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Médicos de oncologia fazem "milagres"

Edição de 21 de junho de 2019
21-06-2019
 

Numa altura em que se fala de rutura do serviço de oncologia no Hospital de Viseu, utentes dão conta do esforço dos médicos em tratarem dos doentes quando “faltam profissionais e condições”. Um desabafo de quem já teve de estar longas horas à espera de tratamento.

“Falta de pessoas, falta de condições, falta de espaço, mas sobretudo e lamento imenso, aquele ambiente, aqueles profissionais a quererem dar o seu melhor, mas nunca será o suficiente. Por muito bons profissionais de saúde que sejam eles fazem aquilo que podem. Humanamente não fazem mais porque não tem outros colegas na retaguarda e esses tem de ser contratados”. Este é o panorama relatado por Maria, nome fictício, 39 anos, doente oncológica, utente do Hospital de Viseu.

Um desabafo de quem diariamente “vive” no serviço de oncologia, unidade que nos últimos dias tem estado “debaixo de fogo” por causa da falta de médicos. Um serviço que, lamentam os próprios profissionais, está a chegar ao ponto de rutura.

Maria é doente oncológica desde outubro de 2018, descobriu a sua doença através de um exame, uma mamografia. “Foi-me diagnosticado cancro da mama, neoplasia na mama esquerda”, reforça. Desde então, já fez duas cirurgias, uma mastectomia total, quimioterapia e radioterapia. Neste momento está na fase da terapia hormonal, que terá de fazer nos próximos cinco anos. “Falta só uma cirurgia para fazer, à partida o processo fica terminado. Será realizada cá em Viseu e de momento estou só a aguardar recuperar das mazelas da radioterapia, porque elas existem”, confessa Maria.

As sessões de quimioterapia foram todas realizadas no hospital de Viseu, mas para dar continuidade ao seu tratamento precisava de fazer 25 sessões de radioterapia. Na altura, a solução passava por fazer o tratamento no Instituto Poruguês de Oncologia (IPO) de Vila Real ou de Coimbra. “Veio-se a confirmar o IPO de Coimbra, onde fiz as sessões, e tive de me deslocar durante 25 dias”, descreve. Foi o profissional de saúde que a acompanhava em Viseu que estabeleceu a ponte entre a paciente e o IPO de Coimbra.

Foram cinco semanas de deslocações que a doente poderia fazer de ambulância juntamente com outros doentes, mas que optou por não o fazer. “Tenho crianças que estão dependentes de mim, havia também a possibilidade de ficar nas instalações do IPO de Coimbra. Tinha conhecimento que indo de táxi à minha custa, a ADSE reembolsa na totalidade passado algum tempo. Mas nem toda gente tem possibilidade de gastar cerca de 100 euros diários para pagar ao taxista independentemente desse valor ser reembolsado ou não”, confessa.

Falta de recursos humanos

Sobre os tratamentos no Hospital de Viseu, Maria não tem nada a apontar. “A reposta foi dada quase sempre de forma automática, o grande problema ali é, de facto, a falta de recursos humanos”, confessa. A doença de Maria requeria três horas de quimioterapia, porém desde o momento em que entrava até estar concluído o tratamento, o tempo de espera era muito longo. “Chegava ao hospital por volta das oito da manhã e houve um dia que saí por volta das sete da tarde”, conta. Segundo relata, o normal nestas situações é o utente chegar ao hospital, fazer análises, e, consoante o resultado, seguir ou não para a sessão de quimioterapia.

Maria, enquanto utente, defende que a contratação de novos profissionais de saúde é fundamental dado ao número elevado de doentes oncológicos. “Não me refiro só aos médicos, porque aquele Hospital não tem só défice de médicos. As outras categorias profissionais também deveriam ser colmatadas com a contratação de mais pessoas”, conta, realçando que, mesmo cheios de trabalho, todos são “bons profissionais”. “Nós vemos a forma como eles trabalham. Um profissional naquela área não pode fazer o trabalho de dois ou três”, sublinha.

