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Faltam meios para combater a vespa asiática

Edição de 6 de setembro de 2019
06-09-2019
 

O presidente da Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, Vítor Figueiredo, lança o alerta. Neste momento, já não há pessoas suficientes para matar tantas vespas.

“Já exterminámos centenas de ninhos, oficialmente já são mais de 300”, conta. Vítor Figueiredo diz que o combate aos ninhos está a ser feito voluntariamente por funcionários da Câmara Municipal. “Não podemos obrigá-los a correrem este risco. Dois já foram picados e tiveram que receber tratamento médico”, afirma.

O autarca explica que a destruição dos ninhos é um trabalho que só pode ser feito à noite. “Teremos que ser todos a contribuir, uma vez que todos somos proteção civil”, sublinha o presidente.

Da administração central, Vítor Figueiredo espera que venham orientações para as autarquias no sentido de indicarem qual é a melhor maneira para extinguir os ninhos. “Ainda não temos conhecimento de qual é o método mais eficaz para combatermos esta praga. Em abril tínhamos a situação dominada mas neste momento temos cerca de 50 ninhos para destruir”, conta. O presidente garante que dado ao elevado número de casos está a ser dada prioridade aos ninhos perto das habitações.

Viseu é o terceiro distrito com mais denúncias

Segundo dados da GNR, em 2019 foram denunciadas, até agosto, 90 situações quando, no ano anterior, foram apenas 40, o que faz com que Viseu seja o terceiro distrito do país onde a GNR mais registos tem da presença de vespa asiática em Portugal. Já os dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas apontam para mais de 600 casos entre 2015 e 2018.

De acordo com António Dias, da GNR, de Viseu, a vespa velutina é uma praga que não é facilmente eliminável. A maior dificuldade é a inacessibilidade aos ninhos.

A GNR recomenda que a deteção ou a suspeita de existência de ninhos ou de exemplares da vespa velutina seja comunicada através da linha SOS Ambiente e Território (808 200 520) e que com o apoio de todos os cidadãos a ameaça pode ser controlada.

Acrescenta que deve ser feita uma georreferenciação online do ninho ou dos exemplares de vespa e o preenchimento online de um formulário com informação sobre os mesmos, disponível no portal www.sosvespa.pt.

Segundo as indicações da GNR, a destruição dos ninhos deve ser feita por pessoal qualificado e com equipamento de proteção adequado.

A vespa velutina ou asiática é preta e com as patas amarelas e é muito agressiva na proteção do ninho. Se for vítima de “várias picadas”, ou “uma só picada” mas em pessoa alérgica, deve procurar ajuda e contactar de imediato o 112.

Mas existe ainda alguma incerteza em relação às medidas a tomar quando se encontra um ninho. Se ligar à GNR pode ser encaminhado para os Serviços Municipais de Proteção Civil e vice-versa. O Jornal do Centro recebeu a indicação de que em Tondela, por exemplo, um habitante contactou a GNR num final da tarde, depois de localizar um ninho de vespas, e foi encaminhado para a Câmara Municipal (serviços de proteção civil) que já não tinha ninguém disponível.

A autarquia, por sua vez, disse para ligar para a GNR de Viseu. No Comando da GNR de Viseu foi lhe dito que a equipa SEPNA só atua das nove da manhã às oito da noite.

Produtores de mel já pensam em desistir

Bruno Maia, apicultor de Tondela, diz-se ativo na procura de ninhos de vespas asiáticas. Tem encontrado alguns, mas “não tantos como desejava” e diz cumprir “sempre o que está definido pelas autoridades”.

Quanto ao combate a esta praga, o apicultor acredita que dada a expansão que a vespa velutina está a ter no país, ainda não se deu a devida importância a este problema. Bruno Maia diz que a plataforma SOS-Vespa devia ser uma aplicação onde constasse a informação de onde existem os ninho e qual o seu estado, o que não tem se verificado, uma vez que está constantemente indisponível.

“Devíamos olhar para isto como um problema de saúde pública” e dá uma sugestão: “tendo em conta que quem elimina o ninho recebe, e bem, porque não premiar também quem os encontra”.

Catarina Ribeiro é a diretora da Cooperativa Agrícola e Apícola das Beiras (Coopbei) e conta que na zona Centro a vespa asiática está a causar um impacto significativo na produção de mel. “Agora que chegou à capital ficou tudo aflito mas, em dois anos, já fez muitos estragos e há apicultores a pensarem em desistir”, conta.

Na sua opinião, o combate só terminará com a adaptação. “Como todas as pragas vamos ter que aprender a viver com elas e contar com a adaptação dos próprios ecossistemas, mas devia haver apoio aos apicultores como existe para outras áreas da agricultura”, sugere.

Rafael Guimarães é técnico superior apícula na Associação de Apicultores da Beira Alta. A associação presta apoio técnico aos apicultores que, com os incêndios, as alterações climáticas e com esta nova agressão, estão a ter uma diminuição considerável na produção de mel e de subprodutos da apicultura.

“Tem sido preciso alimentar as colónias uma vez que as abelhas não saem com medo das vespas. Ou alimentamos ou elas morrem à fome, o que representa um acréscimo de despesa com as abelhas e encarece o mel”, explica o especialista.

“Vivem-se tempos difíceis na apicultura, mas também temos que ter em conta os impactos na agricultura, em geral, pois a vespa, com as suas mandíbulas, fura a fruta e a partir do momento que a fruta está picada está vulnerável a todos os outros insetos”, explica.

O engenheiro conta que estão a ser feitas várias tentativas para controlar a praga, como a colocação de túneis eletrificados, mas “o melhor é trabalhar na antecipação, colocando bastante armadilhas para apanhar o maior número de fundadoras possíveis”.

Esclarece que entre outubro e novembro as vespas fundadoras, que já estão fecundadas, vão hibernar em esconderijos (buracos nas paredes ou árvores) e que em março saem da hibernação para construir os ninhos. É nesta altura que se devem colocar as armadilhas que consistem em garrafas, com um atrativo a base de groselha, vinho branco e cerveja.

“A vespa, que tem de alimentar as larvas, precisa sair do ninho e é nessa altura que temos que capturá-la. Sem ela o ninho morre”, sustenta.

"Receio que isto se torne um negócio"

Para Rafael Guimarães, o governo acordou tarde para o problema. “Fizeram-se muitos estudos em vez de atuar logo no combate. Só no ano passado é que saiu uma portaria com um envelope financeiro de um milhão de euros, por parte do Ministério da Agricultura, que agora já foi reforçado, mas já veio tarde, e só veio quando a vespa chegou a Lisboa. Sei que existem municípios a recorrer a empresas privadas e receio que isto se torne um negócio”, confessa.

Segundo o especialista, estava a ser desenvolvido um trabalho de investigação pela Universidade do Minho, uma espécie de cavalo de tróia automático em que a própria vespa levava para o ninho granulos nocivos à espécie, mas já não há dinheiro para continuar com a investigação.

“É preciso mais investimento na área da investigação para chegarmos o quanto antes a uma solução, mas serão precisos pelo menos meia dúzia de anos”, afirma.

O engenheiro explica que são necessários pelo menos dez anos para que os ecossistemas se adaptem às espécies invasoras. Por enquanto, a vespa asiática não têm predadores naturais.

“Todo o processo pode demorar até 30 anos e quantos mais milhões terão que ser gastos pelos apicultores para fazer face a algo que se tivesse sido logo combatido não teria chegado a esta situação? E quantas vidas poderão perder-se no processo?”, questiona.





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