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Fugiram do Brasil por se sentirem “presos” e em Viseu procuram segurança e estabilidade

Edição de 19 de outubro de 2018
20-10-2018
 

Há uma nova vaga de imigrantes brasileiros a chegar a Viseu. São, na sua maioria, reformados e procuram nesta zona do país a segurança e a estabilidade que não têm no seu país de origem. São famílias que procuram também colocar os filhos no sistema de educação português e não pensam regressar ao Brasil. Até março, quem já está em Viseu diz que estão para chegar mais de 80 famílias.

Arimateia Cavalcanti trabalhou durante mais de 30 anos em importações e exportações. Conheceu o mundo, mas há cerca de dois anos decidiu mudar de vida. Já reformado, foi “convencido” por amigos a radicar-se em Viseu. “Decidimos sair do Brasil por causa da situação política e da crise financeira que já se adivinhava”, conta. Escolheu Viseu depois de pensar ficar pela Alemanha ou Itália. “Mas acabei aqui nesta cidade que é pacífica, segura, limpa, bem estruturada e tem todas as condições para a minha família”, confessa. Dois dos filhos estão a estudar no Instituto Politécnico. “A existência de ensino superior foi uma das razões pelas quais optámos por Viseu”, admite.

Reformado, Arimateia Cavalcanti decidiu estabelecer-se profissionalmente por conta própria. Aproveitando os conhecimentos que adquiriu durante os anos de trabalho, arrancou com uma empresa de exportação de azeite com marca própria. “Também conto entrar no mercado nacional mas não é o foco”, salienta. Tal como Cavalcanti, muitos outros brasileiros escolheram Viseu para viver. “Há muitos a comprar casa, ou seja, pretendem cá ficar”, confirmam vários agentes imobiliários contactados pelo Jornal do Centro.

“Preso” em casa

Milton Rodrigues chegou há quatro meses a Viseu com a mulher e dois filhos. No Brasil foi executivo de uma multinacional e proprietário de barbearias. A mulher trabalhava na função pública. Saiu do Brasil porque se sentia “preso”. Vivia em Brasília, a capital e das cidades mais seguras, mas estava num condomínio fechado com cercas elétricas e guardado por seguranças armados. “A minha filha mais velha, com 20 anos, não podia ir sozinha para a universidade. O mais novo, de 11 anos, nem sequer podia brincar na rua. Chegámos a um ponto em que decidimos que tínhamos de sair”, contou Milton Rodrigues que, em Viseu, já abriu uma barbearia e está prestes a inaugurar uma segunda.

Inicialmente, a ideia era ir para o Canadá, mas a língua e o frio não deixaram. Surgiu então a possibilidade de Portugal e numa pesquisa na internet descobriram que Viseu era “uma das melhores cidades para viver”. “Tínhamos decidido já que não queríamos grandes cidades”, disse. Um ano depois de planear a mudança e já com todos as burocracias ultrapassadas, Milton Rodrigues chegou com a família. A filha já matriculada no Instituto Politécnico e o mais novo conseguiu lugar na Escola Grão Vasco. Aqui, sentem-se bem e a cidade ultrapassou as expetativas. “As pessoas são recetivas, simpáticas”, sublinhou.

É com alívio que agora se sente em Viseu, mas o coração não esquece o Brasil, país onde só vai voltar de férias. Com o olhar embargado, Milton Rodrigues assumiu que o Brasil vai ainda ficar pior e assistir à saída de muitos mais brasileiros. E não são aqueles que procuram só uma situação financeira melhor.  “Vamos assistir a uma guerra nos próximos tempos”, previu, numa altura em que politicamente o Brasil está a passar por uma mudança em resultado das eleições marcadas para 28 de outubro.

Vieram para ficar

“Não conto regressar ao Brasil. Já não vou ter tempo. Vai levar muito até o país arrumar a casa”, lamenta, por seu lado, Arimateia Cavalcanti que ao ver os seus filhos serem assaltados no país de origem decidiu que tinha chegado a hora de procurar outro conforto na vida.

Os brasileiros que ultimamente têm chegado a Portugal não são mais os jovens que procuram uma situação financeira melhor e que deixam os pais no Brasil, ajudando-os a partir de Portugal. Agora, é a família completa que se muda. “Os que vêm para cá são pessoas que no Brasil tinham uma vida estruturada e o motivo maior de terem saído é a falta de segurança pública, a crise política que se instalou e a consequente crise financeira”, refere Milton Rodrigues.

Antes, realça também Cavalcanti, “o brasileiro sempre foi de sair e voltar, mas pela primeira vez o brasileiro está a sair para ficar. É um marco na história da imigração do Brasil”.

Estatísticas

De acordo com as estatísticas do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), no ano de 2017 manteve-se a tendência de acréscimo do número de estrangeiros residentes em Portugal, verificada em 2016, totalizando 421.711 cidadãos com título de residência válido (mais 6 por cento); A nacionalidade brasileira, com um total de 85.426 cidadãos, mantém-se como a principal comunidade estrangeira residente, tendo aumentado 5,1 por cento em relação a 2016, invertendo assim a tendência de diminuição do número de residentes desta nacionalidade que se verificava desde 2011. Este aumento não pode ser dissociado do movimento de vinda para Portugal de estudantes de nacionalidade brasileira para frequência de instituições de ensino superior, procurando por via da obtenção do Estatuto de Igualdade, beneficiar da redução do pagamento de propinas, em regime de igualdade com os estudantes portugueses.





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