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Fernando Ruas: "Nunca estive, nem quero estar dependente de quem quer seja"

Edição de 12 de abril de 2019
12-04-2019
 

O PSD de Rui Rio não cumpriu a promessa de Pedro Passos Coelho de Fernando Ruas fazer dois mandatos como eurodeputado. O antigo autarca de Viseu estará agora a preparar as malas para ser candidato à Assembleia da República. Na hora da saída de Estrasburgo contesta um estudo que o coloca como um dos piores deputados portugueses. “Posso ser incompetente, mas não aceito o rótulo de faltoso”, reage de forma clara contra uma organização que dá boas notas a quem “paga”.

Um estudo efetuado pelo MEP - MARKETING, site que analisa o trabalho dos deputados no Parlamento Europeu desde 2009, coloca Fernando Ruas na penúltima posição entre os 21 eleitos por Portugal. Uma situação pouco agradável para final de mandato?

Poderia começar por dizer que é uma apresentação de dados sem qualquer legitimidade. É de uma instituição, uma ONG - Organização Não Governamental, instalada em Barcelona, que faz a classificação do trabalho dos deputados europeus como muito bem entende e com critérios que ninguém conhece e que altera conforme lhe apetece. Até meio do atual mandato, que estamos a cumprir, aparecia sempre nos lugares cimeiros e de repente passo para o fundo da tabela.

E porquê essa alteração?

Ao que dizem foi para dar resposta e valorizar os coordenadores dos grupos de trabalho, dos chefes de delegação e outros cargos semelhantes, que até aí não tinham uma classificação muito satisfatória. Por isso é que não dou nenhuma importância às classificações desse site…

Importante ou não essas classificações têm aparecido nos jornais portugueses e também no resto da Europa...

É natural que seja divulgada por quem agora surge nos lugares da frente. Até meio do mandato ninguém ouvia falar dessas classificações porque quem o promoveu agora, na altura, estava mal classificado…

É natural que seja divulgado por quem está bem no estudo…

Mas já não é normal que os responsáveis do site confrontados com reparos de alguém que lhe diz que fez 50 intervenções e não dez como escreveram, receba como resposta que dão prioridade à atualização de dados a quem os ajuda financeiramente…

Alguma vez lhe pediram pagamento?

Tenho isso escrito. Pediram desta forma subtil. Se quisesse ver corrigidas as informações que constavam do site teria que os ajudar financeiramente. Eu nisso não alinho….

Essas alterações favoráveis aos coordenadores e chefes de delegação e a publicação nos jornais surge nesta altura por causa da proximidade das eleições europeias?

Não tenho dúvidas, mas as classificações de hoje podem ser alteradas até maio, mês das eleições. Basta que alterem os parâmetros de análise, como já o fizeram, e que parece ser muito fácil para quem gere este site.

No levantamento feito por esta organização entre os vários parâmetros avaliados está o da assiduidade. Também aqui a apreciação não é muito favorável...

Eu só aparecia mal nesse parâmetro porque quem fez a primeira divulgação juntou tudo. Se não fosse essa situação de quererem passar a ideia de que tenho uma fraca assiduidade no Parlamento nem me preocupava em falar deste estudo que, como disse, não me merece credibilidade. Agora não posso deixar passar essa ideia de que falto aos meus compromissos. Desafio qualquer deputado português a provar que é mais assíduo que eu e isso é fácil de comprovar. Basta consultar o registo central de faltas do Parlamento Europeu…

Quantas faltas tem?

Só por estar em serviço do Parlamento Europeu.
Até podiam considerar que eu sou um deputado incompetente, embora o tivessem que provar, agora dizerem que sou um deputado faltoso, isso não. Estão lá as minhas assinaturas.

Diz que a avaliação feita por este site não tem relevância. É por estar de saída do Parlamento Europeu?

Tive conhecimento destes rankings pelos meus assistentes. Quando aparecia bem colocado e foram muitas vezes também nunca o divulguei.

Se o estudo não é credível porque é que o próprio Parlamento não toma uma posição?

Diz que não tem nada a ver com a forma como os dados são recolhidos e avaliados.

