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Edição impressa: ASSOL proporciona esperança

Edição de 22 de novembro de 2019
22-11-2019
 

São 8h10 e, à Balsa Nova, começam a chegar crianças. Ana Sofia já lá está para as receber. Na Casa de Saúde, o José Carlos já despachou mais de 50 telefonemas. E a Mara, por esta altura, anda a brincar com os patudos que os seus donos deixaram no ATL da Amipet.

Tudo isto graças à ASSOL (Associação de Solidariedade Social de Lafões), que assinala, este ano, três décadas de implementação e, sobretudo, de inclusão e de transformação social de utentes que, por diversos motivos, têm barreiras para chegar ao mercado de trabalho. Todo um trabalho para a Ana Sofia, para o José Carlos e para a Mara, mas, também, para as suas famílias, amigos e entidades que os acolheram para estágio.

Ana Sofia tem 22 anos e encontrou na Balsa Nova uma “razão” para acordar e chegar ao fim de todos os dias e se sentir “útil”. É lá que, desde maio, faz o que de melhor sabe. Dar carinho, amor, atenção. Cuidar de crianças desde os quatro meses até aos três anos.

Hoje, diz que se sente “autónoma, responsável” e que tem “um trabalho para a vida inteira”. Perguntamos-lhe se era o que gostava de fazer para o resto da vida. Responde,prontamente, que sim.

O gosto pelas crianças existe desde que se lembra e à ASSOL e à Balsa Nova deve-lhes o facto de lhe terem proporcionado fazer o que gosta e aquilo para que tem aptidão.

A equipa de trabalho é “fantástica” e a integração de Ana Sofia não teria corrido tão bem se assim não fosse.

Ana Sofia dá de comer às crianças, muda-lhes a fralda e canta-lhes uma música para se acalmarem quando começam a chorar. Rosa Cunha é a orientadora de Ana Sofia até ao término do estágio. “Receber a Sofia foi, no início, uma dúvida e uma incerteza porque ela vinha de outra instituição onde não se tinha adaptado, por várias razões. Quando é assim ficamos com medo de falhar e que não resulte também connosco”, explicou à equipa de reportagem do Jornal do Centro. “Mas, rapidamente, percebemos que a Ana Sofia era uma agradável surpresa”, diz.

“A Ana Sofia tem os meninos já muito afeitos a ela. Eles adoram-na. Ela dá-lhes de comer, conhece as rotinas deles e quando a vejo a mudar fraldas é de uma doçura... o contacto direto com a criança é um espetáculo. Isto não se vai buscar, é nato nela”, conta Rosa Cunha, acrescentando, “qualquer coisa que faça menos bem, que nem sei o quê, ela ouve-nos e tem uma atitude maravilhosa. Nunca as crianças notam que ela está desagradada”.

Em relação à integração de Ana Sofia no mundo de trabalho, Rosa Cunha não tem dúvidas de que “se a atitude não fosse a de humildade que tem e, certamente, a das colegas que tão bem a acolheram, não teria sido tão fácil”, remata.

Ana Sofia Alves, formanda da ASSOL

“Agora tenho um sentido de utilidade e esperança no futuro”

José Carlos tem 35 anos e está na Casa de Saúde São Mateus há três. Começou por fazer trabalho administrativo, mas foi proposto para integrar a equipa de call center.

“Achei que não ia ser capaz. Dei uma oportunidade a mim mesmo e meti na minha cabeça que ia conseguir”, lembra. “Já superei algumas das barreiras que senti inicialmente”. E o que é que foi mais difícil, perguntamos? “Tem mesmo a ver com o meu feitio. Com a dificuldade de interação com outras pessoas... sentia-me um bocado acanhado, mas com a prática fui deixando para trás esse medo”, confidencia. Perguntamos-lhe o que ainda lhe falta. “Ter mais confiança em mim [risos]”. “Tenho de continuar a pensar em fazer o melhor possível no dia a dia. Acho que essa é a receita para um final feliz”. E és feliz?, voltamos a questionar. “Sim, muito”.

Zé Carlos, forma como é tratado carinhosamente na Casa de Saúde, conta que agora se sente preenchido interiormente e se sente útil. “Não me senti-a inútil, mas a minha vida estava estagnada e vazia”. “Agora tenho uma rotina, tenho objetivos quando me levanto e isso é importantíssimo. Foi espetacular vir para aqui. Fez-me dar esperança para o futuro”, revela.

