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Edição impressa: Padres idosos em paróquias envelhecidas

Edição de 14 de setembro de 2018
14-09-2018
 

Tem 83 anos, chama-se Nuno Amador e foi ordenado padre em 1958. O pároco está no concelho do Sátão, em Ferreira de Aves, uma das maiores paróquias da diocese de Viseu. A sua vida como padre começou no concelho de Carregal do Sal, passou também por Penalva do Castelo (Mareco) e há 52 anos que está em Ferreira de Aves. Ingressou no seminário com apenas dez anos porque, como diz, “desde muito novito” que pensava em ser padre.

“Lembro-me que o meu pai me perguntou se eu queria ir para o liceu ou para o seminário e respondi que preferia o seminário. E lá fui”, recorda, acrescentando que a família nunca o forçou a qualquer decisão. O padre Nuno Amador refere que nos dias atuais a frequência da comunidade na vida religiosa é menor e aponta dois fatores: a população que também é menos e mais envelhecida e, por outro lado, a comunicação social que na opinião do sacerdote transmite ideias negativas sobre a Igreja Católica. Com 83 anos o pároco confessa que as forças “já não são muitas” mas com a falta de sacerdotes “temos de ir aguentando”.

“Deus sempre me deu mais alegrias que sacrifícios”

Há mais de 50 anos no concelho de Mangualde onde exerce o sacerdócio em duas paróquias (Santiago de Cassurrães e Póvoa de Cervães), o padre Celestino Ferreira, que nasceu em 1938, fala numa “vida de sacrifícios” ao longo dos 57 anos de vida de padre. Foi ordenado em 1961 e nos cinco primeiros anos esteve ao serviço no Lar Escola de Santo António, em Viseu. Nos dias de hoje o que mais preocupa o pároco é a falta de pessoas nas aldeias. “Eu olho para as minhas paróquias e o que mais me aflige é ver que só há velhos porque as crianças não nascem. Falta gente e as paróquias estão a ficar mortas”, lamenta, acrescentando que a falta de “gente nova” também se reflete na prática religiosa.

O pároco de 80 anos lembra que ingressou no Seminário logo depois de ter terminado a escola primária. “Achei que era um caminho que valia a pena seguir”, recorda. O padre Celestino diz ainda que a família nunca o pressionou para seguir a Igreja mas “também nunca me proibiram, antes pelo contrário. Ficaram muito felizes”. Depois de quase seis décadas de sacerdócio, o pároco confessa ao Jornal do Centro que gostaria de estar já “a descansar” mas admite que a falta de padres retarda essa decisão e teme pelo futuro de algumas paróquias. Há casos em que um padre é responsável por cinco ou seis, o que na opinião de Celestino Ferreira provoca “muito stress”. Olhando para trás diz que não está arrependido do caminho que seguiu. “Deus sempre me deu mais alegrias que sacrifícios”, conclui.

Na diocese de Lamego a idade dos padres também não passa despercebida

É o caso de José Amorim, pároco em Quintela da Lapa, no concelho de Sernancelhe, nascido em 1930. O também reitor do Santuário da Lapa tem 88 anos, foi ordenado em 1956 e passou por três paróquias da diocese de Lamego. Iniciou actividade no concelho de Tabuaço, onde esteve 14 anos, passou por Ferreirim, em Sernancelhe, durante 23 anos, e há 24 anos que está em Quintela da Lapa.

Ao Jornal do Centro o reitor disse que desde sempre teve vontade de ser sacerdote e realça a devoção da família, (duas irmãs também seguiram a vida religiosa), que o ajudou a tomar a decisão aos 12 anos, altura em que ingressou no seminário. Comparando com antigamente, o padre José Amorim considera que nos dias de hoje a afluência à Igreja é cada vez menor e dá o exemplo do Santuário da Lapa onde os visitantes “são mais turistas do que peregrinos”.

Quanto ao futuro, diz que na vida do sacerdócio os padres mostram-se sempre disponíveis para a Igreja e que não há lugar à reforma. “Vamos tendo atividade dentro das nossas possibilidades”, conta, acrescentando que já fez o pedido de afastamento ao Bispo, embora se sinta realizado com o que faz. “Sinto que segui o caminho que Deus quis para mim e não me arrependo”.

Padre há 67 anos

Na diocese de Lamego outro exemplo de longevidade no sacerdócio é o padre Ildo Silva de 94 anos. Foi ordenado em 1951 e é responsável por duas paróquias: Chavães e Arcos no concelho de Tabuaço. Por motivos de saúde não se mostrou disponível para falar com o Jornal do Centro.

Os padres mais novos são o futuro

Depois de querer ser veterinário, ter namorada e ter um emprego estável durante cinco anos, Paulo Domingues, natural do concelho de Oliveira de Frades, decidiu “abraçar” a Igreja. Entrou para o seminário em 2011 e no dia 25 de junho de 2017 foi ordenado padre. Desde o primeiro dia que é responsável pelas paróquias de Cunha Baixa e de Mesquitela, no concelho de Mangualde. Tem 31 anos e considera que “seguir a Cristo implica doar a nossa própria vida” e fazer escolhas. Foi o que fez quando optou pelo seminário depois de precisar de cerca de dois anos para ter a certeza do que queria para o futuro.

Paulo Domingues confessa que o primeiro ano de seminário “não foi fácil mas as dificuldades foram-me fortalecendo e vi que o caminho tinha sentido”. Pouco mais de um ano depois, o padre não tem dúvidas que o seu futuro passa pelo “ministério” ao serviço de Deus.

Queria ser enfermeiro mas o “chamamento” não deixou

Ao lado de um percurso na área da saúde passou também André Silva, de 26 anos, pároco no concelho de Aguiar da Beira. Ordenado em junho de 2017 exerce atividade em seis paróquias e dá apoio em mais quatro. O “chamamento” pelo sacerdócio aconteceu por volta dos 15 anos mas nessa altura André Silva, natural de Canas de Senhorim, pensava que era “uma ideia peregrina” e não deu grande importância.

Depois de um tempo de indecisão acabou por perceber, no momento em que recebeu o sacramento do Crisma, que o seu futuro passava pela Igreja. O padre realça o apoio da família apesar da surpresa inicial. André Silva desde muito novo que mostrava vontade de ser enfermeiro e de repente “digo que quero ser padre”. Há pouco mais de um ano que é pároco e num primeiro balanço diz que a realidade que vive vai ao encontro, “em pleno”, das expetativas que tinha. “Está a ser uma experiência muito boa e fui muito bem acolhido nas comunidades”, conta.

Quanto ao futuro, o padre André Silva não tem dúvidas que é na Igreja que pretende continuar.





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