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A liberdade de freiras em clausura

Edição de 12 de abril de 2019
12-04-2019
 

O caminho até ao Mosteiro de Nossa Senhora da Eucaristia é, por si só, místico. As curvas e contracurvas que percorrem o monte de Santo Estêvão, por entre os eucaliptos e pinheiros, fazem-nos, logo, imaginar aquilo que nos espera. Mas, o primeiro impacto com o espaço não é o esperado. Afinal, não é necessária uma grande e imponente habitação para se compreender que aquele é um local de veneração.

Na sua origem, as religiosas Dominicanas Contemplativas vivem segundo as profecias de S. Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Pregadores, que estabeleceu o primeiro convento em Prouille (França) em 1206. Nesse ano nasceram as Monjas da Ordem dos Pregadores: reunidas pela oração e penitência, convertidas à fé católica e consagradas somente a Deus. A sua presença em Portugal, da qual o Mosteiro em Lamego é herdeiro, foi estabelecida em 1932, em Vila do Conde.

No ano de 1996 as monjas partiram do Porto para Lamego a convite do Monsenhor Ilídio Fernandes, um dos grandes impulsionadores da sua presença na Diocese. Inicialmente, eram apenas três (Irmã Margarida, Vitória e Conceição), hoje são nove. Há dois anos vieram de Benguela, Angola, seis irmãs: Maria da Glória, Inês Marques da Silva, Maria Alegria de São Domingos, Maria Isabel de Jesus, Paulina do Sagrado Coração e Catarina Maria da Igreja.

A devoção e experiência das monjas

A Irmã Maria da Glória da Trindade é a madre, a responsável pela casa. O sobrenome ‘da Trindade’ advém da ligação com a Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. “O nome Maria da Glória é de batismo. Pedi para acrescentar ‘da Trindade’. A minha missão contemplativa é um ofício de louvor a Santíssima Trindade”, explica a monja.

Natural de Benguela, Angola: “estamos aqui seis irmãs para ajudar a comunidade. Aqui encontramos três irmãs que nos acolheram com muita alegria. Se não tivéssemos chegado, provavelmente o Mosteiro estaria fechado”. Diz estar contente com a missão, apesar de não se encontrar na sua terra. “Quem se entrega a Deus, entrega-se para sempre”, daí o significado da aliança (usada na mão direita) – que exige morte e cruz.

As entrevistas, realizadas numa sala de receção, foram sempre feitas através das grades, o que nos leva a questionar o porquê da sua existência. “Apesar de vermos aqui as grades, isto não é uma cadeia. É a verdadeira liberdade, uma prisão livre, que não é forçada. Foi uma escolha pessoal e livre desde os meus 15 anos”, declara a Irmã Maria da Glória antes de ser feita alguma pergunta. “Foi Deus que pôs essa semente no meu coração. É Ele que chama. Também Jesus diz que só percebe aquele que recebe o dom”, acrescenta. Quando tinha cerca de oito anos, recorda, teve o primeiro contacto com as Irmãs de Santa Doroteia, em Angola, e foi o hábito branco que a cativou. “Nesse momento pensava naquela brancura, que me dizia muita coisa que não era deste mundo e só eu o entendia”, conta.

Já para a Irmã Maria Alegria de São Domingos, a superiora (na ausência da madre é a responsável), a sua vocação partiu de uma curiosidade. Quando deixou Nova Lisboa (Huambo) e foi viver para Benguela, instalou-se perto das Irmãs Contemplativas. “Elas cantavam à meia noite e eu achava estranho. Um dia quis ir conhecê-las. Tiraram-me todas as curiosidades... e disseram-me ‘nós rezamos pela conversão dos pobres e pecadores. A nossa missão é rezar por aqueles que não conhecem Deus’. Isso mexeu muito comigo”, conta.

As saudades por vezes revelam-se, mas para a superiora o facto de viverem em família já é tudo. Na sua opinião, ao viver com as irmãs, encontrou todas as figuras familiares. “Quando as saudades aparecem penso nos missionários que tiveram que deixar as suas terras para levar o Evangelho até Angola. Se eles pensassem só na sua vida, não seríamos evangelizadas”, diz. “Se a vontade de Deus decidiu que eu tinha de vir para Lamego, tudo bem. O importante é a força que o Senhor nos dá”, acrescenta.

A freira mais nova do grupo, com 29 anos, é Catarina Maria da Igreja, que tem um papel fundamental no setor da liturgia: é a organista. Entrou no mosteiro de Benguela em 2008, mas não gostou do primeiro encontro em que participou. “Não queria dar continuidade à vocação, mas quando voltei a casa já queria ir novamente para lá. A liturgia das irmãs marcou-me muito. Ao fim de alguns meses voltei sozinha para o Mosteiro”, relata. Em Lamego, sente-se em casa e feliz. O acolhimento das irmãs que já lá estavam e o povo lamecense foi impressionante.

