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Refugiados da própria terra

Edição de 23 de agosto de 2019
23-08-2019
 

Durante dois dias, uma equipa de reportagem do Jornal do Centro viajou por três dos concelhos mais fustigados pelos incêndios de outubro de 2017. Os habitantes abriram-nos as portas das novas casas recuperadas depois da tragédia, e agora entregues, e falaram, abertamente, sobre o tempo de espera, as dificuldades e o olhar sobre o futuro.

Chegámos à aldeia de Adsamo, na freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, passava pouco das 11 da manhã. Batemos à porta de uma casa, pintada de verde, onde Piedade Fernandes ainda dormia. Perdeu tudo na noite em que o incêndio chegou à pequena aldeia que a viu nascer. Já recuperou a casa, mas a alegria (ainda) não. Durante um ano, tempo que a casa demorou a ser requalificada, esteve na Instituição Irmãos Maristas com o filho. De canadianas nos braços, conversou connosco durante cerca de meia hora à porta de casa. Sente-se cansada e doente. Está feliz com a “nova” casa, “mas nada é como antes”. Deixámos a dona Piedade, que nos confessou que ia voltar para a cama, e começamos a descer em direção a Covelo.

Aqui, encontrámos Manuel Francisco Ribeiro ao cimo das escadas de casa. Não estava sozinho. Consigo estava Faísca. Um novo amigo que lhe foi oferecido pelos homens que lhe requalificaram os dois anexos que perdeu (a casa ficou chamuscada, mas inteira). Tinha acabado de chegar de casa do sobrinho, onde almoça todos os dias. “Por aqui ando um velho abandonado”, começou por dizer Manuel Francisco, de 84 anos.

Quase dois anos depois, ainda há vestígios de destruição na aldeia. Manuel não abre as portas de casa, é viúvo, vive sozinho. “Isto ardeu só por fora, mas ainda tem alguns vidros partidos”, conta. A conversa, junto ao vão das escadas, levou mais de meia hora. Manuel Francisco não se queixa muito de nada. “O que me interessava era ter saúde e andar por aí mais uns anos”. Lembra-se bem da noite de 16 de outubro de 2017. “Sabe o que fiz para passar a madrugada? Tinha ali um garrafão de cinco litros de cachaça e bebi toda a noite até de manhã”, contou, a sorrir.

Manuel perdeu os anexos. Ganhou uns novos e um amigo. Fiel. O Faísca. Que ali ficou no quintal de casa, junto ao dono, enquanto nos afastávamos de Covelo, rumo a Sacorelhe.

Maria de Jesus, de 86 anos, esteve afastada da aldeia durante um ano e sete meses. “Isto andou muito devagarinho porque eles andavam a reconstruir a minha casa e a do vizinho ao mesmo tempo”. Foi para Águeda, para casa do filho. “Perdi tudo quanto tinha e para o qual trabalhei durante toda a vida. Ficou tudo em cinza. Pelo menos fiquei eu para contar”, disse-nos. Está contente com a casa “nova”. “Gostava da antiga porque já estava habituada lá, mas agora gosto mais desta. É pequenina, mas para mim chega”, confessou.

Perguntámos-lhe se há alguma coisa lhe faz falta. “Só a saúde, mais nada”, respondeu... “e estar sozinha. Gostava que alguém viesse para ao pé de mim. Eu pagava”. A solidão entristece-a. Maria de Jesus desloca-se com dificuldade com o apoio de uma canadiana. Tem um sorriso no rosto, mas, como diz, sente-se sozinha.

Da nova casa, teve que mandar fazer o terraço à sua conta. “Da forma como o deixaram, as vacas do vizinho vinham para aqui fazer porcaria à porta de minha casa”, disse. A Deus pede saúde e que não a deixe morrer sozinha.

Do pouco que tem dentro de casa, a cama, a mesa de jantar, um sofá-cama, bancos, cadeiras, dois armários e uma televisão, foi tudo oferecido. Maria de Jesus comprou, apenas, o ferro de engomar, um grelhador e uma varinha mágica.

Chave na mão há 15 dias, mas sem luz e água em casa

Seguimos para Mortágua. Em Rio Milheiro, encontrámo-nos com o sr. Torres, de 59 anos. Entregaram-lhe a chave de casa há cerca de 15 dias, mas ainda não se mudou. Ainda não tem luz, nem água. Continua realojado numa casa da Câmara Municipal, onde está desde a altura do incêndio.

