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O relatório dos dias de inferno

Edição de 8 de março de 2019
08-03-2019
 

Queimadas intencionais estiveram na origem de muitos dos fogos de outubro de 2017. O elevado número de ocorrências e as condições metereológicas criaram situações “descontroláveis”. Falharam as comunicações e os meios no terreno não conseguiram acudir a tudo. Mais de um terço das vítimas do fogo morreu em casa. Mas há histórias de quem sobreviveu a dois dias de inferno. A chuva é que acabou com o fogo. Conclusões e testemunhos que fazem parte do relatório “Análise dos Incêndios Florestais ocorridos a 15 de outubro de 2017”, elaborado pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra.

No dia 15 de outubro de 2017 partiu de Coimbra, às 8h00, um autocarro em serviço ocasional com um grupo de 52 pessoas com destino marcado para um convívio em Cabanas de Viriato. Ao fim do dia, por volta das 19h00, começou a viagem de regresso e o início de uma noite de “terror”. Os relatos que se seguem são dos intervenientes que nessa noite tiveram nas mãos o destino de centenas de pessoas.

Em Cabanas de Viriato, estava completamente noite e já se avistava imenso fumo, mas o motorista prosseguiu viagem pois não tinha nenhum aviso em contrário. O autocarro seguiu pelo IC12 em direção ao IP3, mas quando ali chegou, por volta das 20h00, deparou‐se com esta estrada cortada pelas autoridades, no sentido Coimbra, só estando transitável no sentido de Viseu. O motorista falou com o agente que o aconselhou a ir para Viseu, apanhar a A25 em direção a Albergaria, e aí apanhar a A1 para Coimbra. Assim o fez.

Seguiu de Santa Comba pelo IP3 para Viseu e apanhou a A25. Durante este percurso tudo estava normal e limpo, sem qualquer problema de visibilidade. Mas, ao entrar na A25 perto da área de serviço de Vouzela, deparou‐se com carros na sua faixa de rodagem em contramão e começou a questionar‐se acerca do que se passaria. Foi avançando até que se deparou com um grande acidente na sua faixa, o de duas senhoras, em que os seus carros embateram num choque frontal. As duas morreram. O motorista veio a saber mais tarde que uma das vítimas estava grávida.

Viagem em contramão

O motorista avançou lentamente para a área de serviço, com os quatro piscas ligados, passando por cima de destroços do acidente. Ali estavam mais viaturas estacionadas aleatoriamente. A situação estava muito complicada neste local, era o caos, com pessoas agitadas e transtornadas, devido às complicações na estrada, ao acidente, e também pelo incêndio que vinha de Aveiro em direção a Viseu. A eletricidade falhou várias vezes e existiu falha nas comunicações.

No interior do autocarro as pessoas estavam sobressaltadas e perturbadas. Alguns passageiros saíram da viatura e outros começaram a entrar em pânico porque o fogo vinha na direção da área de serviço, sendo um local de elevada perigosidade devido aos combustíveis armazenados. O ambiente era de respiração difícil, devido à existência de muito fumo. A velocidade do vento era muito elevada, ao ponto do motorista descrever que não conseguia abrir a porta do autocarro.

Pouco antes das 23h00 houve ordens por parte das autoridades para os carros evacuarem a área de serviço, invertendo a marcha e conduzindo em contramão na autoestrada, pois o fogo vinha na sua direção. O motorista realizou a tarefa complicada de juntar todos os passageiros para seguirem viagem, conforme as autoridades ordenaram. Quando deu início à condução para fazer inversão de marcha, às 23h15, já o fogo estava tão próximo que viu o lume a atingir a parte traseira da camioneta.

A viagem foi feita, então, em contramão, em direção a Viseu, e das várias opções em mente, o motorista escolheu dirigir-se a Tondela, pensando ser o local mais seguro naquele momento, até porque tinha lá o terminal rodoviário. Chegou àquela cidade por volta da meia-noite, avistou uma pastelaria, cerca de 200 metros antes do terminal de Tondela, e parou aí para as pessoas irem à casa de banho, e comerem.

Na rua, já estavam muitas pessoas em alerta devido à aproximação do fogo. O condutor do autocarro achava que o incêndio estava a dezenas de quilómetros, mas cerca da 1h30 começou a entrar em Tondela, por meio de partículas incandescentes, bocados de ramos de eucaliptos em chama a caírem em todo o lado e havia muito fumo, bem pior que aquele que tinha experienciado em Vouzela, começando oliveiras a arder. Neste momento pediu para os passageiros entrarem no autocarro, mas alguns não queriam, alegando que iriam morrer aí queimados, mas mesmo assim todos acederam.

