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As ameaças do presidente

Edição de 5 de julho de 2019
05-07-2019
 

O presidente da Câmara de Viseu passou os últimos dias a dar murros nas mesa e a ameaçar tudo e todos. Desde os serviços, passando pela oposição, até ao Governo, nada escapa à crítica do autarca. Oposição diz que Almeida Henriques não sabe lidar com o “contraditório democrático”.

Contra a oposição

O mais recente episódio aconteceu na última reunião do executivo quando os vereadores do PS foram ameaçados com o que o autarca de Viseu considera ter sido uma atitude “pedagógica”. Almeida Henriques avisou que não vai tolerar mais suspeições levantadas contra si e contra a restante maioria PSD. “Cada vez que põem em causa ou belisquem um cabelo de cada um da minha equipa direta ou indiretamente de imediato vão malhar com os ossos no tribunal, que é para aprenderem que é preciso ter um comportamento cívico. Quem não deve não teme”, disse, na altura, em reunião pública depois do PS ter pedido esclarecimentos sobre o PDM, tema que já tinha sido levantado aquando da Assembleia Municipal pela deputada comunista Filomena Pires.

As declarações mereceram uma reação dos socialistas. Os vereadores do PS lamentaram as intimidações do autarca, afirmando que a atitude demonstra “não saber lidar com o contraditório democrático”.

“Nós temos tido ação sobretudo na área política, inclusive através de queixas que temos apresentado. O senhor presidente, na falta de outros argumentos mais consistentes, vem com ameaças desta natureza, o que não se compreende”, lamentaram.

Para os vereadores do PS, as ameaças de Almeida Henriques vieram criar “uma nuvem para iludir o trabalho da oposição” e o que considera ter sido “os maus resultados da estratégia política do atual mandato do PSD à frente da Câmara”.

Um dia antes, na Assembleia Municipal, já o deputado do PS, Gonçalo Ginestal, tinha sido alvo da “fúria” de Almeida Henriques. No decorrer da reunião, não gostou ouvir Gonçalo Ginestal dizer que o autarca de Viseu “gasta dinheiro (…) para benefício de privados”. Como o deputado não retratou a frase em questão, de imediato A lmeida Henriques disse que ía apresentar uma queixa-crime ao Ministério Público.

Contra o Governo

As ameaças não se ficam pelos socialista a nível local. O Governo PS também é visado. Uma das mais recentes ameaças diz respeito a uma parcela de terreno da Segurança Social que a autarquia quer comprar e que, segundo Almeida Henriques, o Governo tem andado de “bolandas em bolandas”. O presidente da câmara deu um prazo até 15 de julho para ser feita a escritura, caso contrário ameaça avançar com máquinas pelo terreno.

“Vou hoje dar aqui um prazo ao Governo. Se até ao dia 15 de julho não for feita a escritura arranquem as buldózeres para o terreno e deitem o muro abaixo e entrem pelos terrenos da unidade de saúde familiar na parte que nós queremos comprar e que o Governo não nos deixa comprar. E o Governo depois que embargue a obra, se quiser”, disse durante a última sessão da Assembleia Municipal.

A obra em causa é a requalificação do bairro de São José, na zona sul da freguesia de Viseu, no limite com a freguesia de Repeses, e que também vai permitir, lembrou o autarca, “a criação de uma rotunda de acesso ao centro de saúde, à unidade de saúde familiar, e vai permitir melhorar todo aquele acesso ao IPV [Instituto Politécnico de Viseu]”.

“Para verem como é que o poder central pode bloquear algo que tem verbas determinadas, adjudicação, empresa escolhida e que está pendente, desculpem a expressão, de uma porcaria de uma pequena parcela de terreno que não presta para nada que não seja para alargar a rua e poder ter lá a rotunda para as coisas ficarem estruturadas”, afirmou.

E a ameaça foi ainda mais longe.“- Vou passar a atuar assim para com o Governo. Enquanto o Governo não der uma prova de boa fé, vamos passar a fazer assim: não há uma resposta em dois meses e avançamos para a obra e depois que seja o Governo a embargar”.

Mas contra o Governo, Almeida Henriques está disposto a ir mais longe e até já disse que não vai convidar ninguém para a inauguração das obras nas escolas Grão Vasco e da Secundária Viriato, enquanto o Estado não pagar a sua parte. “Até ao momento, todo o investimento está a ser suportado pela Câmara Municipal de Viseu. Já estamos em 2,2 milhões de euros de investimento suportado pela Câmara de Viseu à espera de suas excelências”, descreveu, assim, o autarca de Viseu. Semanas antes já tinha ameaçado que estava disposto a liderar qualquer movimento que surgisse para reivindicar mais médicos para o serviço de oncologia do Centro Hospitalar Tondela Viseu.

Contra os municípios

E as ameaças continuam. O presidente da Câmara de Viseu dá, mais uma vez, um murro na mesa por causa da recolha do lixo e dá prazo até ao final do ano para o sistema funcionar ou então a autarquia avança com a criação de um sistema autónomo. O autarca afirmou que “a Câmara de Viseu vai continuar a pagar pontualmente os resíduos, mas, se o sistema não melhorar, pode vir a suspender os pagamentos ao Planalto Beirão se, de facto, não melhorar o serviço”. Aliás, a autarquia de Viseu, que faz parte da Associação dos municípios do Planalto Beirão, recusou-se a aprovar as contas por não estarem discriminadas as dívidas que cada município tem perante a Associação.

E ainda no âmbito dos municípios, são também conhecidas algumas discórdias com a Comunidade Intermunicipal (CIM) Viseu Dão Lafões. Até há pouco tempo, Almeida Henriques exigia que a liderança fosse legitimada, uma vez que Rogério Abrantes, o presidente, tinha sido nomeado administrativamente. A legitimação chegou por via de votação dos municípios, mas as relações, nem por isso, têm sido as mais pacíficas. Ainda recentemente, por causa das obras de requalificação do IP3, Almeida Henriques levou apenas alguns autarcas para um encontro com o ministro das Obras Públicas, tendo deixado “para trás” a direção da CIM.

O que diz a oposição

As picardias entre Almeida Henriques e a oposição na Câmara e na Assembleia Municipal poderiam ser entendidas como uma “espécie de ritual da luta e retórica política numa sociedade democrática, mas, na verdade, não passam da expressão de uma liderança fraca e insegura no executivo autárquico”. É desta forma que a eleita municipal Catarina Vieira, do Bloco de Esquerda, vê a atitude do presidente da Câmara de Viseu.

Queixa-se, por exemplo, da falta de respostas às questões colocadas pelo BE e restante oposição na Assembleia Municipal. “A falta de transparência e, principalmente, a falta de respeito pelos e pelas munícipes que não votaram nele ao menosprezar o nosso trabalho e quem representamos democraticamente e com pleno direito não são atitudes de um presidente de câmara”, afirma.

“Por vezes, alguma oposição na Câmara Municipal tem-se deixado enredar nesses “faits divers” que não prestigiam a vida política. A combatividade devia passar mais pelas propostas”, conclui.

Já o PS afirma “não ser compreensível a amplificação do incómodo e da crispação política do senhor presidente da Câmara, com uma linguagem imprópria, pouco democrática e nada cordata nas relações interpessoais e institucionais, incluindo o uso de expressões como ‘vão malhar com os ossos no tribunal’, certamente à falta de argumento políticos consistentes”. Não foi possível contactar CDU e CDS.





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