Uma das lições que aprendeu nestes três anos é que não há obstáculos intransponíveis. “Com perseverança tudo se consegue”, não esquecendo a ajuda de todas as pessoas com quem se cruzou neste processo. “Sem a colaboração dos meus colegas isto não era possível”.

Fernando Guimarães foi quem o recebeu na Casa de Saúde, em janeiro de 2017. Trabalharam juntos durante 10 meses no Departamento de Recursos Humanos. “Nessa altura, o José Carlos mostrava algumas limitações. Vinha de carro, estacionava no piso exterior do edifício e, a partir daí, não conseguia deslocar-se sozinho até ao local onde trabalhávamos”, recorda. “Então, combinei com ele ir buscá-lo todos os dias”. Até que começou a libertar-se e a ter mais confiança. “A evolução é brutal. Ele é uma pessoa que se relaciona muito bem com os outros, só no início é que tinha alguma inibição”, relembra.

Elisabete Abranches é, agora, a supervisora de José Carlos no call center, onde, por semana, caem cerca de 1800 chamadas.

O formando da ASSOL foi integrar uma equipa onde já estavam três colaboradores. Atualmente, são já cinco pessoas.

“Foi um bocadinho complicado porque eu já conhecia o Zé Carlos e sabia que ele era um acanhado. Lembro-me que ele tinha muitas dificuldades em atender o telefone e falar com as pessoas”, conta. “Passado um mês, quase dois, disse-lhe que ele teria que começar a fazer confirmações de exames e consultas. No início não o fazia sozinho. Se eu me levantasse, por qualquer motivo, ele desligava o telefone” [risos].

Depressa começou a ganhar confiança e a soltar-se. “Demos-lhe muito na cabeça e incentivámo-lo”, refere Elisabete. “Agora, o Zé Carlos faz-nos falta. Quando não vem eu digo ‘ai Jesus’”.

O próximo desafio, agora lançado ao Zé Carlos, é largar a muleta com que se desloca. “A minha meta para este ano é pô-lo a andar sozinho”, sorri Elisabete. “Ele é um exemplo de superação”, afirma.

“Os animais não me julgam”

Mara Loureiro tem 42 anos e é junto dos animais que é feliz. Antes de chegar à Amipet, há cinco meses, já tomava conta de animais há cerca de uma década.

“Por muita formação, o mais importante é o gosto, a sensibilidade e o estar com prazer”, começa por dizer Isabel Maia, médica veterinária e responsável por Mara na clínica.

“Ela [Mara] irradia felicidade, tranquilidade e bem-estar. Todas as pessoas da equipa sentem isso nela. Eu só vejo mais valias em tê-la aqui”, acrescenta, dizendo que a “sensibilidade natural e o saber lidar com os animais é um dom”.

Dentro da Amipet, Mara Loureiro já faz, com autonomia, os banhos dos animais, muda as águas com frequência, tira os dejetos das areias dos gatos e “tem perspicácia para as coisas”. “Ela tem a perceção dos comportamentos de cada um dos animais”, revela a médica.

Perguntamos a Mara qual a tarefa que mais gosta de desempenhar. “Adoro limpá-los, porque eles agradecem e é uma coisa espetacular”.

“Ao fim do dia sinto-me realizada, as pessoas acolheram-me muito bem e os animais são incondicionais. Eu posso estar triste, mas eles dão-me um beijinho e eu fico logo bem-disposta”, diz, de forma humilde. Em relação à doença da qual é portadora, Mara diz que “os animais” não a “julgam”. “Eles aceitam-nos na totalidade”, confessa.

O estágio da Mara termina em janeiro, mas a Amipet já demonstrou interesse em que ela continue na clínica. “A equipa de enfermagem, que é rotativa, já se vai apoiando na Mara e já sentimos a falta dela aqui”, realça Isabel Maia.

Tal como a Mara, também a Ana Sofia e o Zé Carlos, ao que tudo indica, vão continuar nas respetivas empresas e instituições no final do estágio proporcionado pela ASSOL, através de uma medida de apoio ao emprego.

A missão da ASSOL é promover a inclusão social de pessoas com deficiência e incapacidade e de pessoas com doença mental incapacitante e os números por eles revelados são indicadores do aumento desse trabalho.

Só em 2017 passaram pela ASSOL 185 formandos. Um número que subiu em 2018 para 198. Nos dois anos, concluíram a formação apenas 60. Também a taxa de integração profissional dos formandos em medidas ativas de emprego no final da formação fixou-se nos 83,3 por cento em 2017 e em 81,7 por cento em 2018. O grau de satisfação das pessoas apoiadas foi de 84,8 por cento há dois anos e de 87,8 por cento em 2018.





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