O motorista dirigiu‐se mais para o centro de Tondela, procurando um local que lhe parecesse mais seguro, até encontrar uma rotunda grande, com um lago, e decidiu estacionar ali perto, dizendo aos passageiros que caso algo se passasse sempre teriam a água para se refugiarem.

Após 15 minutos de estarem parados na rotunda, perto das duas da madrugada, um pátio próximo do local onde pararam começou a arder e optou, mais uma vez, por abandonar o local com os passageiros a bordo. Conduziu perto de um quilómetro até se deparar com um espaço que lhe parecia bastante extenso e amplo, cheio de candeeiros, parando aí em segurança. O local já tinha muitas pessoas que tinham fugido de casa e que estavam em alvoroço, gritando.

Por volta das 4h30, como tudo estava mais sereno, o motorista resolveu sair do local e dirigir-se ao posto da GNR de Tondela para obter informações sobre o estado das estradas. No posto não havia luz e o telefone fixo estava inoperacional. Falou com um militar que lá estava, para saber qual era a situação nas estradas para Coimbra. Foi informado de que estavam intransitáveis e não tinha informação a que horas iriam ser abertas as vias. Dirigiu-se então até ao terminal de Tondela e, para seu espanto, vê a infraestrutura toda queimada, agradecendo a Deus por não ter optado por ali ficar. Parou no terminal e permaneceu ali até às 6h30, hora a que um colega de Coimbra lhe telefonou a informar que poderia regressar.

No decorrer da viagem, ainda estava bem visível o cenário de tragédia que avassalou toda aquela zona, com eucaliptos a arder, muito fumo e destroços no chão.

Avançou entre as chamas

No mesmo dia, 15 de outubro, partiu de Sátão um autocarro com destino a Coimbra com 50 passageiros, a maioria estudantes. Parou em Viseu, para receber mais pessoas. Seguiu viagem em direção a Coimbra pelo IP3. O motorista, quando estava próximo de Tondela, viu um carro da GNR ultrapassá-lo. Podendo tratar-se de um acidente, foi mais atento à estrada. Passou a ponte perto da Barragem da Aguieira e o cruzamento para Mortágua não visualizando nenhum incêndio e continuou a viagem normalmente.

Na subida, após o cruzamento para Mortágua, de um momento para o outro, o vento ficou muito forte e o motorista viu um bombeiro. Saiu do autocarro para falar com ele e este disse-lhe que não deveria avançar. Mas, com o aumentar do fumo, com o anoitecer e com a quantidade de pessoas que transportava, ao não poder fazer inversão de marcha devido ao separador central ser em betão, o motorista não tinha outra opção senão avançar e pediu aos bombeiros que o acompanhassem. Teve dificuldades em entrar no autocarro, pois o vento era tanto que lhe dificultava a abertura da porta. O calor já começava a ser insuportável. Os passageiros estavam em pânico e pediram-lhe que os tirasse dali. Durante este percurso tudo piorou. O vento, o fumo, as chamas e o calor eram cada vez mais intensos, mas ele nunca parou a condução com receio de que qualquer paragem pudesse ser fatal para o bom funcionamento do autocarro, fazendo todos os possíveis para ultrapassar esta situação e manter os passageiros calmos, sempre com palavras de ânimo e de coragem.

O autocarro atravessou as chamas e já na descida para Almaça tudo acalmou. Foi quando disse: “por aquilo que nós passámos já estamos salvos!”. Nesse momento o filtro do motor do autocarro começou a arder e ele disse aos passageiros para saírem calmamente do autocarro e ficarem todos juntos, no exterior, ao mesmo tempo que pediu aos bombeiros para apagarem o fogo que se gerou. No exterior o calor era insuportável, o motorista descreve que o ar “ardia”, que devido aos eucaliptos, as chamas vinham pelo ar apesar de não haver grandes árvores naquela zona. Após isto, perguntou aos bombeiros se não seria melhor ir para o interior de Almaça ao que lhe responderam que o melhor seria ir para a ponte perto de Cunhedo, e assim o fez.

