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Fogo ainda arde dois anos depois

Edição de 18 de outubro de 2019
18-10-2019
 

Oito famílias do distrito de Viseu ainda não estão a viver na nova casa que o Estado se prometeu a pagar depois da passagem dos incêndios em 2017 que reduziram a escombros e cinzas centenas de moradias na região.

O concelho com mais intervenções por fazer é o de Oliveira de Frades, onde ainda faltam arranjar três habitações, seguindo-se Tondela (duas) e depois Vouzela e Santa Comba Dão (ambos os municípios com uma).

A família Moreira, que habita em Alambique, no concelho tondelense, é das que está nesta situação. Perdeu a casa na tragédia. Estima ter tido um prejuízo a rondar os 55 mil euros. Apenas se conseguiu salvar a sala, que teve que ser deitada abaixo porque não oferecia segurança nas obras de requalificação que entretanto já começaram. Os trabalhos tiveram início em agosto e devem estar prontos lá para o início de 2020. Cristof Moreira, o chefe de família, gostava de poder passar já o Natal com os três filhos e a mulher debaixo de um novo teto.

Apesar de o fogo ter ocorrido há dois anos, e de não se encontrar a viver já na nova casa como tantas outras vítimas dos fogos, Cristof não se mostra irritado. Explica que a empreitada demorou a arrancar por causa da parte burocrática. “O terreno era dos meus sogros, tivemos que passar para o nosso nome e depois foram essas burocracias normais, licenças, escrituras, foi isso que demorou bastante, mas conseguimos ultrapassar isso”, refere.

Depois do fogo, a família de Cristof Moreira mudou-se para casa dos sogros que é mesmo ao lado da moradia que ardeu, mas como a habitação era pequena acabaram por decidir ir viver com os seus pais. Acompanha de perto as obras que estão agora a ser feitas e apesar da calamidade considera que a espera até “vai valer a pena”. “Vamos regressar ao nosso lar, ao nosso aconchego, à nossa vida de antigamente, [passados] dois, três anos, mas mais vale tarde do que nunca”, afirma.

Quem está mais irritado é Armando Roque, habitante de Treixedo, em Santa Comba Dão. Não se conforma com “a má” intervenção que foi feita na moradia onde vive com a mulher e o sogro. Critica os maus acabamentos, as caleiras mal postas, o chão de dentro de casa que levanta, as pinturas e até as portas que não fecham bem.

Considera que o empreiteiro que esteve em sua casa fez tudo à pressa. Por isso, anda sempre a corrigir, pelos próprios meios, as imperfeições da habitação para a colocar mais a seu gosto e também mais habitável.

Na frente da casa já tem um jardim que trata com cuidado e que possui uma bicicleta, ainda que ferrugenta e marcada pelas chamas, e que foi das poucas peças que conseguiu salvar do fogo, naquela noite em que “o diabo desceu à terra”. Para além da bicicleta, ficou com uns calções, que trazia vestidos no dia em que o encontrámos, de volta a casa a fazer o que fosse preciso também com a cabeça ocupada.

Na resposta a estas queixas, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) diz que “tem gestores de obra que acompanham a execução de todas as empreitadas” e realça que todas as famílias possuem “o contacto do gestor de obra da CCDRC e da respetiva Câmara Municipal, podendo a todo o momento solicitar o apoio para a solução e correção dos defeitos de obra, entretanto detetados, que, normalmente, surgem com a alteração das condições de humidade e temperatura”.

Já a presidente do organismo, Ana Abrunhosa, recém-nomeada ministra da Coesão Territorial, um novo ministério criado pelo Governo, sublinha que mais de 95 por cento das casas destruídas na região durante os incêndios de outubro 2017 estão concluídas e entregues às famílias. Faltavam devolver as chaves de 30 moradias. “Dois anos depois, no programa de reconstrução das habitações [permanentes], temos incluídas 822 casas e dessas estão concluídas 792, cerca de 96,5 por cento”, afirma, mostrando-se satisfeita com estes números. “Foi um trabalho de loucos, que virou obsessão e nos tomava os pensamentos de todos os minutos do dia. Um trabalho duríssimo porque estávamos a falar da vida das pessoas e não teria sido possível sem a extraordinária equipa da CCDRC, das equipas e dos presidentes de Câmara”, sustenta.

