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Edição impressa: querem sair da dependência... "talvez um dia com o tempo"

Edição de 15 de novembro de 2019
15-11-2019
 

Falar é, muitas vezes relembrar. “E a gente não gosta disso”, mas tanto Ana como Raquel não se importam de contar - no que podem - o percurso que começou no consumo de drogas, que as levou à prostituição e à necessidade de procurar na metadona o substituto da heroína. Uma das drogas, juntamente com a cocaína que, por dia, lhes consumia 100 a 200 euros. Paulo também gosta de conversar. É desta forma que humanizam um problema que sabem ter. Tal como Ana, Raquel é utente do Centro de Respostas Integradas (CRI). Depois de vários anos de dependência da heroína, hoje o vício é substituído pela metadona, mas ainda existe a cocaína. “Maldita a hora que escolhi aquilo. Gostava de me ver limpo, mas duvido. Já são muitos anos, mas era isso que queria”, desabafa.

É com uma certa normalidade, quase como uma forma de “expiação”, que falam da sua dependência das drogas, dos altos e baixos e das vezes “quase sem conta” que já quiseram deixar esta vida. “Não devia ter ido para o Porto. Aquilo era muita coisa e comecei na pica”, confessa Raquel.

“Eu, na primeira vez nem gostei. Mas depois fui à segunda, à terceira... isto começou entre amigos, uma pessoa nunca vai sozinha né”, conta Paulo que nos intervalos de arrumar carros gosta de ler jornais e viajar na internet. Consciente da sua condição, diz que se sente mais “aliviado” porque sabe que hoje em dia os jovens têm mais informação, veem mais exemplos, e “já não seguem tanto pelo caminho da heroína”.

Faladora, Raquel assume que gosta de cumprir com os compromissos, mas nem sempre tem “o poder do tempo” nas suas mãos. Nas conversas que manteve com a reportagem do Jornal do Centro, entre telefonemas e visitas aos locais que mais frequenta, falou das necessidades do dia a dia, da roupa e do calçado que precisa e da ajuda que tem da Cáritas onde come e cuida da sua higiene pessoal. “Podemos ir conversar até tua casa”, perguntamos. Raquel até nem se importava, mas “é uma situação complicada”. Os dias, quando não falha, admite, são passados entre ir tomar a sua dose diária de metadona ao Centro de Respostas Integradas de Viseu e fazer dinheiro para a cocaína que ainda continua a consumir.

Ana também decidiu, há cerca de meio ano, que precisava de fazer o tratamento com a substância que é chamada de “droga boa” - tem um efeito mais prolongado que a heroína, pelo que é só tomada apenas uma vez por dia e sem que a pessoa tenha sintomas de “ressaca”. “Fui por vontade própria. Como hei-de explicar... não tinha dinheiro para andar sempre a consumir e meti-me na metadona que é mesmo assim”, diz, enquanto encolhe os ombros. Há sinceridade nos olhos inquietos que observam tudo à volta. Talvez por receio, talvez por incómodo, talvez porque sabe que enquanto está a falar com a nossa reportagem há oportunidades que pode estar a perder.

Ao CRI diz que vai duas vezes por semana onde, além de lhe ser administrada a metadona, é também consultada por uma médica e psicóloga. Tem um quarto que consegue pagar. “A mim não falta nada, eu quero é curar-me e ficar bem. Talvez um dia com o tempo”. Como tudo começou... “é uma coisa que eu não gosto de falar”. Raquel diz o mesmo.

"Quando se fala de dependências, fala-se de pessoas"

São quase 9h00 de quarta-feira. O gabinete de enfermagem do CRI já está aberto. É dos dias mais calmos, a meio da semana. As segundas-feiras e as sextas são mais “agitadas” e muitos dos utentes chegam uma hora antes de abrir o serviço. Nesta quarta-feira, Zé foi o primeiro a chegar, depois de uma noite de trabalho como padeiro. Antes de ir descansar, toma a sua dose. Pouco depois, chegam mais dois amigos, juntos, de carro. E vão chegando outros e outros. E até às 10h00 é assim. Este é o primeiro período para a toma da metadona. O segundo é entre o meio-dia e as 14h00, mas tem “menos procura”.

Ana, Raquel e Paulo são alguns dos utentes do CRI. É aqui que, todos os dias, logo pela manhã, se juntam várias pessoas prontas para receber a sua dose de metadona. Umas vão por iniciativa própria, outras foram encaminhados pela Comissão para a Dissuasão da Toxicodependência.

“Quando se fala de dependências, fala-se de pessoas”. E são essas pessoas que merecem a atenção dos vários técnicos que diariamente trabalham no CRI e de outras entidades que estão no tratamento e na prevenção de dependências. Há 20 anos foi lançada a Estratégia Nacional de Luta Contra a Droga (ENLCD), hoje “verificamos o sucesso” deste programa, assume Patrícia Monteiro, responsável pelo CRI de Viseu, que abrange 15 concelhos e faz o acompanhamento a quase 1000 utentes, não todos dependentes de drogas ilícitas.

