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"Não importa o género do atleta, quando o futebol é de qualidade"

26-07-2019
 

A nova embaixadora para a ética no desporto diz-se confiante de que, a breve prazo, a teoria passe à prática e haja mais civismo no meio desportivo. Francisca Martins que coordena também o futebol feminino do Lusitano de Vildemoinhos analisa o estado do futebol feminino, projeta o futuro e elege o jogador com o qual faria dupla, se o futebol se tornasse misto.

Como é que recebeu a distinção de embaixadora pelo Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED)?

Senti orgulho porque sinto que é, igualmente, o reconhecimento de algo que é praticado. Este título acaba por demonstrar verem em mim algo que se tenta passar no Plano Nacional de Ética. Consideraram que passo esses valores aos mais novos.

Esta distinção traz mais responsabilidade?

Sinceramente traz a mesma, o problema é sentir-se o contrário, isto é, por vezes sente-se essa responsabilidade após a atribuição de títulos e eu não vejo isso assim. Já temos essa responsabilidade enquanto treinadores e as distinções aparecem como consequência.

Onde é que a ética no desporto se verifica?

Podemos dizer que ética é um conjunto de comportamentos que definimos como corretos. Quando se foge a esses comportamentos, já dizemos que não é ético.

Partindo desse padrão de comportamentos, já demos passos largos para chegarmos a ele ou há muito caminho a percorrer?

Há um longo caminho ainda, embora as coisas estejam a evoluir.

As críticas da bancada é algo que não vamos conseguir mudar?

Não temos de aceitar isso. Ainda existe muito e é bem visível quando vemos um jogo de futebol, mas há outros bons exemplos que estão contra a violência. Por exemplo, Bruno Lage, treinador do Benfica, que abriu a conferência de imprensa a referir que este tipo de comportamentos tem de acabar, independentemente da cor clubística que for. É por aí que temos de ir.

E vai ser possível erradicar isso?

Nós trabalhamos para isso, principalmente nos escalões mais novos. Por vezes dizemos ao próprio atleta que ele poderá ser castigado pelos erros dos pais e o objetivo é tentar que a mensagem chegue aos intervenientes e sentimos evolução. Mas a verdade é que é incontrolável, por mais que não se goste, não nos cabe a nós mudar a atitude dos adeptos.

Do ponto de vista dos jogadores, não é certamente fácil ouvir, aceitar e seguir em frente...

Certo, mas o jogador ou jogadora quando entra em campo tem de se focar no jogo, não se pode distrair e ouvir ou pensar no que vem de fora. Tem de se concentrar naquilo que é a ação dentro do jogo. Costumo dizer às minhas jogadoras que se conseguem ouvir o que está a acontecer nas bancadas é porque não estão concentradas.

A Francisca está no futebol há muitos anos. Notou alguma evolução no futebol feminino em Portugal?

Muito grande e a todos os níveis. Começa pelo número de jogadoras, condições para jogar – embora ainda haja um longo caminho a percorrer, não tem mesmo nada a ver, nós trabalhávamos em campos pelados, por exemplo.

O futebol já condenou o racismo e a homofobia. No caso da discriminação pelo género, sente que as suas jogadoras são menos discriminadas do que a Francisca foi, quando jogou?

Sim. E deve-se ao aumento da qualidade. Quando o espetáculo traz qualidade não se olha para o género. No meu tempo, o jogo não era tão bom quanto é agora. O Mundial mais recente mostrou isso mesmo.

Vai ser possível equiparar o futebol masculino e feminino?

Sobretudo é preciso torná-los iguais nas condições. Dizem-me que o futebol masculino vende mais, que é um produto mais forte. Verdade. E eu pergunto: as condições são iguais? Quando dermos as mesmas condições, vamos colher outros frutos no futebol feminino.

Tem aumentado também o número de comentadoras de futebol. Deixa-a satisfeita?

Alegra-me tudo o que seja o reconhecimento da competência que existe no género feminino. A competência não se vê pelo género e, cada vez mais, vemos mulheres a assumir cargos que, há uns anos, era impensável. Vê-se na arbitragem, nos atletas, mas também como comentadoras. No entanto o mito de que o futebol é para homens ainda não se quebrou totalmente. Não é dada às mulheres a oportunidade de lhes mostrarem a competência que têm.

Terminamos a falar de futebol no masculino. Se só pudesse escolher um, quem elegia para treinar e jogar: Ronaldo ou Messi?

Claramente o Ronaldo, em ambas, porque é português. Nós temos de defender e valorizar. Pode ter os defeitos que tem, mas é um exemplo.





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