Das casas que faltam reerguer uma vai ser feita pela CCDRC e as restantes 29 serão da responsabilidade das famílias. Ana Abrunhosa explica que o processo de reconstrução foi atrasado por questões de “titularidade e de legalidade urbanística”. “Quando estas situações se resolveram nós fizemos as aprovações do apoio às famílias. A esmagadora maioria ficará concluída ainda no final do ano, mas ainda haverá habitações que passarão para 2020”, refere, rejeitando que o processo tenha sido conduzido de forma lenta. 

Traumas gravados a fogo

Os incêndios continuam gravados na memória de muitas das vítimas. A Armando Roque tudo o faz lembrar o dia da calamidade. Até quando a eletricidade falha há medo. “Falta a luz à noite e a nossa mente vai logo lá virada. Às vezes é de noite e eu levanto-me a pensar que cá fora está tudo a arder. Por exemplo, a minha cadelita assim que falta a luz de noite ninguém a cala. Ela vem para a porta, chora, não é a ladrar, ela chora mesmo. Até ela que é um animal apanhou um trauma”, diz.

As vítimas continuam traumatizadas. Muitas nunca pediram apoio. Outras fizeram-no e continuam a ser acompanhadas de perto por profissionais. É o que acontece em Mortágua, onde uma equipa de psicólogos do município mantém a “vigilância” e ajuda a quem perdeu familiares e bens na fúria das chamas.

“Passado este tempo ainda recebemos pessoas a chorar porque hoje não têm uma recordação do passado. Não têm uma fotografia de quando eram pequeninos, nem dos netos, nem dos filhos, nem de nada. Esses casos são os mais difíceis porque na maioria são idosos e aquilo era uma parte importante da vida deles e eles ficaram sem nada. Isso nós não podemos resolver, mas vamos tentando minimizar as coisas com o apoio psicológico que tem surtido efeito”, afirma Júlio Norte, presidente da Câmara de Mortágua, que espera que essas pessoas que ainda não recuperaram totalmente do choque voltem o “mais rapidamente possível” ao seu ambiente, ainda que reconheça que isso não é fácil.

“Há momentos na nossa vida que nunca se apagam e este, indiscutivelmente, é um deles”, defende o autarca.

Nem uma nova casa faz esquecer aquele dia e os que vieram a seguir. Cristof Moreira conta que ele e a mulher voltam a reviver o dia 15, quando veem na televisão notícias de fogos. Mas o pior é para os filhos de oito anos, que continuam aterrorizados. O que também não ajuda a sossegar são os eucaliptos que continuam presentes no espaço em redor da casa da família que agora está a ser reerguida. “Não sei se estamos mais seguros porque nós vivemos numa aldeia retirada onde há muita plantação de eucaliptos. Eles rebentaram muito, aos milhões, [depois do fogo] e agora isto assusta-me um pouco porque nada está a ser feito”, lamenta, em jeito de alerta.

"Devia ter havido uma ação no terreno e não houve"

Nos espaços florestais já se vê muito verde, é a natureza a seguir o seu caminho, mas parte dessa nova vegetação causa medo como admite Cristof Moreira. São os eucaliptos que rebentaram de forma espontânea e que ninguém cortou e que mais tarde podem servir de rastilho a novos fogos, que depois ninguém vai conseguir controlar.

Um ano depois dos incêndios houve algum alarme em torno deste problema, com autarcas e até o Presidente da República a chamarem a atenção para a situação, mas pouco ou nada foi feito de então para cá. No ano passado, Marcelo Rebelo de Sousa chegou mesmo a arrancar eucaliptos em Vouzela com as próprias mãos de fato e gravata, tendo na altura sido acompanhado pelo presidente da Câmara local e pelo então ministro Pedro Marques.