O motorista dirigiu-se para a ponte e viu que já havia uma fila nas duas faixas, no sentido de Coimbra desde a saída de Almaça, e então colocou‐se na faixa em contramão, pois pensou que só algum veículo de bombeiros é que poderia circular nessa estrada, não existindo perigo, e conseguiu alcançar o meio da ponte perto de Cunhedo. A ponte estava cheia de pessoas e carros parados. Ficaram ali durante duas horas. Um carro de bombeiros passou pelo autocarro e entregou algumas garrafas de água para distribuir pelos passageiros. As comunicações muitas vezes falhavam. Os passageiros estavam em pânico e desespero, inclusive alguns comunicavam com familiares e amigos via telemóvel em tom de despedida. O motorista sempre tentou animar os passageiros, dizendo que ainda havia muito por viver, que ainda iam arranjar muitos namorados(as), e também que tinham um rio por baixo. Todas as pessoas presentes neste cenário estavam em desespero, havia pessoas que desmaiavam, outras rezavam, pessoas desanimadas, era todo um cenário de tragédia.

Aproximadamente às 21h30, as autoridades começaram a pedir para os carros avançarem ordenadamente de 10 em 10 carros, tendo o apoio de uma mota da GNR que coordenava o congestionamento da estrada e indicava o caminho de saída. Chegou com todos os seus passageiros à central de camionagem de Coimbra por volta das 22h30. Quando saíram do autocarro, agarraram-se todos a ele a agradecerem-lhe pela forma decidida e pela coragem com que os conduziu em segurança. O motorista ficou com a convicção de que na ponte do Cunhedo poderiam ter morrido umas 1000 pessoas, caso os carros ali estacionados tivessem começado a arder.

Só a chuva é que acabou com o fogo em Vouzela

O relatório dos incêndios de outubro considerou o de Vouzela como um dos mais complexos desse dia. O vento, apontaram os especialistas, foi o fator com papel mais relevante neste fogo e só a chuva o apagou.

O relato dá conta das dificuldades de combate. “A determinada altura, com o sistema de comunicações inoperativo, não houve uma estratégia de combate integrado neste teatro de operações. Neste período, a maior parte dos meios andava desgarrada nas suas áreas de intervenção, numa atitude compreensível, face à situação, em que cada corporação defendia o seu concelho. Numa fase inicial, as viaturas circulavam na sua área em brigadas constituídas e mais ou menos organizadas, mas depois das 22h30, quando o fogo conheceu um novo episódio de grande intensidade, as equipas perderam ligação entre si, passando a atuar de forma individual, sempre na proteção de pessoas e habitações. A partir desta hora, os populares em pânico faziam de tudo para que os bombeiros protegessem os seus pertences, havendo situações em que chegavam a bloquear agressivamente os veículos de combate em trânsito para que eles não abandonassem a área”, lê-se no relatório.

Um dos autores do documento conta mesmo o que encontrou no dia seguinte, já a 16 de outubro, quando se dirigiu ao quartel dos bombeiros de Vouzela. Ali, encontrou um comandante de operações “exausto, um desconhecimento completo da real extensão do incêndio, dúvidas sobre a verdadeira localização dos operacionais no terreno e uma total falta de informação”.

Como tudo se passou

Os relatos dão conta que o incêndio que teve origem em Albitelhe (o alerta foi dado às 17h21) terá sido de origem criminosa e que uma hora depois já estavam em marcha procedimentos de evacuação de várias aldeias afastadas a vários quilómetros do local de início. “A situação já era muito difícil quando pelas 18h45, com o vento a aumentar ainda mais de intensidade, surgiram vários focos secundários a norte, resultantes de diversas projeções a várias dezenas ou mesmo a algumas centenas de metros. A situação tornou-se ainda mais descontrolável quando surgiu uma nova ocorrência em Varzielas, a cerca de nove quilómetros de distância”, indica o relatório.

Para além da frente principal da ocorrência de Albitelhe, por volta das 22h00, havia outras três frentes. Meia hora depois juntaram-se, provocando uma única frente com grande intensidade e com uma largura superior a sete quilómetros. Foi também por volta das 22h30 que o vento sofreu um aumento grande na sua velocidade e mudou de direção. Este episódio teve um efeito decisivo na devastação que se verificou a partir desta hora e nas tragédias que ocorreram.

A mudança da direção e o aumento da intensidade do vento provocou um aumento grande da velocidade de propagação da frente, fazendo com que o fogo chegasse a Oliveira de Frades às 23h00, deixando pelo caminho um território devastado e sete vítimas mortais.

Com a redução da velocidade do vento e com o aumento da humidade relativa do ar ao longo da tarde de 16 de outubro, o fogo foi perdendo condições de propagação. A chuva chegou às 24h00 desse dia.

