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"O Académico não está em saldo"

Edição de 7 de junho de 2019
 

Entrevista a António Albino

Programa completo


07-06-2019
 

António Albino é presidente do Académico de Viseu há 15 anos. Levou o “novo” Académico dos campeonatos distritais até à Segunda Liga. Desde 2015 é também o acionista maioritário da SAD - Sociedade Anónima Desportiva do Académico de Viseu. Colocar o clube na Primeira Liga é um sonho de que não desiste.

Na última temporada, para garantir a manutenção na Segunda Liga, trocou de treinador duas vezes. Quando as equipas perdem é essa a única solução?

Eu tenho de gerir o Académico da melhor maneira que sei e posso para não cair numa situação como a do Arouca (clube que desceu de divisão e anunciou o pedido de insolvência). Tive que agir rapidamente, trocando de treinador e reforçando o plantel.

Para isso teve o apoio do José Luís Gonçalves, que regressou como diretor desportivo, e que o ajudou a encontrar o atual treinador e os reforços?

É um homem excecional.

Mas não vai continuar como diretor desportivo do Académico?

Ele está sempre disponível para me ajudar…

Nos momentos em que a equipa está menos bem, ouvem-se, durante os jogos, insultos dos sócios e adeptos à equipa, aos treinadores e ao presidente do clube. Sente-se injustiçado?

Quem está neste lugar tem que saber ouvir e gerir tudo isso. Não é por ser contestado que entro em loucuras. Sei o que fiz e o que quero para o Académico. Tenho a minha consciência tranquila. Nunca recebi nada, nenhuma remuneração, tenho trabalhado sempre em prol do Académico.

O Académico precisa de mais apoio da cidade e da região?

O clube precisa do apoio de todos. Ninguém faz nada sozinho.

Em algumas declarações, que lhe vamos ouvindo ao longo da época, sente-se alguma mágoa pela alegada falta de apoio...

Se houvesse mais ajuda seria melhor e mais fácil. Só tenho que agradecer aos muitos apoios e patrocínios que vamos conseguindo ao longo da época. O clube será cada vez maior quantos mais sócios tiver. Quando me candidatei pela primeira vez ao Académico, há quinze anos, pedi 1500 sócios e ainda não os temos. Os tempos são diferentes. Hoje temos futebol em casa e não temos que ir ao estádio.

Ainda é possível chegar aos 1500 sócios?

É mais importante ter dois ou três mil sócios que um patrocínio de mil euros. É por isso que os clubes grandes, como o Benfica, têm muitos sócios.

A Câmara Municipal de Viseu, podia ou devia ajudar mais o Académico?

Ajuda naquilo que é possível. Não tenho razão de queixa.

O Académico tem tido boas equipas, treinadores reconhecidos e com qualidade, mas falta sempre alguma coisa. É a falha na estrutura de apoio?

A estrutura do Académico tem evoluído muito. Temos tudo o que a Liga Profissional de Futebol exige a um clube da Primeira Liga…

Campos de treino e ginásio, para recuperar os jogadores, são suficientes?

No Fontelo temos dois campos relvados, temos o de piso sintético que também podemos utilizar…

Não é por falta de estrutura de apoio que o Académico não sobe?

Os jogadores que vêm de outros clubes dizem que o Académico tem tudo o que é preciso para subir à Primeira.

Vamos olhar para a próxima época. Foi renovado contrato com o treinador Rui Borges por duas temporadas. Sinal de profunda confiança?

Exatamente…

É o treinador que vai, com o presidente, construir a equipa para a próxima época?

Tem que ser construída pelos dois. Para além da vontade do treinador, de querer este ou aquele jogador, é preciso avaliar se o clube tem recursos financeiros para pagar. Tem que haver sintonia entre a parte financeira e a desportiva.

O Académico tem capacidade financeira para formar uma equipa que na próxima época lute pela subida de divisão?

O Chaves quando subiu à Primeira Liga gastou menos que o Académico o ano passado. Um bom orçamento é meio caminho andado, mas nem sempre os que têm mais dinheiro são os que sobem. O campeonato é longo e tem que se ter um plantel muito coeso, muito sólido e equilibrado. Temos que ter vinte jogadores ao mesmo nível. Não podem ser só dez ou doze bons e depois os que estão no banco serem mais fracos.

