A OUVIR 98.9 FM
           00:00:00 | 00:00:00        
      
  
 
        

Edição impressa: 25 mulheres mortas por violência doméstica na região de Viseu

Edição de 29 de novembro de 2019
29-11-2019
 

Em 15 anos, no distrito de Viseu, registaram-se 25 homicídios e 33 tentativas contra mulheres. Este ano já morreram duas vítimas de violência extrema – uma em Viseu e outra em Moimenta da Beira. Em Portugal, o número de mulheres mortas, de janeiro até 12 de novembro, é de 28. Tentativas foram 27 e as três mulheres com quem o Jornal do Centro falou no dia em que se assinalou a Luta pela Erradicação da Violência fazem parte desta última estatística. Foram maltratadas, ameaçadas, agredidas durante anos.

Os testemunhos de violência são idênticos e seguem o mesmo padrão, mas cada história não deixa de ser única. Aceitaram falar das suas vidas para que sirvam de exemplo. Não dão rostos nem nomes. Não podem nem querem. O medo de voltarem a ser controladas e perseguidas é real e o encontro com a reportagem do Jornal do Centro aconteceu longe da Casa de Acolhimento onde permanecem. O sigilo “é essencial”.

“Ana”, que pode ser a vítima A, está há um mês em Viseu. Não é a primeira vez que se refugia numa casa de acolhimento. Já o tinha feito, mas acabou por regressar à casa que partilhava com o companheiro há mais de 30 anos. “Na altura, o meu filho mais velho pediu-me. Disse-me que o pai estava mesmo mudado e que tudo iria ser diferente. Voltei”, conta. Agora, é o próprio filho que lhe pede desculpa.

Nas mãos aperta o lenço que serve para enxugar as lágrimas que se soltam enquanto entre pequenas frases conta o que sofreu. “Era arrastada do quarto pelo corredor pelos cabelos”. “Ele dormia com uma faca debaixo da almofada”. “Não me deixava ir ao café nem ao cabeleireiro”. “Ficava ao meu lado enquanto cozinhava”. “Estava sempre a perguntar se eu queria ir ter com os meus amantes”. Em março, foi internada. Foi o próprio companheiro a chamar a ambulância depois de lhe ter batido. Em abril, tinha voltado para casa. “Um dia, enquanto me batia, disse que não se importava, que já sabia como era a cama da cadeia”...

Estas foram algumas das situações relatadas por Maria e que a levaram, inclusive, a tentar o suicídio. Diz que sofria em silêncio, mas os abusos eram conhecidos da família e das autoridades, pelo menos nas vezes que teve de ir ao hospital e à GNR. A violência, na história de “Ana”, é contada quase como se fosse “normal”. “A minha sogra também era vítima de violência e ele (o marido) sempre viveu assim”, diz.

Foi de um ambiente familiar agressivo que “Beatriz”, a vítima B, chegou ao Centro de Acolhimento de Viseu. No rosto ainda tem a marca da agressão de que foi alvo por parte do irmão mais novo. A situação desta vítima é diferente das suas colegas de conversa. Sara sofre de uma perturbação psíquica e tem consciência que tem episódios em que ela própria se torna mais agressiva, mas contra si mesmo. Do irmão, relata que ele fica “como que possuído” quando bebe mais e poucos são os que escapam à sua fúria. “Já bateu no pai, nos outros e esteve preso. Sempre foi assim, desde novo. Estava tão farta daquilo”, confessa. Esta foi uma das razões que a levou à Casa de Acolhimento, embora “Beatriz” também queira encontrar o seu próprio equilíbrio.

Fugiu sem dinheiro e só com a roupa que tinha vestido. A nossa vítima C, que pode ser Carla, está em Viseu há seis meses, mas já tinha vindo de outra casa de acolhimento. Casada há 13 anos, diz que o seu marido sempre foi agressivo. “Implicava com a comida, com o facto de não ter a roupa que queria, implicava com tudo”. “Carla” é uma pessoa calma. Fala pausadamente. Admite que lhe custa estar longe da família e quando questionada sobre não estar ao pé do marido, depois de um momento de silêncio, responde: “ele pedia desculpa”. Custa-lhe dizer que já não gosta dele, mas sabe que tem de fazer uma vida longe de quem a deixou traumatizada. “Já durmo melhor. É pena é ter sido eu a sair de casa, da minha terra, da minha família”, conta.

E é neste ponto que a frustração destas três mulheres se assume. “Nós é que temos de sair de casa e eles é que ficam na boa”, atira Beatriz. “Aposto que o meu marido está feliz da vida”, remata Ana.

Os nomes adotados nesta reportagem são fictícios. Mas, e voltando ao início, são nomes de mulheres mortas.

Longo caminho, sem desvios

Agora, estas três mulheres querem que a Casa de Acolhimento seja um ponto de passagem para uma vida nova. Uma casa e um trabalho é o que pedem para seguirem um trajeto que não as leve de novo ao passado. “Não gosto muito de falar disto. Queria fingir que nada se passou. Mas tenho de dizer não e acabou... não é fácil”, desabafa “Ana”.