Hélder Viana, professor na Escola Superior Agrária de Viseu, lamenta que não tenham sido tomadas “medidas de fundo” para enfrentar o problema. “Teria sido necessário canalizar fundos e meios, o que de facto não aconteceu. Houve uma inação muito grande desde logo do Governo uma vez que os privados não têm capacidade para intervir sem ajuda”, defende, ainda que reconheça que seja difícil intervir numa região “tão vasta”, com “milhares de hectares de áreas não tratadas”.

“Devia ter havido uma ação no terreno e não houve. A proliferação dos eucaliptos não pode voltar a acontecer. Quem percorre estes territórios vê que está tudo na mesma, esperava-se que houvesse alguma mortalidade o que seria normal, mas tal não aconteceu eles proliferam e prosperam livremente por estes territórios esquecidos do interior”, vinca o docente universitário.

A paisagem de vários concelhos por onde o fogo passou não deixa esquecer o desastre ocorrido há dois anos. Em inúmeras terras continuam a ver-se de pé árvores queimadas e inúmeras casas ardidas, apesar da reconstrução realizada. Os incêndios que andaram serras acima e abaixo sem que ninguém os travasse “limparam” quase tudo. As marcas das chamas ainda são visíveis em vários locais.

“Faltam políticas para um correto ordenamento do território”

Vouzela foi no dia 15 um dos concelhos mais atingidos pelas chamas. Viu 75 por cento do território atingido pelo fogo. Perdeu 85 por cento da floresta que possuía. O setor agrícola foi fortemente penalizado, tendo-se registado nesta área perdas na ordem dos oito milhões de euros. Aos campos de cultivo dizimados há que somar os inúmeros animais mortos e em consequência disso os prejuízos que os agricultores e empresários, muitos deles jovens, sofreram.

Dois anos passados, muito mudou no território, mas muito há ainda a fazer. O município tem sido desde a primeira hora uma das vozes mais críticas em relação ao Governo por causa da falta de apoios para as vertentes agrícola e florestal.

“Temos uma comunidade bastante resiliente, mas a resiliência não basta. Faltam políticas para um correto ordenamento do território, que protejam as aldeias, de forma a reduzir o risco e que tragédias semelhantes não se venham a repetir”, sustenta Carla Maia, vereadora na Câmara Municipal, criticando a falta de apoios até para compor os caminhos florestais que foram danificados pelo fogo, mas também pelos madeireiros que andaram depois a cortar a lenha. “Com a ausência de apoios do Estado, o município teve que recorrer a um empréstimo bancário no valor de 120 mil euros para beneficiar cerca de 40 quilómetros de caminhos e ficaram por recuperar várias dezenas de quilómetros”, critica.

A autarca explica que mesmo sem a ajuda do poder central, a autarquia não deixou de deitar a mão a quem se dedica ao setor primário, recorrendo também aos donativos que tinha recebido. Ofereceu telhas e materiais de construção para reerguer currais e outras dependências agrícolas. Ajudou a levantar canastros. Entregou centenas de cabeças de gado e comida para os animais.

Empresários indignados por Governo ter terminado com os apoios à contratação

Os empresários dos concelhos afetados pelos incêndios de 2017 criticam o Governo por ter “voltado atrás” com a palavra relativamente aos apoios para a contratação de recursos humanos.

Na altura, foi anunciado às empresas dos territórios afetados para contratarem pessoas e aumentarem o número de postos de trabalho, que iam ter apoios durante três anos, até 2020. Apoios esses por via da Segurança Social e do Instituto de Emprego e Formação Profissional.

Ao abrigo do Sistema de Incentivo Empreendedorismo e Emprego (SI2E) foram constituídas empresas que dizem agora estar a passar dificuldades por falta de pagamento dos apoios.

Ao Jornal do Centro, um empresário espanhol, que preferiu o anonimato, contou que no ano passado estava na dúvida entre investir no litoral (zona de Aveiro) ou mais perto da fronteira (região de Viseu) e acabou por optar por Viseu ao ter conhecimento dessas ajudas. Disse que tinha com estratégia contratar 20 pessoas, dez no primeiro ano e as restantes no segundo. No entanto, com a nova portaria, afirma que vai ter de refazer toda a estratégia porque “estamos a falar de um valor avultado”.

