melhores gerações do futebol português. Como é que está a ver a formação hoje, em Portugal?

Em crescendo, cada vez melhor e com melhores condições de trabalho. Os clubes estão muito bem organizados e a trabalhar muito bem. As seleções portuguesas também começam a ganhar grandes competições. É um trabalho extraordinário feito em conjunto pelos clubes e pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF). O caminho é este. A salvação do futebol português passará sempre pela formação. Portugal é um país formador e vendedor e é aqui que nos temos de concentrar.

Antes do Euro2004, o Vítor Baía tinha ganho já muitos troféus e acabou por não ser convocado por Scolari para o campeonato da Europa. Conseguiu já ultrapassar este momento?

Resolvi, porque não sou uma pessoa de rancores. Ficámos todos prejudicados, essa é a grande realidade. Já faz parte do passado, estive com Scolari numa das galas da FPF e abracei-o efusivamente. A vida continua.

Não sei se tem visto alguns jogos distritais. Como é que analisa o talento nestes escalões?

Não acompanho muito as fases distritais, estou mais por dentro do Campeonato de Portugal e está a ser feito um trabalho excelente. Vi, nessa divisão, jovens com muito talento. O que me dizem é que os olheiros devem assistir aos jogos das distritais porque ali estão jovens jogadores com muita qualidade.

Antes de ter ganho nome no futebol, que jogador o Vítor Baía sempre quis imitar?

Eu construí um estilo muito próprio, diferente do estilo de guarda-redes que existia na época. Tínhamos o Bento, o Fonseca e o Damas como as principais referências da minha juventude. Mas quem mais me marcou foi o Mlynarczy (antigo guarda-redes polaco e que também jogou pelo Porto), aprendi com ele. A minha personalidade ajudou-me a ter a capacidade de aguentar a pressão de jogar numa equipa com a grandeza do Futebol Clube do Porto.

A discussão é eterna e promete nunca terminar: quem é o melhor jogador português de todos os tempos?

É o Ronaldo. Acima de tudo temos o privilégio de ter três Bolas de Ouro: Eusébio, Figo e Ronaldo. Eu, infelizmente, não vi Eusébio jogar. Foi sempre uma pessoa que eu estimei bastante, a morte dele foi uma perda tremenda para todos nós. Tive o privilégio de jogar com o Luís Figo, um líder que atingiu um nível de excelência. Mas depois há alguém que não é deste mundo, que consegue ganhar o que ganhou, com a juventude que nos cativa, demonstrando uma extraordinária força de campeão. Para mim é o melhor jogador de todos os tempos.

Nem Messi o supera?

Nem Messi. Eu vi ainda Maradona jogar e, dos que vi, coloco-os aos três: Maradona, Messi e Ronaldo a nível superior, mas o Cristiano é realmente extraordinário.

Quem será campeão nacional este ano?

O Futebol Clube do Porto, apesar de não depender dele próprio. Pelo que tenho visto, principalmente a nível físico e mental, é a equipa que está melhor neste momento.

Pode ganhar a Liga dos Campeões?

Numa prova a eliminar tudo é possível e isso foi exatamente o que aconteceu connosco [em 2004]. Fomos passando obstáculos e, esta época, se conseguir ultrapassar o Liverpool é um sério candidato a ser campeão da Europa.

Portugal vai conseguir homenagear Pinto da Costa ou todos os casos desportivos e judiciais não vão deixar que isso aconteça?

Para mim é um dirigente extraordinário. É a pessoa mais importante da história do Futebol Clube do Porto. Soube construir equipas que, com ele, conseguiram êxitos muito importantes. É alguém muito inteligente e um líder nato e que merece o reconhecimento de todos porque tem feito uma obra a todos os níveis notável.

O Vítor ainda tem alguma coisa para concretizar no futuro?

Há sempre objetivos em mente para atingir. O sonho comanda a vida.





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