Destes cinco anos que passou no Parlamento Europeu o que regista de mais positivo?

Da minha participação anterior como autarca no Comité das Regiões eu já conhecia relativamente bem o Parlamento Europeu. Não venho desiludido com o trabalho feito até porque fui dos poucos deputados portugueses que ficou na comissão que escolheu e que tratava de questões do desenvolvimento regional. É por aí que vem o dinheiro para os países. É importante que se continue a defender a atribuição de verbas a regiões menos desenvolvidas e definir onde vão ser gastas.

Há alguma posição que não tenha conseguido passar na comissão e que por isso esteja descontente?

Uma das minhas propostas, sobre a qual batalhei muito, era para que as nossas regiões de baixa densidade (concelhos do interior) passem a ter os mesmos benefícios das regiões ultraperiféricas. Nós temos duas, os Açores e Madeira, que só por serem classificadas ultraperiféricas recebem por ano 200 milhões de euros. Só assim foi possível terem o desenvolvimento que tiveram e já ultrapassaram, na classificação da União Europeia, as regiões norte e centro do continente. Espero que o deputado português que me substitua na Comissão de Desenvolvimento Regional, independentemente do partido que seja, continue a lutar por isto. Se deu resultado nos Açores e Madeira também dará bons resultados em zonas do interior ou de montanha.

Desiludido pelo seu partido, o PSD, não o levar na lista dos candidatos ao Parlamento Europeu?

Não. Já tinha mostrado essa disponibilidade…

Mas gostaria de continuar?

Não sei. Tenho outras perspetivas de vida. As viagens, duas vezes por semana, para Bruxelas, que no início até eram agradáveis começaram a ficar pesadas.

O seu partido não respeitou o compromisso que havia de fazer dois mandatos no Parlamento Europeu.

Não houve nenhum acordo…

Com o anterior líder Pedro Passos Coelho havia esse entendimento…

Não foi isso...

Houve o entendimento, quando foi para o Parlamento Europeu, há cinco anos, de ter atividade política por dez anos, portanto faltam cinco...

Mas é isso que eu vou cumprir. Esse compromisso não foi com o atual presidente do PSD. Já falei com Rui Rio e temos tudo resolvido. Como líder do partido tem toda a legitimidade para não me convidar. A partir do momento que apareceu o nome de uma jovem em segundo lugar da lista, eu já tinha decidido, mas percebi logo que não ia integrar a lista. Enquanto militante do PSD habituei-me a ser o partido a solicitar-me para as funções que tenho desempenhado…

Ninguém tem dúvidas que se Passos Coelho continuasse como líder do PSD o Dr. Fernando Ruas seria convidado para ir na lista para o Parlamento Europeu...

Também não tenho dúvidas. Falta é saber se eu queria continuar.

Aceitou como bom o argumento de Rui Rio de que não o convidava porque era necessário haver renovação?

Renovação! Só se foi em relação a mim. E quando se soube, do convite à jovem que vai em segundo, já tinha decidido que não aceitaria mesmo que me convidassem para fazer parte da lista.

Falarem consigo já depois da segunda lista estar anunciada é falta de consideração?

Não sabe quando falaram comigo e eu também não o vou revelar. O que lhe posso dizer é que Rui Rio na conversa que teve comigo foi extremamente correto. A conversa podia ter sido antes? Podia.

Podia e devia…

Bem, isso cada um tem o seu estilo, mas Rui Rio foi muito correto comigo.

Resolveu tudo com Rui Rio e acertou com ele que atividade política vai fazer nos próximos tempos? Um mandato na Assembleia da República que encaixa perfeitamente nos cinco anos que lhe faltam?

Esse tempo fui eu que o estabeleci, estou na atividade política, ir para Assembleia da República é uma possibilidade. Tal como ser presidente da junta, ou presidente, sei lá, de outra atividade autárquica qualquer.

Aceitou o convite para encabeçar a lista de deputados do PSD por Viseu à Assembleia da República?

Disso não falo. O que sei é que ainda não decidi por onde passa a minha futura atividade política.

