A OUVIR 98.9 FM
           00:00:00 | 00:00:00        
      
  
 
        

Preparados para a greve dos camionistas?

Edição de 9 de agosto de 2019
09-08-2019
 

Ainda estão frescas na memória as imagens da correria às bombas causada pela greve dos motoristas de matérias perigosas durante a última Páscoa. Com mais uma ameaça de greve agendada para 12 de agosto começam os preparativos para evitar que o cenário de caos se repita.

As conversações entre as partes, governo, motoristas e patrões parece estar longe de ser resolvida e até o Presidente da República já se pronunciou. Mas seja qual for a resolução, a preparação para fazer frente à falta de combustíveis está em curso.

José Amaro Nunes, presidente da Federação de Bombeiros do distrito de Viseu, assegura que há uma situação de exceção especial para os bombeiros para que não seja posta em causa a vida e a segurança das pessoas.

“Existem duas gasolineiras que servem os bombeiros para assegurar o serviço normal do pré-hospitalar, transporte não urgente de doentes e incêndios” garante o presidente.

Diz que desta vez o governo tomou as diligências necessárias e a Liga de Bombeiros fez questão de enviar a todos as suas recomendações. “O abastecimento está assegurado para que os serviços continuem a ser prestados da melhor forma, não só para os bombeiros, mas também para todos aqueles que trabalham na proteção da vida e dos bens das pessoas” sustenta.

Segundo o presidente, há uma preparação melhor e mais antecipada e os meios de comunicação também têm ajudado a alertar a população. Mas confessa que nestes assuntos há sempre uma dose de imprevisibilidade. “Pelo menos para cenários normais as coisas estão asseguradas, para situações especiais e excecionais vai ter de haver também respostas especiais e excecionais” assegura.

Sem as mesmas garantias, Jorge Loureiro, presidente da delegação de Viseu da AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) diz que os seus associados estão a preparar-se “como dita o bom senso”.

A principal medida tomada pelos empresários do ramo da hotelaria e restauração tem sido aumentar os “stocks” de bens e armazenar combustíveis nos depósitos dos carros e jerricãs.

“Há uma grande dose de expetativa de que a greve não aconteça, esperamos que haja cedências de ambas as partes para que não se prejudiquem as atividades e os portugueses. Mas também estamos muito preocupados com os estrangeiros que nos visitam, que ficarão bastante mais perdidos e não vão saber lidar com este problema”, relata.

Jorge Loureiro acredita que na restauração e no alojamento o número de clientes vai diminuir.

Mas há quem não esteja tão preocupado. António Coutinho é diretor comercial da Agroviseu, empresa que comercializa medicamentos veterinários. O responsável diz que está tranquilo e acredita que “a greve não vai acontecer e se acontecer não será por muito tempo”. Mesmo assim diz, que aumentou o material em armazem e que estará preparado para os primeiros dias de greve. Como a Agroviseu não faz entregas, coube às empresas de transporte com quem trabalha tomar as devidas providências e dar garantias de que estão preparados para uma eventual greve. António Coutinho acredita que todos estão mais bem preparados do que no episódio anterior mas se a greve se prolongar os impactos podem ser imprevisíveis.

Já o engenheiro Luís Santos, administrador técnico responsável pela Rede de Gás do Centro, não está tão otimista. Luís Santos diz que estão a preparar-se mas que “não é fácil”. Segundo o administrador, já se começa a sentir um atraso nas entregas devido ao aumento das encomendas. “Na semana passada tudo funcionava normalmente mas agora as entregas programadas têm um atraso de 24 a 48 horas”.

Luís Santos assegura que a última greve serviu de lição. “Da última vez estivemos dois dias sem produto”, recorda. Desta vez o responsável conta que a empresa começou a preparar-se para uma eventual greve desde julho. “Os nossos fornecedores tentaram fazer com que o impacto fosse mínimo e disseram-nos para fazer encomendas com antecedência para conseguirmos satisfazer os pedidos antes de sexta-feira. Depois desse dia, se as perspetivas não se alterarem pode ser o caos”, garante o administrador. E conclui com um lamento: “se o cidadão comum fizesse a sua vida normal não seria tão grave, haveria produto e não teríamos as filas que vimos da outra vez”.

Falta de produtos frescos

Situação semelhante é vivida na Confraria de Santa Eulália, em Repeses, Viseu, que presta serviços de apoio social e apresenta valências de lar, apoio domiciliário, centro de dia, creche, infantário e ATL.

