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"O Lamego é um clube regional, um clube da cidade. Não é um clube de uma ou outra pessoa"

Edição de 2 de novembro de 2018
 
 

Entrevista de desporto com Miguel Gouveia

Programa completo


04-11-2018
 

Miguel Gouveia é o homem à frente de um clube que esteve na iminência de fechar. Hoje, com um novo rumo, o presidente, há dois anos, do Sporting Clube de Lamego fala das dívidas, a não subida de divisão e também das dificuldades dos clubes do interior.

Assumiram há dois anos a presidência do Lamego. Como é que se encontrava a equipa?

Encontrámos uma proposta financeira muito apertada. A proposta colocada na mesa era, inclusivé, a do encerramento deste clube e a criação de um novo. Entretanto, achámos que a história não deveria terminar assim. Ao fazer um clube novo voltávamos à distrital, começávamos do zero. Depois de uma avaliação, deparámo-nos com uma dívida que ascendia aos 130 mil euros. Desde aí temos negociado com várias instituições e vários órgãos e dia após dia vamos restruturando a dívida do clube.

Existiam salários em atraso?

Posso dizer que não tínhamos equipa. Tínhamos dívidas pendentes a funcionários e às equipas de futebol e futsal. Em 15 dias tivemos de resolver esse problema. Além disso, tivemos também apenas três semanas para resolver as dívidas à Associação de Futebol de Viseu (AFV) para podermos inscrever a nossa equipa. Foi uma corrida contra o tempo mas conseguimos dar a volta à situação e hoje estamos no caminho correto.

Ganharam tudo. Porque é que não subiram?

A anterior e a atual comissão administrativa entendeu que o caminho a seguir era da restruturação financeira. Hoje, o clube é perfeitamente gerível mas o problema está no equilíbrio orçamental. É essa a nossa principal dificuldade. Não podemos subir apenas por subir. A subida aos nacionais obriga ao aumento para o triplo as taxas de jogo, de policiamento e as viagens eram mais longas do que ir apenas a Viseu. No fundo, um conjunto de despesas logísticas que não são gratuitas. Começámos a olhar para o orçamento e só víamos contas de somar. Admito que tivemos várias propostas de investidores mas daqueles que não são bons.

Como assim?

São as chamadas SAD. Eu fui o primeiro a dizer que sou contra isso. O Lamego é um clube regional, um clube da cidade. Não é um clube de uma ou outra pessoa que iria passar ser o dono e a partir daí nós teríamos apenas um função logística das coisas.

Como é que se explica aos jogadores e restantes elementos que a equipa, mesmo tendo ganho tudo, não pode subir?

É complicado. Na altura estava apenas responsável pelo futebol e convoquei todos os jogadores e equipa técnica para lhes transmitir isso. Como é óbvio, custou-me imenso ver toda a frustração presente na cara de todos. Depois de terem feito o campeonato que fizeram e no fim serem informados que a equipa continuaria na mesma divisão é muito difícil de explicar. Foi muito duro mas necessário. Devido à falta de recursos, a restruturação financeira foi o mais importante.

A autarquia não se mostrou disponível?

As pessoas interpretaram mal isso. Eu disse que o tempo em que as autarquias apoiavam muito os clubes acabou. Mas é normal porque também as autarquias não estão tão disponíveis. A câmara mostrou as suas dificuldades e nós seguimos o nosso caminho. Mas realço que não há qualquer problema entre nós e o município.

Teve receio que acontecesse o mesmo que aconteceu ao Belenenses?

Exatamente. Mas não foi esse o único clube. O Estrela da Amadora também passou pelo mesmo, o Beira-Mar... entre outros. É a realidade que se vê. Ainda recentemente ouvi falar que o Guarda poderia ser comprado por um investidor. Se tudo correr bem, ótimo. Mas temos que perceber que ninguém investe dinheiro para perder, a não ser os patrocinadores. No que toca a empresários, todos investem para obter retornos financeiros. Agora, se corre mal, o clube pode acabar de um dia para o outro. Não queremos isso.