Tem essa decisão para tomar. Ir ou não para deputado…

Não é só essa, é também onde vou continuar…

Mas essa também é fácil de perceber. O que é que está disponível?

Não tenho no meu currículo a passagem pela Assembleia da República, embora por duas vezes tenha sido candidato e eleito deputado.

O atual presidente da Câmara de Viseu disse que Rui Rio o devia convidar para cabeça de lista à Assembleia da República, até como prémio de consolação por não o manter no Parlamento Europeu. Seria um prémio justo?

Não comento afirmações do senhor presidente da Câmara, mas quem me conhece sabe que não vivo disso. Ninguém me leva por consolações. Nunca me pus em bicos de pés no partido e sempre fui solicitado. Nunca me fui disponibilizar ou pressionei para ter este ou aquele lugar. Sei que tenho uma costela de rural, mas não abandonarei esta postura. Nunca estive nem quero estar depende de quem quer que seja.

Agora que vai sair do Parlamento Europeu fica com mais tempo para estar atento ao que se passa no seu concelho de Viseu?

Atento sempre estive e espero continuar a estar, embora sem me imiscuir. Não tenho que o fazer e não o faço. Tenho as minhas análises…

E faz comentários com os amigos e pessoas conhecidas...

Naturalmente, como outros fazem dos meus mandatos.

Também lhe chegam os ecos de que os seus comentários por vezes “irritam” e incomodam o atual poder autárquico em Viseu?

Se assim é podem essas pessoas, que me conhecem, falar comigo e eu explico as minhas posições, mas penso que os meus comentários não chegam a isso. Propositadamente não o faço com essa intenção, mas também não é assunto que me incomode.

Com quem costuma falar dizem que se mostra preocupado com as contas do município…

Nem as vejo, o que faço é uma avaliação como outro cidadão qualquer. Teria outras prioridades? De certeza.
Dou um exemplo, se os Jardins Efémeros acabaram por falta de uma fatia de dinheiro, preferia por exemplo não alugar mais um stand durante o ano, mas isto não é uma crítica a ninguém…

Fica triste pelos Jardins Efémeros não se realizarem?

Fico triste como todos os viseenses. Tenho se calhar uma tristeza acrescida porque foi comigo que começaram. Eu não os deixaria acabar, é um facto. Mesmo a nível nacional houve muita gente a defender os Jardins Efémeros. Não poderia deixar acabar uma iniciativa que envolvia muito público e que era muito falada.

O que ainda lhe custa hoje não ter concretizado antes de sair da câmara?

Não tem nada a ver com a atual administração da autarquia, mas há três coisas que gostaria de ter feito. Alargar a entrada na cidade da Casa de Saúde até à Póvoa de Sobrinhos, alargar até à reta de Tondelinha, (saída por Figueiró), com ligação às Colinas Verdes (nas traseiras do RI14)...

Os vereadores do PS na Câmara de Viseu vieram defender a concretização das obras do antigo presidente Fernando Ruas que apontavam para o fecho da segunda circular. Surpreendido?

Têm bom gosto. Provavelmente se eu estivesse na Câmara seriam contra… (sorrisos)

Não recebeu o Viriato de Ouro, atribuído pelo município de Viseu, mas tem essa atribuição no currículo. Não é uma contradição?

Eu tenho o Viriato de Ouro, só não me foi entregue...

Ou não o foi receber...

Tenho muito orgulho no Viriato de Ouro que me foi atribuído por duas votações. Uma na Câmara e outra na Assembleia Municipal de Viseu.

Faz sentido o vencimento “generoso” dos Eurodeputados numa Europa e em Portugal onde há uma grande faixa da população que ganha o ordenado mínimo?

No nosso país será um ordenado generoso, mas já ouvi deputados de outros países a queixarem-se. Ninguém compreenderia que deputados com as mesmas funções, de países diferentes, tivessem vencimentos diferentes. Não seria possível. Não acho que seja desajustado em termos de vencimento. É confortável, principalmente pelas condições que nos são facultadas. O meu assessor principal ganha mais do que eu.





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