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Na edição impressa: O renascimento do "Benfica de Viseu"

Edição de 11 de outubro de 2019
13-10-2019
 

A história do Sport Viseu e Benfica escreve-se ao longo de 95 anos. No futebol distrital, o clube conviveu com grandes nomes e o Jornal do Centro foi falar com um deles. Se o identificarmos como Eduardo Álvaro, poucos o reconhecem, mas se falarmos do Eduardito, o nome remete logo para um dos jogadores de futebol mais conhecidos do distrito de Viseu.

Com uma carreira como jogador e treinador, Eduardo passou pelo Viseu e Benfica e pelo Académico de Viseu e o facto de só ter jogado nestes clubes deixa-o orgulhoso. O futebol dos anos 70 e 80, diz-nos, nada tem que ver com o que vemos hoje. "Era tudo mais genuíno. Vivia-se os clubes com mais paixão e entusiasmo. Sentíamos isso mesmo a seguir aos jogos nos cafés. Eu trabalhava na Rua Formosa, no centro de Viseu, e era constantemente abordado por adeptos que me queriam perguntar o que se passou no jogo", relembra, com nostalgia. Os jogos eram vividos com intensidade, refere.

Como nasceu junto à sede do Académico, Eduardito sempre assumiu uma paixão inicial pelo clube que hoje joga na Segunda Liga. Além de ter sido a primeira escolha do coração, o Académico de Viseu foi prioritário para iniciar a carreira. "Quis logo jogar lá, mas nesse ano não tiveram escalão de juvenis e é aí que vou para o Viseu e Benfica. Lá, na sede vi fotos que mostravam o clube na Segunda Divisão nacional, na década de 50", assinala.

Depois de passar nos "encarnados de Viseu" durante duas épocas, Eduardo sempre assumiu o sonho de jogar no Académico. "Era o clube da cidade. Fui junior e estive lá dez temporadas. De lá, volto para o Viseu e Benfica", recorda. Gostar de um clube e do outro sempre esteve claro até porque viveu bons momentos em ambos. "Em 1977/78, o Académico atinge pela primeira vez a Primeira Divisão nacional e fiz parte do plantel que consegue esse feito. Nesse ano já tinha dificuldades em treinar com os meus colegas, porque eles eram todos profissionais e, como trabalhava durante o dia, só treinava à noite e sozinho. Portanto, não fui o que se costuma chamar de titular indiscutível. Quando subimos propuseram-me ser profissional de futebol e, como tinha casado há um ano, os meus amigos fora do futebol disseram-me para não largar o emprego", lembra.

A entrada no Viseu e Benfica

Eduardo acabou por deixar o Académico naquela que foi a primeira época dourada do clube e aí surge aquele que se viria a tornar num outro amor: o Viseu e Benfica. "Quando achei que ia largar o futebol, aparece um clube que andava nos distritais e que tinha feito o primeiro ano de terceira divisão nacional com craques como o Simões, o Calado, o Malta da Silva e o Guerreiro. Até o Eusébio esteve para vir jogar para o Viseu e Benfica. Apostaram forte para subirem mais um escalão, até à Segunda Divisão. Então aproveitaram grande parte dos jogadores que, tal como eu, sairam do Académico", conta, assinalando que, a partir dessa altura, cresceu uma paixão muito forte pelo Viseu e Benfica.

Hoje, Eduardo diz sentir-se arrependido por não ter aceitado desafios que lhe foram feitos por clubes fora de Viseu. Com uma carreira feita nos dois rivais da cidade, reconhece que entre os adeptos de um e de outro clube sempre houve picardias. "Recordo-me que, houve um ano, em que Viseu e Benfica e Académico subiram à Segunda Divisão nacional. Havia adeptos ferrenhos, tudo vivido com um sentimento muito forte de entrega aos clubes, mas sempre dentro do respeito", refere, frisando que o Académico tinha mais adeptos.

O Viseu e Benfica, que nasceu em 1924, é a filial número três do Sport Lisboa e Benfica. Este facto podia ter levado o clube a ser mais popular, mas tal não aconteceu. "Ainda me faz confusão que, com tantos benfiquistas que há em Viseu, não agregue mais gente. Questiono-me sempre sobre isto em conversas com amigos. Estranho muito que também o próprio Benfica não apoie mais a sua terceira filial, não falamos de uma coisa qualquer", constata. Enquanto atleta, Eduardo não hesita quando lhe perguntam qual o jogador que mais o marcou. "O Cubillas, um jogador peruano, que jogou no Futebol Clube do Porto e que tinha uma técnica incrível", reforça.

