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Escolas sem dinheiro para salvar vidas

Edição de 30 de agosto de 2019
30-08-2019
 

Nenhuma escola básica da cidade de Viseu está equipada com desfibrilhadores, um aparelho que permite salvar vidas em caso de paragem cardiorrespiratória. Para inverter a situação, os estabelecimentos de ensino precisam de contratar uma entidade certificada para implementar o Plano Nacional de Desfibrilhação Automática Externa.

São várias as entidades que estão acreditadas pelo INEM para dar formação e habilitar pessoal a operar um desfibrilhador, como por exemplo a Cruz Vermelha. Mas este processo exige uma série de medidas e tem custos associados.

A generalidade dos diretores dos agrupamentos de escolas de Viseu garantiu ao Jornal do Centro já ter ponderado a aquisição do dispositivo e a implementação do plano, mas por falta de verba tiveram que adiar essa vontade.

Nos Agrupamentos Infante D. Henrique, Mundão, Grão Vasco, Viso e Viseu Norte apenas foi assegurada a formação em primeiros socorros e suporte básico de vida aos funcionários e professores das escolas.

O diretor do Agrupamento de Escolas Viseu Norte, José Alexandre, diz que “já foi feita a reflexão sobre a importância do aparelho, mas como as escolas são pobres” e o Ministério da Educação não dá resposta aos sucessivos pedidos, a aquisição de desfibrilhadores continua na gaveta. A direção do Agrupamento de Escolas Grão Vasco também aponta a falta de recursos como o principal fator para ainda não ter comprado uma máquina do género. A diretora da instituição de ensino, Inês Campos, fala também do receio de assumir uma competência que acredita ser das entidades que estão ligadas ao setor da saúde.

No Agrupamento de Escolas de Mangualde o plano de desfibrilhação já se encontra implementado. No ano passado foi utilizado por um dos professores para salvar a vida de um aluno da escola.

Alves Martins, a primeira e única com equipamento

Nas escolas secundárias da cidade de Viseu apenas a Alves Martins possui um plano de desfibrilhação implementado. Segundo o diretor da escola, Adelino Azevedo Pinto, o estabelecimento de ensino “foi a primeira escola do país a ter um desfibrilhador, faz quase 10 anos. Em todo a instituição existem 12 pessoas habilitadas a operá-lo”.

A Secundária Emídio Navarro ainda não possui desfibrilhador. O diretor, José Rosa, diz que já fez o pedido ao Ministério da Educação, mas ainda não obteve resposta. Na Secundária de Viriato, o diretor Pedro Ribeiro revela que já foram pedidos orçamentos a diversas entidades.

Na Profissional de Torredeita, a diretora Célia Franco assegura que apesar de a escola não possuir um desfibrilhador a situação está contornada. Como o estabelecimento de ensino está associado ao lar de terceira idade, o desfibrilhador existente pode ser utilizado pelos cinco funcionários da instituição que estão habilitados a fazê-lo.

A utilização do aparelho está sujeita a regras, desde logo é preciso formação. Cada operador habilitado só está autorizado a utilizar os dispositivos que tenham sido instalados pela entidade da qual recebeu formação, ou seja, não estão aptos para usar os equipamento.

"Só posso desfibrilhar" alguns aparelhos

O presidente da Cruz Vermelha do Vale do Dão explica que a legislação em vigor considera “o ato de desfibrilhação, um ato médico”. Dílio Francisco esclarece que cada entidade acreditada pelo INEM para implementar o Plano Nacional de Desfibrilhação Automática Externa tem um médico supervisor que delega nas pessoas que obtiveram a formação a competência de desfibrilhar. E dá o seu exemplo: “sou formador, mas só posso desfibrilhar com aparelhos licenciados pelo plano da Cruz Vermelha”.

“Se não tiver feito a formação com a mesma entidade, o médico responsável não me reconhece a mim como habilitado a trabalhar em nome dele, ou seja, se for um plano de outra entidade, com outro médico responsável, não estou autorizado a utilizá-lo. Só posso desfibrilhar com aparelhos afetos ao plano implementado pela Cruz Vermelha”, salienta.

Dílio Francisco acrescenta que apesar de em termos legais não ser permitido operar um desfibrilhador de outra instituição sem autorização, “em última instância” enquanto operacional de Desfibrilhação Automática Externa (DAE) poderá contrariar essa regra, se em causa estiver a vida humana.

Para o responsável, era importante que a nível local o plano nas escolas fosse todo implementado pela mesma entidade para que todos estivessem inseridos no mesmo plano, dando como exemplo o caso da Universidade Católica de Viseu que implementou o plano com a Cruz Vermelha e qualquer elemento da entidade com formação DAE pode operar os mesmos dispositivos “pois estão sob a alçada do mesmo plano”.