Abriu-nos a porta da casa. Em cima da mesa da sala ainda estavam vestígios da festa de inauguração.

No andar de cima tem dois quartos mobilados - um que há-de ser para o sr. Torres, e outro que há-de ser para o cunhado, que vivia consigo há data do incêndio - uma casa de banho, uma cozinha e uma sala. No andar de baixo, um quarto ainda por mobilar, uma casa de banho e uma loja. Perguntámos-lhe se gosta da casa. “Gosto. É 100 por cento melhor que a outra” Não lhe falta nada? “Companhia, só”, respondeu, baixando a cabeça.

Ainda chora a morte da mulher, que perdeu há quatro anos, e a do pai, há quatro meses, mas mesmo assim continua com vontade de viver. De voltar para a casa, que nunca há-de ser a sua, tem e não tem. “Aqui [na aldeia] não há gente”, lamenta.

Começar do zero

Na aldeia do Freixo, encontrámos a dona Lurdes. Voltou para casa há dois meses. Está contente com a nova habitação, apesar de dizer que “é muito diferente da outra”, que era “muito maior”. Queixa-se da falta de arrumação e das coisas que perdeu e que nunca há-de voltar a recuperar. “Falta cá muita coisa que ainda vou ter que comprar: umas cortinas, porque não posso ter as janelas assim, tinha 20 cadeiras, agora tenho seis. Tinha um forno, onde cozia a minha broa. Só me fizeram apenas a casita. Não tenho onde pôr nada e daqui até ter as minhas coisinhas em ordem ainda vou ter que gastar muito dinheiro”, lamentou.

Foram vários os empreiteiros que passaram pela casa de dona Lurdes, que, de dia para dia via a obra parada. Durante quase dois anos esteve em casa de uma filha, na aldeia, que está emigrada. O último empreiteiro que por lá passou prometeu-lhe entregar a casa por a altura do seu aniversário (20 de junho). Entregou-lha no dia 11.

Apesar de ter perdido tudo, a dona Lurdes tem um sorriso no rosto. Perguntamos-lhe o que é que ainda a faz sorrir. “A coragem. Tenho tido muita e pedido a Deus que ma dê”. Contou-nos que o marido, acamado, quando voltou à casa, acompanhado por uma terapeuta, perguntou pelo pátio e pelo forno que dantes ali havia. “Está tudo diferente”, mas diz estar mais feliz desde que voltou. “A nossa casa é a nossa casa”.

A dona Lurdes já teve que fazer obras em casa, nomeadamente adaptá-la à doença do marido, que está acamado. As faturas, disse-nos que vai entregá-las na Câmara Municipal, para reaver o dinheiro.

"São uns caloteiros"

Seguimos para Treixedo, já no concelho de Santa Comba Dão. À nossa espera estava Armando Roque, o proprietário da moradia que começou primeiro as obras nesta aldeia. A empreitada foi executada por um consórcio de construtoras que foi contratado pela CCDRC – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, mas Armando viu-se obrigado a deitar as “mãos à obra”, para que a sua casa estivesse pronta no início do ano. Com a ansiedade de ver a casa pronta, assinou um contrato de trabalho com um subempreiteiro do consórcio da Ediv isa, contratado pela CCDR, e durante quatro meses trabalhou “de sol a sol”, a maioria dos dias sozinho. “Apesar de ter andado na obra praticamente todo o tempo sozinho, ainda tenho muito dinheiro a receber da empresa”, que teima em não lhe pagar o que deve.

Os problemas em casa começaram a aparecer e Armando apercebeu-se, não fosse pedreiro. “As portas não fechavam, a casa estava cheia de humidade, as caleiras vertem água nos quatro cantos, a porta da garagem não fecha totalmente, a porta da entrada principal já foi reparada sete vezes e os tetos dos quartos já voltaram a ser pintados”, enumerou. Também em relação a eletrodomésticos e mobiliário, que se viu obrigado a comprar, dizem não lhe devolver o dinheiro na totalidade. Por exemplo, o sofá, em chaise longue (em L), e a máquina de secar a roupa são considerados luxo e, por isso, Armando não vai conseguir reaver o dinheiro.