A vinda de médicos de Vila Real e Coimbra pode ser uma mais valia “desde que venham e façam as horas necessárias para dar resposta a tantos doentes oncológicos que este hospital de Viseu recebe” acrescenta. É por isso que, ao ouvir as declarações da ministra da Saúde, sente-se triste. “Ela esteve cá e de certeza que soube da realidade, daquilo que se passa lá dentro e do défice de pessoal que lá existe. Aquilo que ela faz transparecer não corresponde de todo a realidade, eu sou prova disso porque passei lá muitas horas e conheço as dificuldades daqueles profissionais de saúde. Contra eles rigorosamente nada, mas contratação de mais profissionais de saúde é urgente”, apela.

Mas há ainda outras dificuldades que são necessárias ultrapassar. No Hospital de Viseu as salas para receber os doentes oncológicos são pequenas para tanta gente. “Numa sala estão cerca de dez pessoas, são três salas, poderão estar cerca de 30 pessoas ao mesmo tempo a fazer quimioterapia, mais 30 pessoas na sala de espera, para entrar e fazer sessão, é muita gente”, desabafa. “Estou a falar de 60 pessoas, mas acredito que sejam muitas mais que isso e não estamos a falar de pessoas que vão ali tratar uma constipação, vão fazer quimioterapia”, reforça.

Quatro médicos reforçam oncologia de segunda a quinta-feira

São quatro os médicos oriundos do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro que vão reforçar o serviço de oncologia do Hospital de Viseu. Segundo o presidente do Conselho de Administração, Cílio Correia, estes profissionais deverão chegar na próxima semana e reforçar o quadro de segunda a quinta-feira. Esta é uma medida que surge depois dos alertas feitos por causa da rutura deste serviço. Os médicos avisaram que por falta de profissionais iam deixar de atender novos doentes com cancro e que os tratamentos e cirurgias podiam estar em causa.

“Estamos a procurar a sustentabilidade do serviço e garantir a disponibilidade de recursos necessários para a afluência e procura nesta área, daí que tenhamos aprovado um acordo de colaboração com o Hospital de Vila Real no sentido de permitir aos os quatros oncologistas dar colaboração e acompanhamento dos doentes e suprir as necessidades efetivas que existem”, explicou o presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Tondela Viseu (CHTV).

Cílio Correia lamenta ainda não ter tido autorização da tutela para abrir concurso para dois especialistas na área da oncologia, vagas que, refere, “são perfeitamente justificadas” e que foram identificadas ao Ministério “em devido tempo”. “Não escondemos que é uma área que precisa de ser reforçada, que precisa quatro oncologista em permanência sendo que três em colaboração exterior poderão suprir as carências imediatas”, explicou.

Na passagem por Viseu, a ministra da Saúde, Marta Temido, fez um quadro “menos negro” relativamente ao serviço de oncologia, afirmando que a tranquilidade iria regressar a esta unidade. “Esta situação que surgiu nos últimos dias tem a ver com a circunstância de uma médica que quer mudar de hospital e uma outra que está num processo de aposentação. Como nós temos uma vaga a concurso e temos a expetativa de fazer uma contratação direita, para já não há aqui nenhuma novidade”, disse, na altura.

Mas, dentro do próprio PS, há quem aponte dedos a esta situação. Pela voz dos vereadores do PS na Câmara de Viseu, foi criticada a atitude da diretora clínica. “Segundo percebi, as médicas oncologistas já informaram há algum tempo a diretora clínica de que iam embora do Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV). Não sei o que se passou mas gostaríamos de saber o que foi feito por parte da diretora para que impedisse a saída”, disse Lúcia Silva.

Quanto a estas críticas, Cílio Correia saiu em defesa de Helena Pinho e sustentou que as decisões são tomadas pelo conselho de administração que é um órgão coletivo.

Reunião com ministra da Saúde

Quem anunciou que o serviço de oncologia iria ser reforçado com médicos oriundos de Vila Real e Coimbra foi o presidente da Câmara, após uma reunião que teve no final da semana passada com a ministra da Saúde e na qual esteve também presente o conselho de administração do CHTV e ainda os autarcas de Vouzela e Oliveira de Frades. O autarca de Viseu, Almeida Henriques, disse ainda que o projeto de construção do centro oncológico, com tratamentos de quimioterapia e radioterapia, vai estar concluído num prazo de mês e meio.





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