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Quando o amor se transforma em morte

Edição de 8 de fevereiro de 2019
08-02-2019
 

A violência doméstica e no namoro é um fenómeno que não escolhe géneros ou classes sociais. Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Igualdade, garante que é pela educação que a violência se combate. No ano passado, em Viseu, o Núcleo de Apoio à Vítima de Violência Doméstica recebeu 200 pedidos de ajuda, das quais 41 foram por agressões.

“Eram duas da manhã quando recebo uma mensagem no facebook de um aluno a pedir-me ajuda quando viu o padrasto bater na mãe”. A história passou-se com Manuela Antunes, professora de Educação Física e conhecida ativista pelos direitos das mulheres. O aluno, em desespero, partilhou um momento que por certo o irá marcar. “O medo dele era tirarem-no da mãe porque o que está instalado na sociedade é que a vítima é quem tem de mudar de vida, trocar de morada, de escola, de cidade, até de nome. É assustador e dramático”, critica Manuela Antunes que denunciou imediatamente a situação.

Denunciar é, aliás, visto por muita gente um ato de coragem porque, por norma, o agressor não é detido imediatamente e volta a casa, podendo agir de forma ainda mais violenta. “Porque é a mulher que tem de sair de casa? A grande aposta deveria ser em casas de abrigo para agressores porque acredito que muitos deles também precisem de ajuda. Uma pessoa que vive a agredir outra não pode ser uma pessoa feliz”, alerta. Em Viseu, esta semana, abriu precisamente uma Casa Abrigo para acolher mulheres com deficiências mentais vítimas de violência. É a única no país.

Manuela Antunes é também atriz e, numa das peças que o grupo de teatro “Molhe de grelos” apresenta, viveu um dos episódios mais marcantes da sua vida. “No fim da peça, um aluno levanta-se e diz: “O meu avô era chamado na aldeia de ‘corno manso’ porque era o único que não batia na mulher”, exemplifica Manuela Antunes que assinala que a religião e os costumes ainda têm um grande peso nestas questões até porque, lembra, ainda há pouco tempo as mulheres precisavam da autorização dos maridos para viajar para fora do país.

O papel da escola e das associações

Chegaram ao Núcleo de Apoio à Vítima de Violência Doméstica de Viseu, no ano passado, 199 pedidos de ajuda. Desses, 191 eram mulheres. A violência psicológica deu origem a 48 queixas, as agressões causaram 41 pedidos de auxílio.

Manuela Antunes refere que o ensino tem um papel fundamental e que o está a desempenhar. “Acredito que os professores estão atentos e lutam mas não conseguimos sozinhos. A escola não pode substituir a família. A escola insere-se na sociedade, os alunos levam muitos problemas na mochila para a escola e eu pergunto-me como serão eles capazes de os deixar à porta. E é nos pequenos momentos que eles acabam por falar”, relata.

À Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Viseu chegam também relatos dramáticos. “Recebi aqui há uns tempos uma amiga que para mim, com o marido, formavam um casal perfeito. Quando conversei com ela, detetei que, várias entidades, nomeadamente na saúde, sabiam que ela era vítima de violência. E estamos a falar de um crime público. Alguma coisa deveria ter sido feita. Há que orientar a vítima para uma entidade que a possa ajudar, com sigilo”, refere António Fernandes que pede mais proteção para quem denuncia estes casos.

Na última semana, em Moimenta da Beira, Marina Mendes, 25 anos, foi a oitava vítima de um ano que só agora está a começar. Desde Janeiro, até agora, morreram nove mulheres vítimas de violência em contexto familiar, em todo o país.

Há projetos para combater violência desde o ensino básico ao superior

A secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro, diz quais as estratégias para combater a violência e acredita haver um longo caminho para homens e mulheres percorrerem.

Há exemplos vários de jovens que consideram normais comportamentos agressivos ou repressivos. A aposta passa pela educação?

A aposta é na educação e em projetos de prevenção primária e secundária. Temos 19 projetos apoiados pelo quadro comunitário a decorrer no ensino básico, secundário e superior. Há também uma aplicação útil para os educadores que ajuda a desconstruir, através da linguagem dos jovens, alguns equívocos que sabemos que existem e levá-los a distinguir o que é uma relação saudável de uma relação tóxica e de violência. Formámos também, em todo o país, 930 professores que vão ser responsáveis por coordenar a área da cidadania. No próximo dia 14, dia dos namorados, vamos lançar uma campanha que vai mostrar famosos da televisão e do YouTube para chegar rapidamente aos nossos adolescentes e lhes mostrar o que é, ou não, amor, o que é, ou não, saudável.

A Educação Sexual ainda é um parente pobre nas escolas?

É ainda um tema tabu que não tem estado na formação dos próprios professores. O trabalho sobre a sexualidade tem também que ver com afetos e relações amorosas. O trabalho tem de ser reforçado nessa disciplina.

A luta pela igualdade de género já começa a dar frutos ou ainda há um longo caminho a percorrer?

Há sempre caminho a percorrer. Aliás, vemos o ressurgir de movimentos populistas que não aceitam sociedades igualitárias e também surgem movimentos conservadores que colocam estes avanços em questão. Este é um movimento permanente que tem de continuar. Em Portugal só agora é que se nota interesse e eco mediático. A Lei já garante e estabelece a igualdade. Temos de ter mais vozes, mais agentes e os meios de comunicação social podem ajudar a demonstrar às pessoas que, quando falamos na promoção da igualdade entre mulheres e homens, é no sentido de melhorar a vida de homens e de mulheres. Esse é o caminho.





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