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João Félix: o nosso "pestinha"

Edição de 15 de fevereiro de 2019
15-02-2019
 

É estrela no Benfica e está a deixar o mundo do futebol rendido. Mas o arranque da carreira de João Félix deu-se em Tondela, n’Os Pestinhas, onde deixou muitos amigos. Todos falam de talento, alegria, simplicidade e humildade a jogar futebol.

A história escrita por João Félix, no Benfica, não começa agora.

Com 16 anos tornou-se no mais novo de sempre a vestir a camisola da equipa B do Benfica, e cinco meses mais tarde, já com 17 anos, passou a ser o mais novo de sempre a marcar na Segunda Liga, e foi, precisamente, diante do Académico de Viseu, no Estádio do Fontelo. Uma casa que João conhece bem, não fosse Viseu a sua terra natal.

Natural de Viseu, Félix começou a dar os primeiros toques na bola n’Os Pestinhas, escola de futebol em Tondela. O presidente do clube, Carlos Pedro Rodrigues, mais conhecido por Maneira, recorda uma criança muito dedicada e já a evidenciar um enorme talento. “O que está a acontecer em nada me surpreende. Na nossa formação, tivemos de o pôr a jogar sem ele ter idade. Era sub-9 e jogava nos sub-10. Por onde passasse, todos falavam dele. Levava sempre tudo muito a sério”, lembra o dirigente.

“Já naquela altura se via que era craque”

Tó Zeca foi o primeiro treinador de competição de João Félix. O técnico não esquece o menino prodígio que lhe passou pelas mãos e que entrou para os sub-10 do clube Os Pestinhas ainda antes do tempo, por mostrar ser “diferente” de todos os outros.

“Ele ainda era sub-9 na altura. Foi puxado porque víamos qualidade para estar na competição e deixar a formação. Ele era mais maduro a jogar futebol. Naquela altura já se via que era craque” lembra o treinador.

Para além da maturidade, Tó Zeca não esquece a responsabilidade com que João olhava para a competição. “Ele adorava treinar e jogar. Estava sempre presente. Adaptou-se muito bem à equipa dos miúdos mais velhos”.

O técnico da escola dos Pestinhas orientou o jogador apenas durante uma temporada (2007/2008), mas foi o suficiente para perceber que as qualidades de um bom jogador estavam lá todas. Talento não lhe faltava, mas Tó Zeca não esquece o trabalho. “Via-se muito talento, mas trabalhou também. Nos meses que esteve aqui connosco fartou-se de trabalhar, tanto que depois os olheiros do Porto o vieram buscar”, recorda.

O antigo treinador do jogador garante que ele conserva muitas das qualidades do início da carreira. “Mantém a visão rápida de jogo, a qualidade de passe e o pensar. Ele pensa demasiado rápido, a bola ainda não lhe está a chegar aos pés e ele já sabe onde é que a vai pôr a seguir. 

São qualidades que só mesmo os miúdos sobredotados é que as conseguem apanhar, não é trabalho, já é inato, já nasce com eles”, explica. Também Tó Zeca não consegue deixar de falar no papel preponderante dos pais. “O acompanhamento que eles fizeram ao João foi fantástico, tem bases muito sólidas e tem a família que esteve sempre com ele e o apoiou”.

Para Tó Zeca, o futuro de João Félix está mais do que garantido. O treinador não tem dúvidas de que o jovem jogador “vai singrar no [mundo do] futebol”. “Vai ser um dos grandes jogadores de Portugal no futuro. Não digo que seja um Cristiano Ronaldo, porque acho que ele é difícil de igualar, mas vai ser um craque ao nível de tantos outros que temos aí”, sustenta, acrescentando que n’Os Pestinhas já é um exemplo para os miúdos que começam a jogar futebol.

Tó Zeca não esconde a satisfação que sente por se ter cruzado com João Félix. “É um orgulho saber que ele passou por mim, que fui dos primeiros treinadores dele. Dá-me um gozo enorme cada vez que ele faz um golo. É uma satisfação enorme”, admite Tó Zeca.

Também Tó Zeca concorda que o rosto de João em campo espelha a felicidade que sente em jogar futebol. “Basta olhar para a cara dele. Qualquer coisa que faça em campo está sempre alegre e a sorrir. Vê-se que gosta do que está a fazer”.

À pergunta se João é um menino de ouro. Tó Zeca responde que sim. “De todas as qualidades que ele tem, não só no futebol, mas as qualidades humanas fazem dele um menino de ouro”, conclui.