O dia a dia, as rotinas e os trabalhos

No quotidiano das Monjas de Clausura ocupa lugar proeminente a Eucaristia, a Adoração ao Santíssimo e oração do Ofício Divino ou Liturgia das Horas. Da Oração da Igreja constam o Ofício da Leitura, Laudes, Vésperas, Completas e as horas intermédias (Tércia, Sexta e Noa). O Ofício da Leitura e as Laudes são rezadas pela manhã, no coro da missa. Ao fim do dia, são rezadas as Vésperas. As Completas são as orações da noite, antes de deitar, para finalizar as rezas do dia.

  • 5h40 – despertar
  • 6h30 – rezar o terço. Cada dia uma intenção diferente consoante as necessidades do povo, pois muita gente pede orações
  • 7h00 – laudes: o louvor da manhã. Em seguida, fazem orações pessoais
  • 8h15 – missa aberta ao público com hora intermédia (Tércia) incluída. As irmãs fazem os salmos (coro) onde estão viradas para o meio – Deus está no meio de nós – e o Padre e o público fazem o outro coro
  • 9h00 – pequeno-almoço. Cantam a Nossa Senhora para apresentar o dia e pedir a bênção. Depois, têm 15 minutos livres para cada uma fazer as suas responsabilidades
  • 9h30 – tempo para fazerem os trabalhos
  • 12h00 – hora intermédia (Sexta), seguida do almoço. Têm uma hora de recreio, seguida por outra de silêncio em que cada uma está nos seus aposentos ou na capela. Podem fazer trabalhos, mas sem ruído
  • 15h30 – terceira hora intermédia (Noa)
  • 16h30 – hora de formação: estudam o catecismo, documentos da Igreja, antropologia, entre outros assuntos
  • 17h30 – ensaio sobre/para a liturgia: preparação da missa do dia seguinte
  • 18h00 – vésperas: oração e exposição do Santíssimo
  • 19h30 – jantar
  • 20h30 – uma hora de recreio (em época de Quaresma ou Advento não há recreio à noite)
  • 21h30 – Completas
  • 22h30 – deitar

Esta é a rotina das nove irmãs que compartilham a vida e a devoção umas com as outras, para com Deus, todos os dias. Os únicos elementos que, por vezes, quebram um pouco a sequência de atividades programadas são os trabalhos rotativos, como as limpezas ou a preparação das refeições, que vão alternando. Um trabalho específico em que todas participam é a confeção das hóstias. Têm, também, começado a fazer alguma doçaria, mas para consumo próprio, pois afirmam que não obtém rendimento devido a tanta variedade de doçaria na cidade.

Já os ofícios da mestra, Irmã Maria da Glória, e da roupeira, ao encargo da mais velha de todas, Irmã Margarida, nunca alternam. Semanalmente, uma das irmãs lê os jornais e/ou revistas, religiosas, que recebem à hora da refeição enquanto o resto está em silêncio.

No entanto, há outro fator que distingue a forma de viver das Monjas de Clausura. Apesar de terem uma horta para consumo próprio e visitantes assíduos que as ajudam, com a oferta de legumes ou fruta, por exemplo, por vezes têm necessidade de sair para fazer compras. Contudo, procuram não sair do Mosteiro apenas para isso, pois não é o mais correto. “Quando temos de tratar de documentos ou algo do género, aproveitamos para fazer [as compras]”, comenta a madre. Ainda que não queiram sair da casa, “as condições no momento não dão para isso”, acrescenta.

Mas o que é a missão contemplativa?

A contemplação é, segundo as irmãs, a maneira mais perfeita de ter contacto com a verdade.

No que toca à missão contemplativa, a madre explica que se baseia em contemplar e saborear a vida que abraçou. “Mas, a nossa vida está muito voltada para o estudo e a oração. Estudo da palavra de Deus, das escrituras. É preciso meditar e tentar perceber aquilo que se medita para aplicar na própria vida. Se a consequência é alegria e felicidade, então é sinal de que este é o meu lugar. Todas procuramos viver isto, a contemplação, para poder transmiti-lo. A nossa Ordem é fundamentada na palavra da escritura”, esclarece.

A Ordem Dominicana foi o primeiro grupo a ser formado para oração, serve como apoio à Igreja, funciona como uma espécie de retaguarda e força do apostolado. “O nosso ofício é o louvor”, remata a Irmã Maria da Glória da Trindade.

Esta é uma pequena partilha da experiência de vida de nove mulheres que optaram por dedicar a vida às suas crenças na religião e à capacidade de mudar o mundo através do poder da fé. Percursos de dedicação, escolhas, entrega e sacrifício.

A visita ao Mosteiro de Nossa Senhora da Eucaristia das Irmãs Dominicanas Contemplativas, pela manhã, é entre as 10h00 e as 12h00 e, da parte da tarde, as 14h00 e as 18h00. A 8 de agosto celebram a comunidade conventual, neste que é o dia de S. Domingos de Gusmão, onde se realiza uma missa solene que se segue com um pequeno convívio com as monjas no claustro do Mosteiro.





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