A OUVIR 98.9 FM
           00:00:00 | 00:00:00        
      
  
 
        

Rui Borges: "Liderei o melhor grupo que conheci até hoje"

Edição de 24 de maio de 2019
25-05-2019
 

Admite que se possa ter criado alguma confusão sobre quem é de facto o treinador do Académico de Viseu, mas Rui Borges assume que, na prática, é ele quem pode ser considerado o treinador principal, apesar de, oficialmente, o nome de João Gabriel Ribeiro aparecer nas fichas técnicas, enquanto tal. Olha para o futuro sem certeza de que ficará no Fontelo e prefere não se focar no trabalho dos árbitros. Enaltece o que foi conseguido e acredita que fez um bom trabalho na equipa.

Em meados de fevereiro trocou o Mirandela pelo Académico. Do que estava à espera quando chegou a Viseu, numa altura em que o clube estava a passar por um mau momento?

Acima de tudo foi um grande desafio, até porque treinava uma equipa sénior só há uma época e meia. Não tinha muito a perder. Foi também um grande desafio para o clube e, por isso, agradeci ao Académico a coragem que teve em dar a oportunidade a um treinador jovem. Tentei perceber o que era o clube e que plantel havia para treinar. Vi que tinha jogadores com muita qualidade, mais do que aquilo que estavam a demonstrar. Fiquei muito feliz pela oportunidade e foi um desafio crescer e entrar num campeonato profissional bastante competitivo. Fez-me crescer como treinador.

O Académico esteve envolvido numa grande polémica, na época passada. Havia ainda uma decisão final sobre se iria jogar na Primeira Liga ou não. Essa decisão do Tribunal Arbitral do Desporto só chegou em abril deste ano. Teve esperança de treinar o Académico na Primeira Divisão ou não pensou nisso?

Não me passou pela cabeça, até porque o Académico a subir só ia acontecer no final da época e o meu contrato é só até ao final desta época. O meu foco estava no trabalho diário. Sabia que ia ser uma luta difícil porque a Segunda Liga é conhecida por ser uma prova muito competitiva.

Aceitou o contrato até ao fim da época. Não quis um mais longo?

Não, sinceramente não. Era um grande desafio e eu não queria perdê-lo. O máximo que me podia acontecer era voltar ao Campeonato de Portugal.

O Rui tem noção de que ficou entre os adeptos uma confusão sobre quem era, efetivamente, o treinador do Académico de Viseu?

Sim, penso que sim. Se calhar não se anunciou da melhor forma. O nosso “treinador principal”, entre aspas, está comigo, percebe e está dentro da nossa ideia de treino. Por isso é apenas uma questão de papel, mais nada.

O Rui e o João Gabriel Ribeiro partilham conferências de imprensa. Ora um antevê os jogos, ora outro faz a análise. Isso sempre esteve claro na sua cabeça?

Sim, sem preocupações. Não me preocupo em aparecer ou deixar de aparecer. Tive amigos que me ligaram a perguntar: “és adjunto?” e eu dizia “é um bocadinho”...

Quer clarificar quem é o treinador do Académico?

Eu costumo dizer que gosto muito de partilhar, não só com os meus adjuntos, mas também com o posto médico que ali está todos os dias. Gosto de sentir o que eles pensam, sempre dentro da minha ideia. No entanto, gosto que me criem dúvidas e que me ponham a pensar de forma diferente, porque nem todos olhamos da mesma forma para as coisas. Toda a equipa técnica tem capacidade e autoridade.

Mas quem é o líder?

O líder sou eu.

Então o Rui é o treinador do Académico...

O líder sou eu, juntamente com o João. Neste caso ele foi anunciado como treinador e acima de tudo ele é o treinador.

Mas diz isso oficialmente ou na prática?

Oficialmente. Na prática, sou eu.

Estreou uma forma de estar no treino?

Não. Todos nós temos autoridade e entramos muito ativamente naquilo que é o treino. Todos os elementos são muito ativos. Talvez a última palavra seja a minha. Somos uma equipa e não apenas uma pessoa.

Isso não fica uma grande confusão no treino, porque cada um dá uma ideia...

Não, porque a ideia de jogo é a mesma. Ninguém diz nada em contrário, todos estamos identificados e no mesmo caminho.

O que retira desta experiência no Académico?

Cresci muito, foram quatro meses de alguma ansiedade e stress. O clube estava numa fase difícil. No dia a dia não tínhamos margem de erro e isso leva-nos a estar mais concentrados e intensos. Desgasta-nos psicologicamente e não há tempo a perder. Foi uma aprendizagem grande e percebi o que é entrar num clube a meio da época, nunca me tinha acontecido. A parte mais difícil é a pressão de ter de ganhar e não poder falhar.

Lida bem com essa pressão?