Na gala da AFV teceu um discurso crítico sobre as poucas equipas da região espalhadas nos diferentes campeonatos e divisões. Porquê?

Felizmente, nessa gala tive oportunidade de transmitir a realidade do futebol distrital do interior do país. Seja em Viseu, seja nos distritos aqui ao lado, penso que às vezes o futebol está a caminhar para o lado empresarial, ou seja, só se vive no litoral. E depois falam em desertificação do interior. Como querem que tal não aconteça quando os nossos jovens atletas não têm oportunidades? Até a própria Federação nos está a criar agora uma imposição.

Qual?

A certificação dos jogadores. As associações de futebol necessitam de ter todos os seus clubes certificados para conseguirem inscrever-se nas competições oficiais. E eu pergunto, com tanta despesa que nós já possuímos, e estamos, muitos de nós, de forma voluntária todos os dias, como é que vamos ainda ter de pagar a alguém que passe dias inteiros a preencher bases de dados? Não faz sentido.

Sentem, enquanto clube distrital, falta de apoio da Federação?

Vejamos. Em 2016/2017 fomos vencedores da taça de Sócios de Méritos da AFV, fomos finalistas da Supertaça da AFV. Na época 2017/2018 fomos campeões da divisão de Honra, fomos finalistas da Taça Sócios de Mérito e também a Supertaça. Contudo, a única coisa que recebemos em troca foram as despesas das deslocações. É certo que receber o troféu é importantíssimo, mas acho que à semelhança do que acontece nas taças de Portugal e da Liga, podíamos receber apoios por parte da Federação e isso não acontece. É só faturas para pagar e isso causa-nos muitas dificuldades. 

E treinadores o vento levou...

A época 2018/2019 para as equipas da região de Viseu está a ser marcada por vários acontecimentos. Equipas que estão a praticar melhor futebol do que estava previsto, equipas que estão a praticar pior futebol do que estava previsto e, principalmente, equipas que se estão a “destacar” pela troca assídua de treinadores. Para que se perceba a dimensão desta alternância constante, passado menos de meio ano do início de temporada, já cinco treinadores abandonaram os clubes que assumiram. Só o Cinfães é responsável pela saída de três. Uma debandada de técnicos sempre sob a mesma justificação: os maus resultados.

Cinfães
É o caso mais grave de troca de treinadores. A equipa apresentou-se aos adeptos esta época com a orientação técnica de Nuno Pinto. Contratado em Maio, passou mais tempo com a equipa na pré-época do que propriamente durante as competições oficiais. Nas primeiras quatro jornadas no Campeonato de Portugal, as suas táticas resultaram em três derrotas e um empate. De seguida foi a vez de Flávio das Neves. Aqui, o provérbio “Bom filho à casa torna” merece uma junção de “tornou mas está já de saída”. Contratado três dias depois da saída de Nuno Pinto, Flávio das Neves durou apenas três jornadas até ter abandonado o barco, justificando a qualidade parca da sua equipa. Agora, é a vez de Manuel Matias tentar salvar um conjunto que está sem mira para a baliza adversária. Habituado a treinar várias equipas (já lá vão 18), o treinador quer um Cinfães melhor do que aquele que encontrou. Em dois jogos, o técnico tem uma vitória e uma derrota.

Sampedrense
José Leal é mais um caso de despedimento precoce nesta época. Outrora treinador do Tondela, Académico de Viseu e Benfica de Castelo Branco, o ex-defesa de várias equipas, entre elas o Sporting, não conseguiu defender a sua continuidade na Sampedrense, tendo feito zero pontos em quatro jogos. Um mês difícil para o viseense.

Lamego
Numa época de dissabores face aos acontecimentos do passado, o Sporting de Lamego iniciou esta temporada com novo projeto e também com um novo treinador. Os lamecenses assinaram a 4 de julho um contrato com Rui Rebelo, que tinha bom histórico devido aos feitos conseguidos noutras equipas. Acabou por sair pela porta pequena, alegando que o presidente preferiu ficar com um jogador problemático ao invés dele. Miguel Gouveia desmentiu e garantiu que Rui Rebelo saiu única e exclusivamente devido aos maus resultados.





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