Assume de novo o objetivo de formar uma equipa capaz de lutar pela subida?

O campeonato da Segunda Liga é muito competitivo. Este ano quase até ao final da temporada havia quinze equipas que podiam descer. Só duas ou três da frente é que terminaram o campeonato tranquilas, sem receio de, de um momento para o outro, caírem na zona de descida.

Então, o primeiro objetivo é lutar por não descer e depois logo se vê?

Nunca se deve assumir como objetivo lutar por não descer. Não são esses os meus horizontes. Temos que fazer um plantel para andar acima dos seis primeiros lugares. Depois tudo depende como corre o campeonato. Houve uma época, quando cá esteve o Ricardo Chéu, que a sete jornadas do fim, estávamos a cinco pontos da subida e oferecemos um prémio aos jogadores se conseguíssemos subir. A partir daí tudo correu mal. Não ganhámos mais nenhum jogo.

A subida à Primeira Liga continua como objetivo?

Esse é um dos meus sonhos e da minha equipa.

Renovações e saídas. N’Sor, o melhor marcador da equipa na última temporada, não ficou. Porquê?

Por questões financeiras. O clube fez um grande esforço para o manter nas duas últimas épocas. Tinha hotel pago, um vencimento de seis mil euros e duzentos euros por cada golo marcado. Com Segurança Social e impostos ficava em dez mil euros por mês.

Para continuar no Académico o N’Sor pediu mais?

Dez mil euros limpos. É impossível. Nem na Primeira Liga.

O Paná também saiu por razões financeiras?

Agradeceu todo o apoio, que teve em Viseu, mas diz que acabou um ciclo e que vai começar outro no Leixões.

Que jogadores tem até agora garantidos?

Há uma dúzia que já tem contrato (Ricardo Janota, Elísio País, Pica, Kevin Medina, Lucas Silva, Bruno Loureiro, Latyr Fall, Luisinho, Gabriel e Gonçalo Duarte)...

E renovações?

João Vitor, Fernando Ferreira, Tomé e Diogo Santos...

E reforços? Quantos vão ser precisos?

Um guarda-redes, um ou dois centrais e médios, um extremo e um ponta de lança. Há meia dúzia de jogadores já referenciados para estas posições. Vamos aguardar.

O caso conhecido como Santa Clara, referente à época 2017/2018, em que o Académico terminou em terceiro e reclama subir de divisão ainda se arrasta nos organismos do futebol. Pode vir daí mais uma situação como a do Gil Vicente que sobe à Primeira Liga 11 anos depois do “caso Mateus”?

Os nossos advogados acreditam que o “caso Santa Clara” mais tarde ou mais cedo será resolvido a favor do Académico. É essa também a minha convicção. Nós cumprimos os regulamentos e o Santa Clara quando em várias jornadas não colocou nos convocados dois atletas sub-23. Também podíamos ter posto no banco jogadores que nos dessem mais garantias.

Agora já não é a situação do treinador principal do Santa Clara, inscrito na Liga, que não estava no banco dos suplentes? O Académico agora também está na mesma situação…

O nosso treinador inscrito como principal, João Gabriel, está sempre no banco, ao lado do Rui Borges. No Santa Clara houve situações em que o alegado treinador principal não estava.

Pedro Proença é recandidato à presidência da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Tem o apoio do Académico de Viseu?

Tem. Tenho muito respeito pelo trabalho que tem feito na Liga. Sempre que possível também tem ajudado o Académico.

O VAR - vídeoárbitro devia vir para o campeonato da Segunda Liga?

É sempre bom haver mais um elemento que ajude a decidir bem em caso de dúvida.

Ao longo dos últimos anos, depois de constituída a SAD em 2015, muito se tem falado de potenciais investidores interessados em investir no Académico. Os últimos de que se ouviu falar foi de investidores do Cazaquistão. Porque é que o acordo não chegou ao fim?

Foi um namoro bastante longo, desde agosto de 2018 até março deste ano. O projeto foi apresentado numa segunda-feira, mas na quarta-feira a seguir o presidente da República do Cazaquistão demitiu-se e os investidores disseram que já não podiam levar o projeto por diante.