Sim, porque, como disse em conferências de imprensa, sou um otimista e agarro-me às coisas positivas, mesmo quando não nos correm bem. Acima de tudo, acredito no nosso trabalho diário. Estava tranquilo, mas por mais que estivesse otimista, a pressão de termos de ganhar leva-nos a estar mais ansiosos. Durante a semana estou mais ansioso do que nos jogos.

O clube foi multado devido a insultos dos seus adeptos a Pedro Proença, presidente da Liga. O clube tem peso no setor da arbitragem?

Isso não sei porque estou cá há pouco tempo. No entanto, é algo ao qual não me agarro. Por mais nervoso que fique, por mais que veja que os árbitros erram, não me agarro a isso. Agarro-me ao que posso gerir e controlar. Se tivermos um comportamento correto, por mais erros que o árbitro cometa, acredito que podemos vencer. O erro do árbitro faz parte. Infelizmente, o futebol português está a entrar num descrédito, mas eu continuo a acreditar que os árbitros não erram de propósito.

O Académico foi uma equipa muito irregular. Porque é que isso aconteceu?

Não posso falar do passado. Falo do que fizemos nestes quatro meses. Voltando atrás no tempo, o meu objetivo no Mirandela foi aproveitar o bairrismo que cria um sentimento interessante nos jogos em casa, que intimida o adversário. O meu primeiro objetivo foi tornar a equipa muito forte quando joga em casa. E isso aconteceu também em Viseu. Olhei para o calendário e tinha uma certeza: se ganhássemos os jogos em casa, conseguíamos manter-nos. E ainda conseguimos pontos fora de casa. Quando entrei no Académico, o clube tinha dos piores ataques e agora ficámos nos três ou quatro melhores ataques e melhorámos também na defesa. Ainda no domingo dizia aos meus jogadores, depois da derrota em Faro, que estava mais triste por não termos feito um golo do que por termos perdido o jogo. Foi o primeiro jogo em que não fizemos golos. Estive como jogador e também como treinador, embora menos, em alguns grupos de trabalho e não vi nenhum como o do Académico. Os jogadores estavam comprometidos com o projeto, concentrados, com capacidade fantástica de resistir à pressão.

Há agora um treinador chamado Bruno Lage que, à semelhança do Rui, também entra a meio da época e cumpre o grande objetivo do clube ao ter levado o Benfica a ser campeão. O Rui sente-se o Bruno Lage do Académico?

Contextos diferentes. Identifico-me um pouco, porque é também um treinador jovem a quem deram uma oportunidade. É muito convicto no trabalho e no que pode fazer e deu oportunidade a muitos jogadores jovens, teve coragem para o fazer. Foi campeão com muito mérito. O futebol está diferente, evoluído e fico feliz porque as equipas acreditam cada vez mais no trabalho do treinador que está a aparecer.

Em que pé está a formação do Académico?

Sou sincero, tive pouco tempo para ver esse aspeto. O foco do clube estava na equipa sénior. Fui ver alguns treinos da equipa de juniores, mas não estou por dentro da formação. Acredito que, se ficar no Académico, terei todo o gosto em olhar para a formação porque identifico-me com essa forma de estar, dando oportunidade de colocar miúdos a trabalhar com a equipa sénior. Todos os jogadores sabem o que custa ter oportunidades e tenho a noção do que um jovem passa para jogar futebol.

Presume-se que ficará no Académico. Que jogadores precisa para fazer uma época mais tranquila?

Não posso adiantar nada porque não sei se vou ficar. É algo que não está definido.

Que prazo lhe deram para uma resposta?

Há uma conversa que vai acontecer nos próximos dias para se perceber qual o entendimento entre as duas partes.

A sua vontade passa por continuar?

Sim, terei todo o gosto. Identifico-me com o clube e a cidade. Fico feliz por os adeptos começarem, nos últimos jogos, a acreditar cada vez mais no Académico e a puxarem pela equipa. É bom que sintam que são importantes. Acima de tudo, identificam-se com o clube, independentemente de presidentes, diretores. Isso deve passar um pouco ao lado, devemos todos agarrar-nos a um objetivo e puxar pelo clube. Só assim se anda para a frente.

Que impressão tem da direção relativamente ao seu trabalho?

Sinto que reconhecem o trabalho e que têm um feedback que nos poderá dar a possibilidade de continuar no Académico. Vamos ver o que acontece.

Como sabe, há um grupo de sócios que quer avançar para a presidência do clube. Teme pelo seu futuro?

Não penso nisso. É lógico que mexe com o meu trabalho e, neste caso, com o meu futuro. Acima de tudo temos a noção de que fizemos um bom trabalho. Sou um treinador feliz.





  • 2002 - 2019 - Jornal do Centro é uma marca registada da Legenda Transparente, lda
  • Desenvolvido por: WLC.PT