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“O doping poderá ser um problema a nível de saúde pública”

Edição de 30 de novembro de 2018
02-12-2018
 

Delmino Pereira é hoje o homem à frente da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC). O outrora ciclista deu uma entrevista ao Jornal do Centro, onde fala da atualidade da modalidade e do estado em que se encontra a luta contra o doping.

Como se encontra o ciclismo nos dias de hoje?

O ciclismo tem vindo a crescer e a afirmar-se. Fruto das nossas políticas, a modalidade abriu-se à sociedade e está disponível para todos. Hoje, temos uma política global do ciclismo e da bicicleta. Estamos numa sociedade que cada vez mais procura a prática desportiva e vê também na bicicleta a vertente da mobilidade. Por isso, a indústria do ramo desenvolveu-se. Hoje, felizmente, temos cada vez mais eventos e cada vez mais diversificados. Até para atletas portadores de deficiências. Realço ainda o notório aumento do número de filiados. Em 2012 tínhamos 12 mil, agora temos 18 mil membros. Mas há ainda outro fator que não deve ser esquecido.

Qual?

O ciclismo tem um compromisso com o território. Nós vamos a todo o país numa lógica de promoção territorial e cultural, através de provas como a Volta a Portugal. Este tipo de evento corresponde ao interesse turístico.

Viseu é escolha da volta. Porquê?

Viseu é uma cidade que esteve sempre ligada à volta a Portugal e que nos habituamos a ver. É um dos pontos altos da Volta passar em Viseu e, por isso, faz todo o sentido continuar. Existe uma grande relação de cumplicidade entre a Volta e a região de Viseu.

Cada vez há mais controlo, mas mesmo assim o doping continua a estar presente. Como lutam contra isso?

Essa é uma preocupação permanente. Temos uma política de tolerância zero ao doping e temos evoluído. A FPC e a agência mundial antidopagem têm evoluído a um nível interessante e estamos muito determinados na luta antidoping. Alargamos a nossa luta através de ações de sensibilização junto dos jovens para levarmos a ética desta modalidade aos mais novos. Temos, por isso, crescido em muitas áreas e estamos a conseguir ultrapassar uma situação delicada que nos tem prejudicado no passado, mas que eu espero que melhore a médio prazo.

Tem resultado até agora?

Sim, no congresso mundial da união ciclística internacional foram divulgados resultados da luta anti doping pela agência mundial anti dopagem e, digo orgulhosamente, que a nossa Federação é das melhores que existe na luta anti doping, o que mostra que o nosso trabalho é reconhecido a nível mundial. Por isso, é uma luta que queremos manter. A nossa aposta passa por educar as comunidades e as novas gerações e é aí que devemos começar.

Mas o doping continua a ser uma situação ligada ao ciclismo?

Estamos perante dois mundos distintos. Temos o mundo do alto rendimento com ciclistas profissionais. Nessa área o doping tem vindo a diminuir significativamente. A nível mais recreativo, temos feito alguns controlos e reparamos que a médio prazo, o doping poderá ser um problema, principalmente a nível de saúde pública. A maior parte dos casos são de pessoas que, por negligência ou descuido o fazem, e é algo que não compreendemos porque os atletas, nestas competições, não ganham absolutamente nada com isso. Por isso, o controlo de doping no ciclismo está bem a nível profissional. A nível recreativo, temos alguns casos. É um assunto difícil de resolver.

Recentemente, 11 atletas acusaram positivo no controlo de doping numa prova amadora. Um deles foi Rúben Almeida, que no período de espera pelos resultados venceu um campeonato. Como se encontra essa situação?

O Rúben é um corredor de elite e o processo dele está a decorrer com todo o cuidado mas ainda não houve nenhuma decisão. Neste momento, não podemos confirmar nada, mas esperamos tomar uma decisão em breve.

Caso se venha a confirmar, Rúben Almeida pode perder o campeonato? O viseense Tiago Ferreira ficou em segundo..

Eu ainda desconheço os contornos do inquérito disciplinar. Mas, caso se venha a confirmar, obviamente que o Rúben vai perder o campeonato. Contudo, é preciso que o inquérito decorra naturalmente. Neste momento, aquilo que precisamos de fazer é aguardar.

No futuro, e após este episódio, vão haver mudanças?

Há dois tipos de intervenções. Há a dos atletas profissionais que podem ser selecionados, para ir à Seleção Nacional, aos Jogos olímpicos etc. Nestes casos, a luta é prioritária e elevadíssima. No caso de eventos abertos é um assunto importante mas não é prioritário. É importante para sabermos o que se está a passar nesse meio e acompanhar o estado de saúde dos atletas. Agora, quero também dizer que no caso dos eventos abertos, desportos como o futebol e outras modalidades, essas práticas de dopagem também existem. Não é justo dizerem que isto é um problema do ciclismo quando na realidade é um problema da sociedade e que todos devemos combater.





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