15 Jul
Viseu

Destaque

Edição impressa: Casos de violência nas escolas aumentaram para o dobro

por Redação

10 de Janeiro de 2020, 17:17

Foto Igor Ferreira

Agressores e vítimas são jovens com idades até 15 anos

CLIPS ÁUDIO

Em 2019 registou-se um aumento de 110 por cento nos casos de agressões em contexto escolar. O número resulta de um levantamento feito pela Polícia de Segurança Pública e diz respeito apenas às cidades de Viseu e de Lamego, onde a força policial atua.

De acordo com a PSP, no ano passado registaram-se nas escolas das duas cidades 21 crimes de agressão e que acabaram por levar a força policial às instituições de ensino. “As queixas de agressões mais comuns são as de ofensas corporais simples. Regista-se um aumento de 110 por cento face ao ano anterior”, revela a polícia, acrescentando que tanto a maioria das vítimas, como dos agressores, têm entre 12 a 15 anos.

A PSP diz não ter informações sobre os anos de escolaridade em que os episódios de violência são mais frequentes. “Não dispomos de dados, apenas os estabelecimentos de ensino onde se verificaram, que englobam vários anos de escolaridade”, informa, sem detalhar as escolas em causa.

Ouvido pelo Jornal do Centro, João Caiado, diretor do Agrupamento de Escolas Infante D. Henrique, reconhece que na instituição que dirige “houve um ligeiro acréscimo de violência”, mas salienta que “alguns são casos clínicos (dois) e depois são” situações que tem dificuldades em caracterizar como episódios de violência. “É mais falta de disciplina”.”

Alguns episódios transformam-se em indisciplina, se calhar também com alguma violência, e devem-se um bocado à falta de vigilância nos recreios, corredores, fora da sala de aula”, argumenta.

Segundo as contas do dirigente, na última década a escola perdeu 14 auxiliares de educação, que não foram substituídos apesar dos vários pedidos feitos à Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares. “Com mais funcionários poderiam evitar-se alguns casos de violência”, refere João Caiado, que nesta matéria também não deixa de responsabilizar os pais.

Nas palavras do diretor do Agrupamento de Escolas Infante D. Henrique, algumas situações de violência em contexto escolar resultam da falta de acompanhamento dos encarregados de educação, que hoje não têm tempo para os filhos. Para além disso, alega que a própria sociedade em que vivemos está mais violenta e que essa realidade está presente todos os dias na televisão, traduzindo-se “num incentivo para que a violência aconteça”.

João Caiado é da opinião que nos últimos anos as crianças e jovens “têm ficado um bocadinho mais agressivos”. “Isso deve-se ao contexto familiar e à sociedade”, defende.

"Raramente a polícia é chamada à escola"

Uma leitura que não é partilhada pela diretora do Agrupamento de Escolas Grão Vasco. Inês Campos considera que “os alunos não estão mais violentos”. “Há situações com miúdos de contextos familiares desestruturados e isso revela-se nos comportamentos deles, mas em situações normais os miúdos têm uma postura de urbanidade e de convívio com os restantes, normal”, aponta, acrescentando que atualmente os casos de violência têm “maior visibilidade” e causam mais “preocupação”. 

Na Grão Vasco, garante a responsável escolar, as agressões “são residuais” e “raramente a polícia é chamada à escola” pelo que os números da PSP que apontam para um aumento dos episódios de violência “não espelham a realidade da escola”. No estabelecimento estão registados em média “três ou quatro casos” e que estão relacionados “com situações de recreio, de amores iniciais, de brigas e de ofensas”, pelos quais grande parte dos alunos passou na escolas, adianta Inês Campos.

"A indisciplina é algo preocupante porque impede a aprendizagem"

O diretor da Escola Secundária Viriato também não tem “a perceção que haja um aumento dos casos de violência” em contexto escolar. Pedro Ribeiro explica que numa escola com 900 estudantes “é normal que existam conflitos”. “Mas estamos a falar de pequenas situações”, descreve, recusando a ideia de que os jovens estejam não só mais violentos, como mal-educados. “Não noto que haja mais agressões, há casos muito pontuais às vezes relacionados com telemóveis, namoradas, etc.”, salienta.

O dirigente escolar defende que “a indisciplina é algo preocupante e que tem que preocupar qualquer escola porque impede a aprendizagem”. Nesse sentido, afirma que nem que seja por um, cada caso tem que ser “tratado com a maior celeridade possível”.

Penas

No Agrupamento de Escolas Infante D. Henrique, os agressores são punidos com “medidas disciplinares corretivas e outras sancionatórias”, sendo que a direção da instituição de ensino prefere “atuar na hora” porque os processos burocráticos demoram algum tempo. A opção acaba por um “castigo” que passa pela ajuda em tarefas na escola, como a realização de limpezas ou trabalhos na biblioteca, atividades que são devidamente supervisionadas.