“Estamos a falar de um universo de 77 mil empresas na região Centro em que cada uma, por cada posto de trabalho que criasse teria uma poupança de 10 mil euros. Ora, esta medida era importante para definir estratégias”, explica, por seu lado, Carlos Alves, da Associação Empresarial da Lousã que apela a que todas as associações se unam para reivindicar junto do Governo o cumprimento do que foi prometido. “Isto é grave, não fomos nós que pedimos o apoio, foi o Estado que o concedeu”, reforça o empresário para quem esta atitude do Governo “só contribui para desertificar ainda mais o interior”.

Segundo a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento do Centro, até ao momento, “o Centro 2020 aprovou 2.546 projetos no âmbito do SI2E, com um apoio de fundos europeus de 99 milhões de euros”, destacando a existência de 1.291 pedidos de apoio.

“Foi um processo muito complexo e difícil”

Em Oliveira de Frades, onde o parque empresarial local foi arrasado pelas chamas, “está tudo reerguido”, com exceção de uma empresa de carpintaria, que pertencia ao antigo presidente da Câmara, Luís Vasconcelos.

Salete Costa, da direção da Associação de Empresários para a Reconstrução da Zona Industrial de Oliveira de Frades (AERZIOF), garante que o tecido empresarial renasceu das cinzas e saiu “mais forte” depois da tragédia e “melhor preparado para os desafios do quotidiano e com uma vontade férrea de ter ainda mais sucesso”.

A empresária conta que a laboração está a 100 por cento “há muito tempo”, tendo sido determinante o auxílio do Estado por intermédio do programa Repor. “Os apoios foram essenciais à reconstrução. Seria impensável voltar, em dois anos, e termos a Zona Industrial que temos se este tipo de ajuda não tivesse sido rápida e eficaz. Claro que há aspetos que podiam ter sido melhores, mas o essencial funcionou, chegou ao terreno e todos temos de o dizer. É a prova de que quando se quer, se faz. E todos ganham, pois empresas vivas dão emprego, investem e pagam impostos”, realça Saleta Costa, frisando que este “foi um processo muito complexo e difícil”. “É realmente retemperador ver o nosso trabalho dar frutos”, evidencia.

Os empresários de Oliveira de Frades não esquecem os elogios ao Governo, mas também as críticas. Continuam a queixar-se de as empresas ligadas ao setor primário, como a avicultura, não terem o mesmo sistema de apoios, estando por essa razão a passar por “mais dificuldades”. “ A produção primária continua a ser ‘esquecida’, uma vez que os apoios foram menores e com um sistema de concretização mais complexo. Ainda assim as candidaturas também estão a ser fechadas dentro do temporalmente expectável”, considera Salete Costa.

Em toda a região Centro há dois anos foram tocadas pelo fogo mais de 1.500 empresas. Os prejuízos rondam os 268 milhões de euros. O programa Repor apoiou 372 firmas, que vão realizar um investimento de 131 milhões de euros [com 100 milhões financiados pelo Estado]. “Estes projetos vão permitir reter e criar mais de 4.200 postos de trabalho e portanto apesar de toda a desgraça foi uma oportunidade que as empresas tiveram de se modernizarem, muitas de fazerem melhor, de pensarem em internacionalizarem-se”, sustenta a presidente da CCDRC, Ana Abrunhosa, destacando que “a esmagadora maioria das empresas, mesmo aquelas que arderam totalmente, nunca deixaram de trabalhar”.

“Estamos a falar de mulheres e homens extraordinários, que na desgraça, no pior momento da sua vida, não desistiram, investiram e até ambicionaram fazer mais e melhor do que faziam antes dos incêndios”, argumenta. 

Investigações prosseguem

Os incêndios de outubro de 2017 na região Centro provocaram a morte a 50 pessoas, 20 das quais só no distrito de Viseu. Registaram-se também 70 feridos.

As investigações judiciais aos fogos ainda estão em curso ao que conseguimos apurar, junto de fonte policial. O Jornal do Centro solicitou esclarecimentos à Procuradoria-Geral da Republica, mas não recebeu qualquer resposta.





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