Custos

Na Cruz Vermelha a formação e certificação de seis operacionais custa 360 euros. A implementação do dispositivo 1.600 euros mais IVA e a manutenção ronda os 30 euros mensais.

Segundo o responsável da Cruz Vermelha, o plano de desfibrilhação tem sido procurado por um conjunto alargado de empresas e por algumas pessoas a título individual. Quanto às escolas públicas, revela que ainda não há nenhum estabelecimento que tenha procurado a organização para implementar o plano.

Francisco Dílio acredita que os custos associados podem trazer constrangimentos aos estabelecimentos de ensino.

DAE gratuitos

Loca lizada em Tondela, a Safetyforma é uma empresa que tem o seu foco principal na formação em emergência médica e implementação de programas DAE.

A empresa criou a campanha “Salvar uma vida está nas suas mãos” que tem como objetivo ajudar entidades como escolas, instituições particulares de solidariedade social, clubes, e outras entidades a implementar o Programa de Desfibrilhação Automática Externa nas suas instalações, de forma gratuita. O Lusitano Futebol Clube, o Viseu 2001, o Grupo Desportivo Recreativo de Canas de Senhorim, O Pinguinzinho (Santa Comba Dão), a Cáritas Paroquial de Santa Maria de Viseu são algumas das instituições que aderiram à ação. Segundo Natacha Carvalho, formadora na empresa, a campanha “Salvar uma vida está nas suas mãos” pretende “possibilitar nas instituições, o reforço da cadeia de sobrevivência assim como potenciar a prática da desfibrilhação com DAE, visando o aumento da taxa de sobrevivência por morte súbita causada por fibrilhação ventricular e contribuir para uma sociedade mais informada”.

Uma decisão que pode salvar vidas

O Agrupamento de Escolas de Mangualde integra o grupo de instituições de ensino que apostaram nos equipamentos. São três aparelhos, um para cada escola.

Foi em 2016, depois de conhecer o caso da morte de um aluno de uma escola do norte do país, que o diretor, Agnelo Figueiredo, decidiu avançar para a compra dos desfibrilhadores e para a respetiva formação. Equipamentos que custaram mais de 2600 euros. Cerca de 30 pessoas, entre funcionários e professores, fizeram formação de Suporte Básico de Vida com Desfibrilhação Automática Externa (DAE), certificado pelo INEM, aumentando o investimento para os cinco mil euros.

Formação que segundo Agnelo Figueiredo, presidente do Agrupamento de Escolas, é atualizada todos os anos com a realização de vários exercícios.

Formação que em junho de 2018 ajudou a salvar a vida a um aluno da Escola Secundária do concelho mangualdense. O jovem, de 17 anos, estava no balneário do ginásio da escola quando se sentiu mal e caiu inanimado. O responsável recorda que o pânico se instalou junto dos colegas que estavam com o rapaz e chamaram o professor de Educação Física, um dos docentes que tinha realizado formação de Suporte Básico de Vida com DAE. Perante a situação de paragem cardiorrespiratória, o professor “começou a fazer manobras de reanimação, ligou para o 112 e pediu que fossem buscar o desfibrilhador” da escola, com o qual estabilizou a situação, conseguindo ritmo cardíaco no aluno, até à chegada do INEM. Nessa altura, o jovem foi encaminhado para o hospital onde permaneceu internado cerca de um ano em recuperação.

Segundo Agnelo Figueiredo, apesar da situação, o aluno terminou este ano o ensino secundário com “bom aproveitamento”.

A importância da desfibrilhação

Perante uma paragem cardiorrespiratória (PCR) o único tratamento eficaz é a desfibrilhação elétrica. Por isso, salvar a vida de uma vítima de PCR em ambiente extra-hospitalar pode depender exclusivamente da existência de um Desfibrilhador Automático Externo (DAE). Os aparelhos DAE são leves, portáteis, seguros e de fácil utilização. Analisam automaticamente o ritmo cardíaco e determinam se a desfibrilhação é aconselhável.

Os desfibrilhadores são dispositivos que seguem os protocolos de uma forma autossuficiente, sendo capazes de alertar para as condições de segurança e assinalam os passos a seguir. As descargas elétricas são produzidas automaticamente ou sob o comando de um operador.

Segundo o INEM, várias instituições privadas e públicas, preocupadas em melhorar a resposta a eventuais casos de paragem cardiorrespiratória, adquiriram ou pretendem adquirir desfibrilhadores para os colocarem nas suas instalações ou viaturas.





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