Na Casa de Acolhimento, valência dependente da Casa do Povo de Abraveses, o dia a dia é passado entre as tarefas domésticas, como arrumar o quarto ou as partes comuns, fazer a comida ou tratar da roupa. Além do apoio jurídico, às vítimas é-lhes dada a oportunidade de terem formação. “Pensava que esta casa era mais tipo, uma espécie de instituição, mas sinto-me bem”, diz Beatriz.

O Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica do Distrito (NAVVD) de Viseu, responsável pela casa de acolhimento, tem recebido cada vez mais pessoas. O crescimento dos pedidos de ajuda foi confirmado ao Jornal do Centro por Carla Andrade, responsável pela valência, que apontou para os números terem “aumentado consideravelmente” nos últimos anos.

“Atendemos cerca de 200 vítimas só no Núcleo em Viseu. Há pessoas que também vêm dos concelhos mais a sul do distrito. Entretanto, com a criação do atendimento especializado nos centros de saúde da zona norte, tivemos este ano um aumento significativo porque passou a existir técnica nessas áreas desprovidas em que as mulheres teriam mais dificuldade de acesso ao serviço e mais falta de informação”, explicou.

Segundo Carla Andrade, o aumento dos atendimentos é também acompanhado por uma subida das denúncias, “devido à informação que existe e à mediatização” das situações de violência doméstica.

“Não é que existam mais agressores ou mais violência no seio familiar. Penso que há preocupação das políticas em resolver ou minimizar este flagelo que mata anualmente cerca de 30 e poucas pessoas”, rematou.

Desde fevereiro deste ano que Viseu conta também com uma casa abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica com doenças mentais. Trata-se de um projeto piloto e pioneiro a nível nacional.

"O que se passa a nível nacional é muito preocupante" - Carla Andrade, coordenadora do NAVVD de Viseu

As vítimas continuam a ser, em maior número, as mulheres...

As mulheres continuam a ser as maiores vítimas de violência como de outros crimes sexuais. Só será possível inverter esta tendência quando existir igualdade em várias questões, sejam salariais, sejam em relações de poder.

O número de atendimentos no NAAVD aumentou no último ano?

Os nossos números têm aumentado consideravelmente nos últimos anos, atendemos cerca de 200 vítimas, só de Viseu. A estes números, acrescem os do Centro de Acolhimento de Emergência, onde anualmente acolhemos entre 100 pessoas (mulheres e crianças) e da casa abrigo. Estamos a falar cerca de 400 pessoas.

É correto dizer que ultimamente se tem assistido a uma forma de violência mais extrema?

Este ano começou de uma forma muito trágica, com mortes em que, por exemplo, o agressor matou a própria filha para fazer sofrer a vítima. São mortes com contornos aberrantes, mortes também muito seguidas e existiu uma mediatização. A sociedade está mais atenta e daí as pessoas recorrerem também mais ao nosso serviço. Eu trabalho há dez anos no núcleo e sempre houve situações difíceis e trágicas, mas este ano pode-se considerar que a violência está mais extrema, sim, ou pelo menos aconteceu este ano. Esperamos minimizar isso. Estão a ser feitos imensos esforços. Não nos podemos comparar a países do norte da Europa ou até da vizinha de Espanha que têm outra metodologia de intervenção. Mas o que se passa a nível nacional é muito preocupante e até temos essa noção nas próprias ações de sensibilização que fazemos nas escolas em que os jovens, cada vez mais, normalizam as questões de violência. A juntar a uma série de factores, também há a juntar uma crise de valores.

É necessário um programa de intervenção primário, mais do que ações de sensibilização?

Pelos números que sabemos, de facto as ações não chegam. Alguma estratégia deverá ser delineada de uma forma urgente. Apesar de todos os esforços, o nosso país não está a ser capaz de inverter o cenário.

Que medidas propõe, por exemplo?

Várias. Logo nas questões relacionados com o exercício da regulação da responsabilidades parentais por parte dos agressores. Deveria haver alterações a este nível porque é muito complicado quando nós temos uma mulher acolhida, numa situação de risco, e existe uma regulação em que obriga a criança, que até ficou à guarda do pai, ir passar o fim de semana com a mãe, sendo que o agressor, apesar de ter medidas de afastamento, fica a saber onde é que a pessoa está. Também na lei de proteção de testemunhas deveriam existir mudanças. O nosso vizinho continua a achar que não é responsável e assiste a tragédias. Eu penso que pessoas que vivem ao lado, que assistem, que têm noção do grau de risco e que se recusam a intervir, pedir auxílio e a testemunhar deveriam ser punidas.





  • 2002 - 2020 - Jornal do Centro é uma marca registada da Legenda Transparente, lda
  • Desenvolvido por: WLC.PT