“Se o aluno for penalizado com dois ou três dias de suspensão é um prémio. Eles vão descansar e regressam. É assim que é visto da parte dos alunos”, avança João Caiado.

Na Escola Grão Vasco é também o estatuto de ética do aluno que dita as penalizações a aplicar e que prevê suspensões, processos disciplinares e até a transferência de escola. As medidas são aplicadas de acordo com a “gravidade dos factos”.

“A expulsão e a transferência de escola são medidas limite. Nós não temos competência para isso, tem que ser a tutela central a fazer essa démarche quando nós relatamos a situação e sempre com anuência do encarregado de educação”, explica Inês Campos.

Menos bullying

A violência física nas escolas está a crescer de acordo com dados da polícia, mas um estudo realizado pelo Observatório do bem-estar dos alunos do concelho de Viseu não aponta para essa tendência, sobretudo no que diz respeito ao bullying. A investigação envolveu um universo de 1709 estudantes, do 3º ao 12º ano de escolaridade.

Segundo o estudo, sofreram de bullying há dois anos nas várias escolas do concelho 8,9 por cento dos estudantes, o que se traduz numa redução de três décimas face à anterior investigação realizada em 2016.

Os casos de bullying verificam-se sobretudo no 1º ciclo, com uma taxa de 14,7 por cento. À medida que os jovens vão progredindo nos estudos, as agressões vão baixando. No 2º ciclo a taxa cifra-se nos 8,8 por cento, no 3º ciclo nos 8,4 e no secundário nos 4,3 por cento.

Viseu apresenta percentagens de bullying inferiores à média nacional. No concelho esta problemática manifesta-se sobretudo de forma verbal “As agressões físicas são residuais. É um bullying verbal e social. É o chamar nomes, o ignorar, o deixar de parte, é o ridicularizar perante alguma característica física. O bater, o roubar, é muito menor do que noutros estudos a nível nacional”, explica Anabela Carvalho, a coordenadora do projeto.

Comissões de proteção de crianças com dois mil casos em mãos

As Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) do distrito trataram no ano de 2018 perto de dois mil processos, envolvendo vários casos de menores que se encontravam em risco ou com comportamentos de perigo. Segundo informações da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), as 25 comissões existentes na região, uma por concelho, registaram no total 1939 processos, dos quais 983 foram novos casos. Oitocentos e dez transitam do ano anterior e 146 acabaram por ser reabertos.

O concelho com mais trabalho em mãos foi Viseu, que desde a constituição já tratou mais de 18.400 processos de jovens e crianças. Em 2018, a CPCJ viseense acompanhou 541 casos, sendo que mais de metade destas situações (261) foram consideradas pelos serviços novas entradas. Lamego, o segundo maior concelho da região, foi o segundo município com mais processos (143) tratados. A maioria (83) diz respeito a novas referências. Cinfães é outro dos concelhos com mais episódios reportados. Em 2018 foram analisados 115 comunicações, 51 das quais novas.

Os municípios de Vila Nova de Paiva (14), Sernancelhe (16) e Aguiar da Beira (19), foram os que registaram um menor volume processual. São também estes os territórios que possuem menos crianças e jovens. Segundo a CNPDPCJ, nestes três concelhos viviam há dois anos menos de 900 menores.

Nos dados da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens salta, ainda, à atenção o facto de Moimenta da Beira e Sernancelhe serem os municípios com menos processos novos. Em 2018, a CPCJ de Sernancelhe sinalizou apenas quatro casos, que se juntaram aos 10 que tinham transitado do ano anterior. Em Moimenta da Beira foram detetadas cinco novas situações, tendo os serviços recebido 21 comunicações do ano anterior.

Já quanto aos processos reabertos, Viseu e Cinfães estão na linha da frente. Há cinco municípios que não contabilizaram qualquer reabertura, são eles Mortágua, Moimenta da Beira, Oliveira de Frades, Santa Comba Dão e Vila Nova de Paiva.

Os casos mais sinalizados nas CPCJ do distrito são referentes às problemáticas da negligência, comportamentos de perigo, abandono e maus tratos físicos. Em termos de género, o sexo feminino é o que está mais exposto a este tipo de situações.

A nível nacional e de acordo com a CNPDPCJ o número de situações de crianças em perigo tem-se mantido estável nos últimos três anos, ainda que na última década as comunicações de casos tenham aumentado 25 por cento. Dois mil e dezoito foi o ano em que mais cresceram os episódios de abandono, com 500 casos, sendo que pelo menos dez visavam bebés ou recém-nascidos.

Ouça e trabalhe ao mesmo tempo

Destaques

Podcasts