A carreira de treinador que começa no Viseu e Benfica

Quando deixou os relvados enquanto jogador, Eduardo Álvaro assumiu, com 36 anos, um outro desafio: treinar. Estávamos no final da década de 80. A experiência não correu como esperava. "Pedi a demissão a meio do campeonato porque não aguentei a pressão. Hoje arrependo-me porque a equipa não estava a viver um mau momento e, depois de eu sair, acabou por descer de divisão.", assinala. A década de 90 e os primeiros anos da primeira década do novo milénio foram tempos difíceis para o Viseu e Benfica. O clube chegou a estar na terceira divisão distrital e, nos últimos anos, desistiu do futebol sénior. "Foi um passo decisivo para recuperar o Viseu e Benfica", assinala Eduardo Álvaro. Recentemente foi convidado pelo capitão Carlos Arede a treinar o clube, regressando mais de vinte anos depois da última passagem pela equipa. "O futebol hoje é muito diferente, sobretudo no treino. Agora joga-se com mais velocidade, mas no meu tempo havia jogadores muito bons que hoje jogavam facilmente neste futebol. Antigamente havia jogadores mais habilidosos, hoje há mais trabalho, começam a jogar desde muito novos", reforça Eduardo Álvaro. Uma vida ligada ao futebol que lhe reservou agora abraçar um novo desafio: treinar um dos clubes do coração. O Viseu e Benfica joga a Zona Sul da 1ª Divisão Nacional e ainda está na Taça de Sócios de Mérito. 95 anos de história de um clube que nasceu num café bem no centro da cidade de Viseu e que ocupa um lugar nas memórias dos amantes do futebol distrital.

"O futebol 'da árvore do dinheiro' acabou no distrito de Viseu"

Carlos Pinto lidera o Viseu e Benfica numa altura em que o clube retoma a atividade no futebol sérnior. A equipa volta com o objetivo de, dentro de alguns anos, subir aos campeonatos nacionais. Com a noção de que o futebol distrital não vive tempos fáceis, o presidente mostra-se confiante.

Porque é que o futebol sénior do Viseu e Benfica acabou, há dois anos?

É simples de explicar. Estou no meu segundo mandato e no quarto ano de presidência. As finanças do clube não estando más, não estavam bem. Tivemos a necessidade de reestruturar todo o departamento e clube para que, no futuro, o Viseu e Benfica seja aquilo que já foi. É um clube quase centenário, tem 95 anos, é cheio de história e tradição no distrito, com muitos títulos, não apenas no futebol.

Regressados, quais os objetivos desportivos para esta época que já começou?

O importante é voltarmos a dar história a este clube e organizarmo-nos para que, daqui a dois ou três anos, sejamos um clube forte para podermos atingir os patamares que o clube já atingiu, quiçá até os campeonatos nacionais. Com os pés bem assentes no chão, não sei se serei o presidente nessa altura, mas não haverá o objetivo de ter de ser já, sem pressão.

Consegue garantir aos sócios que, tão depressa, o Viseu e Benfica não abandona o futebol sénior?

Temos de garantir. Há que ser ambiciosos nesse aspeto. Quando interrompemos, sabíamos que, quando voltássemos, não poderíamos voltar atrás e é isso que não vamos fazer, pelo menos enquanto eu for presidente do clube. Quem anda no futebol distrital sabia que ia haver um grande retrocesso. O futebol "da árvore do dinheiro" acabou no nosso distrito.

Que balanço faz da sua presidência?

Muito positivo. Cresci a todos os níveis: pessoalmente, liderança, tudo. É evidente que nem sempre tudo corre bem, há dias em que passamos grandes dificuldades, com decisões para tomar e situações para resolver, mas é gratificante.

A rivalidade que o Viseu e Benfica teve com o Académico de Viseu é real?

Sim, existe e os clubes vivem disso. São dois clubes grandes numa cidade, logicamente que o Académico é o clube representativo do distrito.

Não é o Tondela?

Penso que não. Muito honestamente, com todo o respeito que tenho pelo Tondela, por tudo o que o clube tem feito pelo futebol distrital, acho que o Académico de Viseu é o Académico de Viseu.

Apesar de o Tondela já ter ultrapassado o Académico nas presenças na Primeira Divisão?

Sim, apesar disso. O Académico está adormecido, as pessoas deveriam acordar para o erguer. A cidade de Viseu merecia ter um clube na Primeira e não seria assim tão difícil.

Tem a noção de que é significativo ver o presidente do Viseu e Benfica puxar pelo Académico?

Não há problema. Sou um homem do desporto e do futebol, reconheço as coisas positivas e o que está mal.

É um homem de pontes?

Dou valor a toda a gente, ao Tondela, aos Viriatos, ao Viseu 2001, ao Lusitano... Comigo ninguém tem nenhum problema. Agora claro que defendo o Viseu e Benfica enquanto for presidente.





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