Obra arrancou, mas, entretanto, foi demolida

Francisco Marques viu a casa da mãe ser levada pelo fogo. Concorreu ao programa de recuperação de casas ardidas e a candidatura foi aceite. Em julho de 2018 assinou o projeto, em como concordava com a proposta de reabilitação da casa. Mas, entretanto, tudo mudou.

“Demoliram a estrutura que restou do fogo, que ainda estava boa para se poder reconstruir, para fazerem a obra à maneira deles. De um momento para o outro, pararam a obra, arrancaram a vedação e deixaram isto sem condições de segurança”, contou-nos Francisco, acusando a empresa de ter levado material da obra.

À data do incêndio, a proprietária da casa, mãe de Francisco, estava num lar, onde permanece, argumento que, mais tarde, a CCDR utilizou para explicar o cancelamento da requalificação. “Não é considerada casa de habitação permanente”, era o que estava escrito na carta que Francisco diz ter recebido. “Sentimo-nos revoltados porque até temos mais prejuízos. A casa tinha estrutura suficiente se, agora, quiséssemos reerguer a casa. Tinha estrutura em betão armado, que deitaram abaixo”, frisou Francisco Marques, revoltado.

CCDRC diz que recuperação das habitações atingiu 90 por cento

Segundo a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), a recuperação das habitações permanentes destruídas total ou parcialmente situa-se nos 90 por cento.

A presidente da CCDRC, Ana Abrunhosa, disse que até agora “estão concluídas e foram entregues aos proprietários” 734 das 817 casas reabilitadas ao abrigo do Programa de Apoio à Reconstrução de Habitação Permanente.

“Há concelhos onde já estão concluídas todas as habitações”, adiantou, ao recordar que a recuperação destas casas e o relançamento das mais de 400 empresas afetadas pelo fogo são “as duas áreas de intervenção” daquele organismo em cerca de 30 municípios da região.

Segundo Ana Abrunhosa, “há ainda 84 casas que ainda estão em reconstrução”.

Na sua maioria, trata-se de habitações cujos moradores optaram por assumir os processos de obras, prevendo-se que, neste caso, as famílias terminem as obras “até final do ano”, com mediação da CCDRC sempre que for necessário.

“Daquelas 84, apenas 26 são da responsabilidade da Comissão de Coordenação”, que prevê a conclusão dos trabalhos e o apetrechamento dos imóveis ainda em julho. A responsável disse que a CCDRC “aprovou recentemente mais de 20 processos”, que estão mais atrasados por diversas razões inerentes à instrução, por parte dos donos, dos processos de candidatura ao apoio do Estado.

“É um saldo muito positivo, considerando a complexidade do processo”, afirmou.

Todas as casas entregues, mas ainda se vê trabalho por fazer

Em Tondela, por exemplo, foram avaliados perto de 250 processos referentes a eventuais habitações próprias e permanentes e destes resultaram 174 pedidos de apoio.

No âmbito do Programa de Apoio à Recuperação das Habitações Permanentes, a grande operação de reconstrução envolveu 117 habitações, num valor de apoio bem superior a 9 milhões de euros.

Mas, para o presidente da autarquia, ainda há muito trabalho a fazer.

“Apesar de Tondela ter sido o concelho mais afetado, o mais atingido, com mais casas no programa de apoio, foi também o concelho mais adiantado neste processo de reconstrução e entrega de habitações permanentes aos seus proprietários. Foi um processo muito exigente, mas ainda há trabalho para fazer. Agora é tempo de trabalhar na reconstrução das habitações não permanentes”, afirmou José António Jesus.

CDS questiona sobre condições das casas

Mas nem todos concordam que o processo tenha sido assim tão transparente.

O CDS-PP questionou, recentemente, o Governo sobre a entrega de casas, que dizem não ter condições de habitabilidade.

Depois de uma denúncia que chegou ao grupo parlamentar, por parte do Movimento Associativo Apoio Vítimas Incêndio Midões (MAAVIM), os deputados questionam se é verdade que há habitações “já entregues em que as portas não fecham, em que há estruturas com rachas, em que não há água, luz e esgotos e quantas, se é feita uma vistoria às habitações, antes da receção e entrega da obra e por quem, que medidas já foram tomadas para solucionar estas falhas que consideram de extrema gravidade e quando é que se prevê que estejam entregues todas as casas, com todas as condições de habitabilidade”.

Questionam, também, quantos processos de candidatura para construção e/ou reconstrução de primeiras habitações foram recusados e com que fundamentos.





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