O miúdo “raçudo” que não desistia

Jorge Maneira foi colega de equipa de João Félix. Recorda a raça do jogador que soma já sete golos no ano de estreia na Primeira Liga.

“Via-se que era raçudo, como se costuma dizer”. Mas o que é raçudo afinal? “Que não desiste”, explica rapidamente. “Mesmo sabendo o porte físico dele, na altura, isso não fazia diferença”, diz.

Tal como a jovem estrela encarnada, Jorge Maneira continua a jogar à bola, mas nos distritais de Viseu. O ex-colega pestinha não esconde que nunca pensou que o companheiro de jogos pudesse vingar desta maneira no mundo do futebol, ainda que admita que ele era o melhor de todos quando estavam em campo.

“Lembro-me de uma jogada dele num treino em que pegou na bola ao pé da nossa área, passou facilmente por três ou quatro jogadores e marcou golo”, conta.

Para já, acompanha o percurso do colega apenas pela televisão, mas quer ir vê-lo jogar e a marcar no Estádio da Luz. Quanto ao futuro, brinca dizendo que “podia ficar pelo Benfica, que também é um grande clube”, mas sabe que João tem carreira no estrangeiro e exclui qualquer hipótese do miúdo de 19 anos se vir a perder. “Ele sabe bem o que está e o que pode vir a fazer”.

Ser fiel às origens está-lhe no sangue

O presidente do clube Os Pestinhas, Carlos Pedro Rodrigues, lembra a altura em que João Félix chegou a Tondela, onde deu os primeiros toques na bola. Tinha apenas quatro anos e acompanhava o pai.

“Eu conheci o pai do João (Carlos Sequeira) quando ele foi meu treinador-adjunto no Clube Desportivo de Tondela, na época em que subimos para a Terceira Divisão. O João acompanhava o pai em dias de jogo e ao intervalo ele era um dos que ia para o meio campo dar toques na bola e já chamava a atenção”, lembra.

Na época seguinte o pai passou a treinar, também, uma das equipas d’Os Pestinhas. Foi quando o João ingressou no cube, com sete anos e onde esteve até aos nove. O passo-chave para uma história que teve passagem no FC Porto e, agora, no Benfica, estava dado.

Aos oito anos, João inicia-se a jogar num escalão superior (sub-10) “pois já demonstrava grandes capacidades. Foi nessa altura que começou a ser chamado para treinos de observação (FC Porto, SL Benfica e SC Sporting), tendo optado na época seguinte por ir para o Porto”. Mas, na conversa, Pedro Maneira começa por dizer que João é “um miúdo especial”. “Apesar de ter chegado ao estrelato continua com a sua humildade e fiel às suas origens onde deixou muitos amigos. Quando lhe peço que venha cá para incentivar os miúdos que estão aqui a dar os primeiros passos no futebol, ele mostra-se sempre disponível”. E em campo, o que faz do João especial? O dirigente do clube não hesita a responder. “A alegria, o prazer e a simplicidade com que joga futebol”.

Pedro Maneira admite nunca ter pensado que João chegasse onde está hoje, mas não esconde que para a idade era muito diferente dos outros miúdos.

“Não há ninguém que pense que um miúdo de 8 ou 9 anos vá chegar onde já chegou o João. Não posso dizer que previa isso, porque estaria a mentir, mas não me admiro que ele tenha lá chegado porque já com aquela idade demonstrava ser um miúdo muito evoluído tecnicamente, aplicado e concentrado e com um sentido de grande responsabilidade, o que é difícil para a idade”, explica.

Mas por detrás de uma ascensão e sucesso alcançado tão rápido, estiveram os pais de João. Um apoio que Pedro Maneira considera ter sido e continuar a ser fulcral na evolução de João. “Tenho a certeza que sim. O suporte familiar do João foi um dos grandes fatores para o seu sucesso”, remata.

João Félix não é o único caso de sucesso dos Pestinhas. Também Ruca já passou pela Primeira Liga (Vitória FC e CD Tondela) e, atualmente, joga no Mafra. O Hugo Félix, irmão de João Félix, deu os primeiros toques na bola, com quatro anos, na escola de futebol de Tondela antes ir para o FC Porto e acabou agora por assinar também pelo Juvenis do Benfica. Alexandre Penetra também está nos juniores do Benfica e Filipa Bandeira, mais conhecida por Fifa, tem sido chamada por várias vezes à Seleção Nacional.

Mas como se pega numa criança e se faz dela uma campeã? A resposta parece simples para o dirigente. “Não existe nenhuma fórmula. É preciso dar as condições adequadas para que as crianças desenvolvam as suas capacidades”, conclui.





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