Uma surpresa?

Foi isso que eu lhes disse.

Mas um projeto abandonado com essa facilidade tinha pernas para andar?

O que eu lhes tinha pedido e eles aceitaram era muito bom para o Académico.

Falava-se da construção de uma academia...

De uma academia e de três campos de treino.

Também o investidor israelita, que está agora na SAD do Famalicão, tinha procurado o Académico. O que falhou?

Falta de solidariedade para com quem estava no Académico há 15 anos.

Queriam afastá-lo da administração?

Houve um pouco de prepotência da parte deles e também só queriam saber do futebol profissional. Eu também sou presidente do Académico clube e não só da SAD.

Quais são as condições que coloca a um investidor que queira entrar no capital da SAD do Académico?

A primeira coisa que lhe digo é que o Académico não está em saldo.

Continuar na administração da SAD é uma condição?

Não necessariamente. Vou-me recandidatar a presidente do clube, que é a minha grande paixão, e gostava de na próxima temporada subir à Primeira Liga.

Em nome individual, tem cerca de 51 por cento do capital da SAD. Pode vender parte dessa participação?

É preciso uma injeção de dinheiro. Quando se anda aqui a investir há quinze anos, tirando dum monte sem se lá por nada fica vazio.

Raúl Pais da Costa, advogado natural de Viseu, é agora o seu parceiro na SAD. É o investidor que procurava?

Tenho contactos com o Raúl há muito tempo. Ele também acompanhou as negociações com os do Cazaquistão. Temos que ter sempre vários planos alternativos.

Qual vai ser o papel dele no futuro da SAD do Académico?

Vamos ter uma parceria saudável. Vêm dois elementos para a estrutura o que é bom. Sinto que o Raúl é capaz de trazer alguma coisa boa para o Académico.

O facto de ser natural de Viseu também pesou na decisão?

Contou para que eu mantivesse sempre contacto com ele.

O Raúl Pais da Costa é agente de futebolistas e treinadores. Pode trazer bons atletas para o Académico?

Fundamentalmente.

Está tranquilo e confiante na parceria com o Raúl Pais da Costa?

Só o facto de ser viseense já é uma mais valia. Falamos a mesma língua. É um viseense que quer subir o Académico como eu quero.

O acordo é para lhe vender uma participação na SAD ou ficar como seu sócio?

Vamos fazer uma parceria e o futuro decidirá por onde irá. Temos que ir devagar. Não queremos por a carroça à frente dos bois.

Como está a situação e os processos com o anterior diretor desportivo André Castro, que também chegou a ser um seu parceiro investidor?

Não quero falar de coisas que foram muito tristes para mim.

Está arrependido de não ter fechado negócio com o super empresário Jorge Mendes?

Não.

Dificilmente lhe vai aparecer outro investidor que lhe dê três milhões de euros e mais dois milhões se subisse à Primeira Liga?

São polémicas passadas.

Um outro advogado de Viseu, Fernando Seara, ajudou-o nos contactos com os investidores do Cazaquistão. Fernando Seara vai continuar a colaborar com o Académico?

Temos uma grande amizade. Vai continuar a haver colaboração porque temos coisas em comum.

O que mais o surpreendeu no mundo do futebol profissional?

A ingratidão.

Já foi enganado no futebol?

Não, porque não me deixo enganar.

Quais foram as maiores satisfações que o Académico lhe deu?

As quatro subidas desde os distritais até à Segunda Liga e os sete anos que conseguimos permanecer neste campeonato. Isto é uma obra inédita no Académico. Sou o presidente com mais anos de clube. Isto é uma paixão antiga. Eu com dez anos vinha de Orgens a pé para ver os jogos no Fontelo. Quando se deu a insolvência do antigo CAF eu disse que não podia ser. Alguma coisa estaria mal. Não vim para o Académico por acaso.

Quantos anos pensa continuar como presidente do Académico?

Os suficientes para chegar à Primeira Liga. É um sonho antigo que quero cumprir. Se cheguei até aqui porque não hei-de ir mais longe um bocadinho. Não quero protagonismo mas tenho uma paixão e um sonho que quero cumprir.





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