Os ganhos traduzem-se a vários níveis, entre eles a redução de consumo na população, principalmente da heroína, em alguns casos e através da prevenção, a redução de pessoas infetadas com o vírus HIV e, acima de tudo, sublinha Patrícia Monteiro, os ganhos ao nível de saúde pública com estas pessoas a serem tratadas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O caminho, lembrou o psicólogo Joaquim Rodrigues, que foi um dos rostos da então comissão que elaborou a ELNCD, era “colocar as pessoas na prisão ou em contacto com o SNS. Neste momento, ninguém questiona que este é o caminho, embora ainda haja muito por fazer”, resumiu no encontro que reuniu em Viseu e assinalou os 20 anos do plano vários especialistas ligados à problemática da dependência.

E as preocupações que estavam no plano há 20 anos não são as mesmas de agora. “Temos novos desafios no futuro. Há toda uma panóplia de substâncias manipuladas que estão a ser cada vez mais consumidas e que ainda nem se sabem o que são. São drogas populares entre os jovens”, esclarece Patrícia Monteiro.

O consumo de heroína baixou e no CRI, por exemplo, no âmbito desta droga, muitos dos casos são de remissão. “Há todo um trabalho que é feito ao nível da intervenção, no contexto laboral ou nas escolas, intervenções direcionadas. É um trabalho comunitário. O CRI de Viseu tem aumentado o seu número de utentes, mas não quer dizer que tenha aumentado, por exemplo, o consumo. Há mais pessoas a procurar-nos”, realça. 

As outras dependências

Os utentes do Centro de Respostas Integradas de Viseu não são todos dependentes de substâncias ilícitas. Há quem esteja em tratamento por causa do alcoolismo, onde há um “consumo excessivo e problemático por parte dos jovens, e também quem já necessite de intervenção por causa do jogo e da internet. Depois há uma predominância de consumidores sem habituação/dependência e os que são conhecidos pelo consumo de polidrogas (combinação de várias substâncias). São os consumidores não toxicodependentes que, referenciados pelas forças de segurança ou pelos tribunais, têm também à sua disposição acompanhamento.

As forças de segurança assumem-se como parceiros estratégicos no combate ao consumo e à prevenção de drogas ilícitas. “Os últimos anos mostraram que fazemos parte de uma estratégia correta. Não está tudo feito ou resolvido, até porque atualmente o consumo está a mudar e é importante que o trabalho continue enquanto parceiros”, realçou o comandante da GNR de Viseu, Vítor Rodrigues.

A canábis continua a ser a droga mais consumida e aquela que dá origem a mais apreensões e detenções. Mas, a cocaína também já entra nos “números” estatísticos, assim como as chamadas drogas recreativas “que, normalmente, se associam às festas ou festivais”, como explica um elemento da PSP.

Para o professor e vice-reitor da Universidade Lusófona Carlos Poiares, “a droga é um problema de saúde pública, que requer prevenção”, esteja ela “no Ministério da Justiça, no Ministério da Saúde ou no Ministério da Higiene”.

“Se nós em Portugal nos podemos orgulhar de alguma coisa é do grande trabalho que se fez de prevenção do consumo das drogas nas escolas, nas ruas, nas universidades, em todo o lado”, realçou durante o colóquio realizado em Viseu, acrescentando que é essa prevenção que tem de continuar a mobilizar os portugueses.

Carlos Poiares destacou o papel das Comissões para a Dissuasão da Toxicodependência (CDT), que “são plataformas de prevenção de riscos e de danos”.

O médico João Goulão, que integrou a comissão que elaborou a ENLCD e é o diretor geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, lembrou os “rios de dinheiro” que se gastaram no passado em prevenção.

“Hoje faz-se pouco (na prevenção) para o que devíamos fazer, mas faz-se de forma muito mais eficaz do que se fazia com ‘spots’ publicitários”, considerou o também coordenador nacional para os Problemas da Droga, das Toxicodependências e do Uso Nocivo do Álcool. 

Casas abandonadas

A questão da toxicodependência em Viseu tem sido alvo de notícias nos últimos meses com chamadas de atenção para locais ocupados por consumidores. Sem abrigo ou apenas porque precisam de um sítio longe dos olhares da sociedade, as casas abandonadas acabam por ser o refúgio. Os locais estão sinalizados e são conhecidos quer pelos cidadãos quer pelas forças de segurança.

Há cerca de um mês, o Jornal do Centro dava conta das entradas e saídas de uma casa devoluta na Rua Serpa Pinto. Já esta semana, verificou-se que as possíveis entradas foram vedadas. “Nós víamo-los a andar por aí. Sempre foram muito bem educados e só ocuparam esta casa porque não têm mais para onde ir”, contou ao Jornal do Centro uma moradora da rua. O problema, na opinião desta habitante e das amigas que entretanto se juntaram à conversa reside em dois factos: por um lado, “os proprietários que deixam as casas maltratadas, em ruínas, muitos porque não têm dinheiro para as recuperar”, por outro, “porque não há um sítio onde estas pessoas se possam juntar”. “Em Lisboa, por exemplo, há salas de chuto”, rematou a moradora.

Muitas das casas devolutas e referenciadas como ocupadas por toxicodependentes estão agora com cadeados para impedir a entrada. Mas, não impedem que, por exemplo, continuem a ser “depósito” de lixos domésticos.

Detidos pela PSP no âmbito da prevenção e controle do consumo de estupefacientes

2018 - 14

2019 - 17

Operações

2018 - 12

2019 - 15

(números até outubro de 2019 e período homológo de 2018)





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