Permanecer em casa é "opção mais segura"

Mais de um terço das vítimas mortais dos incêndios de 15 de outubro de 2017 morreu em casa, tendo muitas delas sido surpreendidas pelo fogo enquanto dormiam, revela o relatório do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais. No total, registaram-se 51 vítimas mortais.

Apesar destas mortes dentro das habitações, a equipa do investigador Xavier Viegas concluiu que a permanência em casa constitui “a opção mais segura para não ser colhido pelo fogo”, visto que “houve um número importante de pessoas que optaram por fugir de carro ou a pé e que acabaram por perder a vida, por vezes próximo de casa ou de outros locais mais seguros”.

O documento dá também conta de que “houve casos de pessoas que perderam a vida, ou sofreram ferimentos graves, para tentarem salvar os seus animais domésticos, de estimação ou de criação”, devendo, por isso, “assegurar previamente que os animais dispõem de condições de segurança nos seus estábulos ou recintos de abrigo”.

No documento, o Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais recomenda aos portugueses para que evitem permanecer ou passar – mesmo que seja numa viatura – junto ou por cima de encostas ou desfiladeiros, com fogo e vegetação por baixo, e para que não estejam sozinhos em caso de incêndio.

Domingos Xavier Viegas, coordenador geral do relatório “Análise dos Incêndios Florestais ocorridos a 15 de outubro de 2017”: "Podemos ter de enfrentar situações bem complicadas"

As conclusões deste e de outros relatórios permitem evitar as tragédias do passado? O país está agora mais preparado?

Sim, a ideia é essa. O país está mais preparado mas isso não quer dizer que estejamos completamente preparados porque, apesar de tudo o que aconteceu e de todas das chamadas de atenção, continuamos a verificar muitas falhas. Este relatório foi concluído há poucas semanas e apesar das várias chamadas de atenção continua-se a ver algum descuido, algum desleixo. Posso dar o exemplo da questão da limpeza ao longo das estradas e das vias de circulação que ainda não está de maneira a assegurar uma maior segurança. O mesmo se pode dizer em volta das casas, etc... tem-se feito muito mas ainda há mais para fazer.

Os ambientalistas têm chamado a atenção para a perigosidade de algumas plantas invasoras no território, como por exemplo as mimosas, depois dos incêndios. É um alerta válido?

Sim, sem dúvida. São plantas invasores que tendem a espalhar-se pelo território. E também há a regeneração de eucaliptos na sequência dos incêndios de junho e outubro que se não for devidamente gerida pode criar uma acumulação de combustível muito perigosa.

Tem chovido pouco, existe esta acumulação de combustível. Podemos estar novamente em perigo?

Do ponto de vista de acumulação de combustível, sim, não estamos melhor e se houver condições meteorológicas podemos ter de enfrentar situações bem complicadas.

Defende a profissionalização dos bombeiros e dos comandos. É um caminho que, na sua opinião, é também aceite pelos própria classe?

Penso que muitos bombeiros defendem esta posição. Não se trata de acabar com o voluntariado porque é necessário e é uma riqueza que o nosso país tem. Mas iria permitir cada vez mais quadros profissionais, sobretudo no comando e chefias. Penso que há um acordo de uma parte dos bombeiros para esse aspeto.

O que é preciso mudar para atingir este profissionalismo?

Desde logo dar mais qualificação e preparação aos bombeiros para terem capacidades para chefiar e comandar incêndios ou outros acidentes no âmbito da proteção civil cada vez mais complexos. Para isso é necessário haver condições de formação, como por exemplo, uma academia de bombeiros e recursos financeiros para poder suportar esses encargos.

“As várias habitações destruí das, por vezes vitimando pessoas, fizeram perceber que muitas das nossas casas estão localizadas em zonas de grande risco de incêndio. Depois de 15 de outubro, algumas das casas ardidas foram reconstruídas exatamente no mesmo local, exatamente da mesma forma anterior, como se esta tragédia não tivesse trazido qualquer ensinamento. Compreende‐se que não é fácil inviabilizar um local que tem ou já teve uma construção devidamente licenciada apenas porque houve uma perceção tardia por parte do poder público sobre o risco daquela localização, mas não se compreende que após 15 de outubro continuem a ser construídas de raiz casas em locais de risco elevado de incêndio. É nosso entendimento que os responsáveis pelos licenciamentos deveriam ser chamados a prestar contas pela existência dessas situações”

Recomendação do relatório “Análise dos Incêndios Florestais ocorridos a 15 de outubro de 2017”, elaborado pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra





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