Vânia Amaral é engenheira alimentar e é a responsável pela gestão da Confraria. Conta que ainda não alteraram em nada as suas rotinas e que as entregas acontecem todos os dias, quer dos produtos alimentares como de higiene e que por norma têm sempre coisas armazenadas.

A grande dificuldade, segundo Vânia Amaral, será nos produtos frescos. “Não sei como vou fazer com a carne, os frescos e o pão. Podemos chegar ao ponto de os nossos fornecedores não terem combustíveis para nos fornecer, esperamos que estejam precavidos”, aguarda.

Com as férias de verão o número de utentes da confraria é menor mas mesmo assim as entregas do apoio domiciliário podem estar em causa caso a greve se prolongue.

Segundo a responsável, são mais ou menos 45 idosos no apoio domiciliário e outros 45 no lar e mais cerca de 100 crianças que podem vir a ser afetadas. Vânia Amaral ainda tem esperança que não haja greve, mas caso se confirme “vai ser muito complicado, mesmo com os depósitos das carrinhas cheios, uma vez que não temos condições de armazenamento para grandes quantidades” explica.

Independentemente do ramo de atividade todos esperam que as negociações cheguem a bom porto e que haja entendimento entre as partes. Esperam também que caso aconteça, que a greve não se prolongue no tempo até porque qualquer que seja a estratégia adotada todos garantem que não têm como fazer frente a uma paralisação prolongada.

Já começou a corrida aos combustíveis

Os preparativos estão em curso e desta vez todos querem estar precavidos. Segundo uma funcionária de uma das grandes superfícies da cidade, o número de jerricãs foi reforçado um pouco por todo país e Viseu não é exceção. A jovem explica que normalmente nunca há mais do que um ou dois recipientes, mas devido à ameaça de greve a gerência precaveu-se e foram encomendadas duas paletes”.

A trabalhadora refere que os vasilhames encontram-se numa posição de destaque e “estão-se a vender bem”. A colaboradora conta que durante a última greve os jerricãs esgotaram mas que desta vez ainda existem alguns e a procura não indica nenhuma rutura de stock.

Por questões de segurança a quantidade de combustível que se pode transportar em recipientes, sem pagar imposto, é de dez litros. Existem também restrições à quantidade de combustível que pode atestar, ao volume que pode transportar na mala do carro e, principalmente às quantidades que pode armazenar em casa. Quem levar quantidades acima do suposto ou em recipientes indevidos, está sujeito a uma multa.

Em algumas bombas de combustível já se nota um aumento da procura, embora ainda haja a esperança de que a greve não avance. Em Tondela, por exemplo, um dos postos não teve “mãos a medir” há quase uma semana. Em Viseu, a situação parece mais calma, ainda assim a procura tem aumentado.

Rede estratégica de postos de abastecimento

Por causa da ameaça de greve, a Entidade Nacional para o Setor Energético remodelou a Rede Estratégica de Postos de Abastecimento para veículos em geral. Em Viseu, metade dos concelhos não possui qualquer bomba de gasolina, onde o cidadão pode abastecer em situação de crise energética.

No total são 15 postos no distrito de Viseu. Os concelhos de Carregal do Sal, Castro Daire, Cinfães, Lamego, Mangualde, Moimenta da Beira, Mortágua, Nelas, Santa Comba Dão, S. João da Pesqueira, S. Pedro do Sul, Vila Nova de Paiva e Vouzela possuem apenas um posto de abastecimento e Viseu tem dois postos.

Para veículos prioritários, como ambulâncias e viaturas da polícia, existe apenas um posto, que fica localizado na cidade de Mangualde.

O presidente da Câmara Municipal de Tondela, José António Jesus já veio dizer que “é incompreensível que o concelho de Tondela não seja contemplado com um único posto de abastecimento da Rede Estratégica de Postos de Abastecimento de Combustível Rodoviário”.

Já o presidente da Câmara Municipal de Viseu, Almeida Henriques, afirma que existem alguns reservatórios que nos permitem fazer armazenamento para os nossos serviços de limpeza e proteção civil, que não podem falhar”. Acrescenta ainda que espera que o assunto possa resolver-se, mas que do ponto de vista da autarquia, os serviços mínimos que o governo definiu “permitirão sempre que os serviços essenciais continuem a funcionar”, garante o presidente.





  • 2002 - 2019 - Jornal do Centro é uma marca registada da Legenda Transparente, lda
  • Desenvolvido por: WLC.PT